Novo protocolo sanitário permite a entrada do raro subproduto no mercado chinês, onde ele é empregado como matéria-prima na fabricação de medicamentos tradicionais
O cálculo biliar bovino brasileiro ganhou acesso ao mercado chinês após a assinatura de um protocolo sanitário entre os dois países. O acordo, anunciado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária em 27 de julho de 2026, autoriza a exportação do material encontrado naturalmente na vesícula de uma pequena parcela dos bovinos.
Conhecido internacionalmente como Calculus bovis e chamado de niu huang na China, o produto é valorizado pela indústria farmacêutica ligada à medicina tradicional chinesa. A abertura transforma um subproduto pouco conhecido da pecuária em uma possível mercadoria de maior valor agregado.
O que é o cálculo biliar bovino brasileiro?
O cálculo biliar bovino brasileiro é uma formação sólida que pode surgir na vesícula ou nos canais biliares do animal. Sua ocorrência é incomum e geralmente só é identificada durante o processamento das vísceras em estabelecimentos de abate.
Depois de recolhido, o material precisa ser preservado e submetido a procedimentos adequados de secagem, classificação e controle sanitário. Características como peso, formato, coloração, umidade e composição influenciam sua qualidade comercial.
Análises científicas identificam no Calculus bovis substâncias como bilirrubina e diferentes ácidos biliares, incluindo os ácidos cólico, desoxicólico e ursodesoxicólico. Esses componentes também são utilizados como referências para verificar a identidade e a qualidade do produto.
Para que esse material é utilizado na China?
Na China, o cálculo bovino natural é empregado como ingrediente de formulações da medicina tradicional. Ele não é destinado ao consumo como alimento nem deve ser entendido como produto para uso direto ou automedicação.
A indústria chinesa trabalha com diferentes versões da matéria-prima, como o cálculo natural, produtos artificiais e alternativas cultivadas. O material formado espontaneamente no animal, entretanto, é raro, o que aumenta o interesse por fornecedores externos capazes de atender às exigências sanitárias e farmacêuticas.
A autorização comercial está ligada ao abastecimento da indústria de medicamentos tradicionais, e não a uma recomendação médica emitida pelas autoridades brasileiras.
Por que a China voltou a permitir as importações?
Em abril de 2025, o governo chinês iniciou um programa-piloto para permitir novamente o uso de cálculos biliares bovinos importados. A medida foi apresentada como uma forma de reduzir a escassez da matéria-prima e ampliar sua disponibilidade para fabricantes autorizados de medicamentos tradicionais.
O programa alcançou 12 regiões chinesas e estabeleceu que o produto deve vir de países ou territórios sem restrições sanitárias relacionadas à encefalopatia espongiforme bovina, conhecida como doença da vaca louca. As cargas também precisam cumprir as normas aduaneiras, quarentenárias e farmacêuticas chinesas.
Essa mudança regulatória abriu espaço para negociações com o Brasil, um dos maiores produtores e exportadores de carne bovina do mundo.
Mercado para cálculo biliar bovino brasileiro exige controle
A assinatura do protocolo não significa que os embarques começarão automaticamente. Os frigoríficos e processadores interessados deverão atender às regras definidas pelas autoridades dos dois países.
Entre os pontos relevantes estão a origem do material, as condições de retirada, o armazenamento, a prevenção de contaminações e a documentação sanitária. As empresas também poderão precisar de habilitação específica antes de fornecer o produto ao mercado chinês.
Do lado da China, o programa-piloto determina que os importadores sejam fabricantes autorizados de medicamentos que utilizem Calculus bovis. O material deve seguir para a produção farmacêutica, sem simples revenda no mercado comum.
Pecuária brasileira oferece escala, mas volume é desconhecido
A estrutura de abate brasileira ajuda a dimensionar a capacidade potencial de coleta. Em 2025, foram abatidos 42,94 milhões de bovinos sob algum tipo de inspeção sanitária, recorde da série histórica do IBGE e avanço de 8,2% em relação ao ano anterior.
Esse número, porém, não permite estimar quantos cálculos poderão ser exportados. Não há uma estatística nacional que informe a frequência dessas formações nos animais abatidos, nem foram divulgadas previsões oficiais de receita, preço ou quantidade a ser enviada para a China.
A oportunidade comercial dependerá da oferta efetivamente encontrada nos frigoríficos, do número de empresas habilitadas e dos padrões de qualidade exigidos pelos compradores.
Novo destino para um subproduto raro
A abertura mostra que a cadeia bovina gera oportunidades além da carne e do couro. Materiais retirados durante o abate podem abastecer setores farmacêuticos, químicos, cosméticos e de alimentação animal quando são processados dentro das normas sanitárias.
No caso do cálculo biliar, a China oferece um mercado especializado, mas altamente regulado. O acordo cria a base legal para a exportação, enquanto o resultado econômico dependerá dos primeiros contratos, das habilitações concedidas e da regularidade dos embarques.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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