“Coleira” revela quanto metano cada boi emite individualmente na fazenda

Tecnologia acompanha os gases liberados por cada bovino durante sua rotina e pode ajudar pesquisadores a entender por que animais do mesmo rebanho apresentam níveis diferentes de emissão

Saber quanto metano cada boi emite ainda é um desafio quando o animal está longe de laboratórios e segue normalmente sua rotina de alimentação, pastejo e descanso. Uma tecnologia lançada comercialmente nesta quarta-feira (26) pretende mudar esse cenário ao medir as emissões de bovinos de forma individual, diretamente nas condições encontradas dentro das propriedades rurais.

O equipamento, chamado ZELP Sense, é instalado na cabeça do animal e possui sensores próximos ao focinho. O objetivo é registrar os gases liberados ao longo do dia sem a necessidade de colocar o bovino dentro de uma câmara fechada ou fazê-lo visitar repetidamente uma estação fixa de medição. A novidade chama atenção porque permite olhar para uma diferença que fica escondida quando as emissões são calculadas apenas pela média do rebanho: nem todos os bovinos produzem a mesma quantidade de metano.

Quanto metano cada boi emite pode mudar de um animal para outro

Uma pesquisa publicada em 2026 no Journal of Dairy Science ajuda a dimensionar essa diferença. Os cientistas avaliaram 79.040 médias semanais de emissões obtidas de 9.923 vacas Holandesas, pertencentes a cinco rebanhos comerciais nos Estados Unidos.

A produção de metano registrada ficou, em média, em 355,98 gramas por dia, enquanto os dados semanais analisados apresentaram valores entre 97,31 e 674,15 gramas diários.

Isso não significa que qualquer bovino vá obrigatoriamente emitir dentro desse intervalo. O levantamento foi realizado com vacas leiteiras Holandesas e as emissões são influenciadas por fatores como alimentação, consumo, tamanho corporal, nível de produção e características próprias do animal.

O estudo, porém, evidencia uma questão importante para a pesquisa pecuária: existe variação mensurável entre indivíduos, e parte dela pode estar relacionada à genética. Os pesquisadores encontraram herdabilidades entre 0,16 e 0,28 nas características avaliadas, indicando possibilidade de utilizar informações sobre emissões em programas futuros de seleção genética.

O que o equipamento realmente mede

Apesar de ser chamado informalmente de “coleira”, o ZELP Sense se aproxima mais de um dispositivo vestível preso à cabeça do bovino.

Uma extensão posicionada próxima às narinas coleta amostras tanto do ar ambiente quanto dos gases expelidos pelo animal. Sensores acompanham informações relacionadas às concentrações de metano (CH₄) e dióxido de carbono (CO₂).

Os registros são armazenados no próprio aparelho e transmitidos por Wi-Fi quando existe conexão disponível. Depois do processamento, os resultados aparecem na plataforma digital ZELP Insight.

Segundo a fabricante, o sistema fornece os valores de CH₄ e CO₂ em gramas por animal por dia e também estima o consumo de matéria seca. Dependendo da configuração contratada, é possível trabalhar com um resultado diário ou leituras consolidadas em intervalos de seis horas.

A possibilidade de armazenar as informações localmente permite utilizar o equipamento mesmo quando a conexão com a internet não está disponível durante todo o período de monitoramento.

Por que medir o gás perto do focinho?

O posicionamento do sensor está relacionado à própria fisiologia dos ruminantes.

Durante a fermentação dos alimentos no rúmen, microrganismos transformam a matéria vegetal consumida pelo bovino e o metano surge como um dos produtos desse processo.

Grande parte desse gás não deixa o organismo pela extremidade posterior do animal, como muitas vezes se imagina. A principal via de liberação do metano entérico é a eructação — o arroto do bovino.

Por isso, capturar amostras do ar próximo às narinas permite acompanhar os gases liberados durante o processo digestivo.

A questão ganhou relevância ambiental porque a pecuária é uma das principais fontes de metano da agricultura. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que os sistemas pecuários representem aproximadamente 32% das emissões antropogênicas mundiais de metano.

Dentro das emissões provenientes da fermentação entérica, os bovinos respondem por cerca de 75% do total global, segundo a organização.

A FAO calcula ainda que os ruminantes liberem aproximadamente 115 milhões de toneladas de metano por ano. O gás permanece menos tempo na atmosfera que o dióxido de carbono, mas possui um impacto climático muito mais intenso no curto prazo: em um horizonte de 20 anos, seu potencial de aquecimento é superior a 80 vezes o do CO₂.

Saber quanto metano cada boi emite muda a pesquisa no campo

Boa parte das ferramentas utilizadas atualmente para medir emissões apresenta algum tipo de limitação operacional.

As câmaras respiratórias conseguem fazer avaliações extremamente controladas, mas exigem infraestrutura especializada e mantêm o bovino em um ambiente diferente daquele encontrado durante sua rotina normal.

Equipamentos instalados em estações de alimentação resolvem parte desse problema, porém dependem da visita voluntária do animal ao ponto de medição.

A proposta de um sensor vestível é diferente: o equipamento acompanha o bovino enquanto ele continua desempenhando suas atividades habituais.

De acordo com a ZELP, o Sense pode funcionar em animais mantidos em instalações, sistemas de pastejo ou modelos mistos. A empresa informa ter acumulado mais de 20 mil horas de uso durante o desenvolvimento da tecnologia.

Essa característica pode ampliar o número de situações em que as emissões são monitoradas. Para a pesquisa, por exemplo, seria possível comparar animais submetidos a dietas diferentes ou acompanhar se determinada estratégia nutricional realmente altera a produção de metano nas condições comerciais da propriedade.

Há também interesse genético. Se milhares de bovinos puderem ser avaliados individualmente, pesquisadores ganham uma base maior para investigar quais características estão associadas a animais mais eficientes.

Isso, entretanto, exige cautela.

O mesmo estudo publicado no Journal of Dairy Science encontrou correlações genéticas desfavoráveis entre algumas características de emissão e características produtivas. Em outras palavras, escolher animais apenas porque produzem menos metano absoluto pode interferir também em aspectos ligados à produção.

Por isso, a tendência é que programas de melhoramento considerem indicadores mais completos, relacionando emissão, consumo e desempenho, em vez de simplesmente selecionar o bovino que libera menos gás por dia.

Tecnologia ainda precisa de validação independente publicada

A chegada comercial do equipamento não significa que todas as dúvidas sobre sua precisão estejam resolvidas.

A ZELP afirma que uma avaliação conduzida pela própria empresa apresentou erro inferior a 10% em relação às medições realizadas por câmaras respiratórias.

A fabricante também informa que testes externos já foram conduzidos em instituições de pesquisa. Entretanto, segundo a própria página técnica do produto, os resultados desses ensaios independentes ainda aguardam publicação científica.

Essa distinção é importante.

Enquanto os trabalhos independentes não forem publicados e analisados pela comunidade científica, os números de desempenho divulgados sobre o ZELP Sense devem ser tratados como resultados informados pela fabricante, e não como uma precisão definitivamente estabelecida para todos os sistemas de produção.

As avaliações futuras serão especialmente relevantes para verificar como o dispositivo se comporta diante de diferentes raças, dietas, idades, ambientes e condições climáticas.

O boi deixa de ser apenas parte da média

Para inventários ambientais, trabalhar com médias continuará sendo necessário. Mas sensores capazes de acompanhar cada bovino podem acrescentar uma informação que antes era difícil de obter em larga escala: a diferença existente dentro do próprio rebanho.

Isso muda a pergunta.

Em vez de saber somente quantos quilos de metano determinada categoria de bovinos produz, pesquisadores podem investigar quais indivíduos apresentam emissões diferentes, quais fatores explicam essa variação e se ela está ligada à alimentação, eficiência produtiva ou genética.

O ZELP Sense chega ao mercado justamente com essa proposta. A tecnologia já está disponível comercialmente, segundo anúncio feito pela empresa em 26 de agosto de 2026, após um período de desenvolvimento realizado com apoio do Enteric Fermentation R&D Accelerator, iniciativa do Global Methane Hub.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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