Com preço elevado do grão, farinha de trigo deve subir

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Foto: Divulgação

Mesmo com limitações, moinhos dizem ter que repassar preços e corte de 500 mil toneladas em estimativa de safra deve pressionar mais o mercado, em meio a concorrência maior com indústrias de ração.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) reduziu em 500 mil toneladas a estimativa para a safra brasileira de trigo. No relatório referente à safra 2021/2022, divulgado na quinta-feira (11/11), a previsão de colheita passou para 7,688 milhões de toneladas. A anterior, de outubro, era de 8,190 milhões. Mesmo com a redução, a safra deve ser recorde e maior que a do ano passado (6,245 milhões de toneladas). Mas não deve representar um alívio, já que o preço não baixou, como ocorre na época de colheita na região sul, que produz 90% do trigo nacional e já colheu mais de 60% da safra.

A redução na estimativa aumenta a pressão sobre os moinhos brasileiros, que já trabalham com margens apertadas desde 2020 e enfrentam dificuldade de repassar os aumentos do cereal. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq-USP, o trigo teve uma alta média de 25% neste ano, mas os repasses ficaram em 12%.

Representantes da indústria e analistas de mercado divergem sobre quando o consumidor do pãozinho, da farinha, do macarrão e dos biscoitos vai receber a conta pelo trigo mais caro, que representa cerca de 75% dos custos da indústria, mas concordam que o repasse tem que ser feito porque o setor já opera com defasagem.

Rogério Tondo, presidente do Sindicato das Indústrias de Trigo do Rio Grande do Sul (Sinditrigo-RS) e dono do moinho Orquídea, diz que a defasagem é de 20% a 25% e que o repasse deve ocorrer nos próximos dois meses, apesar de a demanda estar mais baixa que o normal devido ao menor poder aquisitivo da população.

Ele afirma que a pressão sobre o setor moageiro é maior neste ano porque, embora o preço do trigo já tenha subido bastante no ano passado, os juros estavam bem mais baixos. A Selic, taxa básica de juros da economia, fechou 2020 com 2% ao ano e agora está em 7,75%. “Para se ter uma ideia, hoje o empresário paga de 14% a 15% por financiamento para capital de giro.”

Daniel Kümmel, presidente do Sinditrigo do Paraná e CEO do Moinho Arapongas, calcula uma defasagem atual de 10% a 15% que precisa ser repassada nos próximos meses. “O fato é que o trigo subiu muito mais que a farinha e nós temos ainda aumentos de energia, fretes que dobraram, alta das embalagens e os acordos trabalhistas, que devem elevar os salários entre 8% e 10%.” Segundo ele, os moinhos paranaenses compravam trigo a R$ 950 no início de 2020 e hoje estão pagando R$ 1.700 pela tonelada.

O Paraná, maior produtor e parque moageiro do país, com 67 indústrias, atrasou o plantio e teve uma queda de produtividade e qualidade do trigo nesta safra devido ao clima, que levou a um empate de produção com o Rio Grande do Sul. “O Estado processa de 3,6 milhões a 3,7 milhões de toneladas por ano e a produção não chega a isso neste ano. Temos que importar mais trigo do Rio Grande do Sul, do Paraguai e da Argentina.”

Para Paloma Venturelli, presidente do Moinho Globo, do Paraná, a conta para o consumidor da farinha vai chegar logo porque o setor já não consegue absorver tantos aumentos. Ela conta que comprava trigo a R$ 1.200 no final do ano passado e agora os produtores não estão entregando por menos de R$ 1.600. “Em vez de queda da tonelada neste mês, como esperávamos, houve um aumento”, lamenta.

Alexandre Sales, dono do moinho Santa Lúcia, no Ceará, diz que tem repassado gradativamente os aumentos de acordo com o preço do trigo, dos fretes e da valorização do câmbio. Diferentemente da região sul, que é abastecida prioritariamente pela produção nacional, o Nordeste importa da Argentina a maior parte do cereal que processa.

Roberto Sandoli, consultor do mercado de trigo desde 2013, afirma que a cadeia vem absorvendo os aumentos da matéria-prima, dos fretes e da energia elétrica, mas só consegue repassar aumentos de 2% ou 3% por vez. “O preço da farinha vai ter que subir, mas não vai acompanhar a inflação dos outros alimentos porque a demanda está baixa e o bolso da população não suporta mais aumento. Acredito em repasses de 3% de tempos em tempos.”

Lucilio Alves, pesquisador do Cepea, diz que o setor enfrenta limitações para repassar seus aumentos de custos porque depende dos preços internacionais, do câmbio e também de como se comportam os produtos concorrentes. Ele cita como exemplo, o macarrão, que o consumidor pode substituir pelo arroz, atualmente em queda de preços. “Mas, tudo tem limite e, com todos os custos em altas. Uma hora precisará haver repasse”, ressalta o especialista.

Na avaliação do embaixador Rubens Barbosa, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), os moinhos do país já estão fazendo pequenos repasses de custo, mas isso não deve impactar o preço do alimento básico no café da manhã do brasileiro porque o trigo não é o que mais pesa na composição de preços do pãozinho.

Dados da Associação Brasileira das Indústrias de Panificação e Confeitaria (Abip) indicam que o trigo representa de 28% a 30% do custo do pãozinho e a energia elétrica, que opera atualmente com tarifas mais altas, consome mais 30%.

Paulo Menegueli, presidente da Abip, diz que cada empresário define os valores de venda com base nos custos da sua padaria, mas o setor vê com preocupação o quadro de variação cambial e o custo do trigo, que não tem diminuído. Segundo ele, não há interesse no reajuste dos preços dos produtos panificados porque isso pode acarretar perda de vendas. “Mas, durante o ano passado e este, o setor de panificação absorveu muitos custos, devido aos aumentos nos preços da energia, do trigo e da mão-de-obra.”

O consumidor já vem percebendo a situação no bolso. De acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do governo, o pão francês teve alta de 0,78% em outubro. No acumulado de janeiro a outubro, o aumento foi de 4,99% e, no período de 12 meses encerrado em outubro, de 7,72%. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O macarrão aumentou 1,51% em outubro, 12,30% nos primeiros dez meses do ano e 14,28% em 12 meses. A farinha de trigo ficou 1,53% mais cara em outubro. Nos dez primeiros meses do ano, aumentou 13,41% e, em 12 meses, passou a custar 15,36% a mais.

Por que o trigo subiu?

Aumento de demanda no mundo, queda de oferta, dólar alto e produtor capitalizado pelas últimas duas boas safras explicam a alta no mercado nacional do trigo, que tem seu preço regulado pelo comércio internacional. Mas, diferentemente da soja e do milho, o Brasil não é autossuficiente e depende de importação: importa cerca de 6 milhões de toneladas, especialmente da Argentina, para um consumo anual de 12,5 milhões.

Embora Brasil e Argentina tenham colhido safras recordes, a oferta global caiu por problemas climáticos no hemisfério norte, especialmente nos Estados Unidos e no Canadá. A China, uma grande produtora, elevou as importações para manter estoques suficientes para 18 meses em vez de 12 meses, de olho na segurança alimentar da população de 1,41 bilhão de pessoas. E a Rússia, grande exportadora, sobretaxou as exportações.

“Há um ano, a tonelada de trigo da Rússia custava US$ 200. Hoje, vale US$ 330”, diz Tondo, do Moinho Orquídea, que processa 1.200 toneladas por dia. Em outubro, segundo dados da Conab, a média mensal da cotação FOB Golfo foi de US$ 320,83 a tonelada, uma valorização mensal de 6,11%. Na sexta (12/11), o cereal bateu US$ 8,27 por bushel na bolsa de Chicago (EUA), referência internacional de preços.

O consultor Sandoli explica que um dos fatores que mais impactam o preço do trigo no Brasil é justamente a cotação do dólar. “Com a paridade de importação, o produtor nacional não tem necessidade de baixar o preço do seu trigo, já que a tonelada importada chega a custar R$ 1.900 no porto.” Alves, do Cepea, concorda. “O preço do trigo na Argentina já está maior que no Brasil e não deixa espaço para reduzir o valor da tonelada aqui.”

O apetite das fábricas de ração animal pelo trigo foi outro fator que influenciou o mercado nacional neste ano. Indústrias, entre elas a gigante JBS, mais que dobraram suas compras do cereal para substituir o milho, que ficou mais caro e escasso com a quebra da safra.

Fernando Michel Wagner, gerente comercial América Latina da Biotrigo, ressalta que nem os tradicionais problemas de armazenamento levaram o produtor a baixar o preço do trigo neste ano. “Ele olha pela janela e vê três rotas para o seu produto: moinhos, fábrica de ração ou porto. Vai vender para quem pagar melhor.”

A exportação passou a ser uma rota bem atrativa para o triticultor do Rio Grande do Sul, que investiu no aumento da qualidade do trigo e viu as tradings buscando cada vez mais o seu produto. Isso porque, com a desvalorização do real, o grão brasileiro se tornou um dos mais baratos do mundo. Tanto que as exportações gaúchas, que não passaram de 800 mil toneladas no ano passado, já superam 1,2 milhão neste ano e podem chegar, na avaliação do consultor, a 1,5 milhão.

Em 2022, o preço do trigo vai depender do clima, do tamanho da oferta e também da safra de milho, que se projeta como super safra. Segundo especialistas, é preciso ficar de olho nas condições da lavoura dos Estados Unidos, que está iniciando o plantio sobre incertezas climáticas, e na atuação do La Niña, que pode atingir a Argentina e o sul do Brasil, diminuindo as chuvas necessárias para a produção do cereal de inverno. Outro fator importante será o cenário eleitoral, que tende a manter a volatilidade do câmbio.

Fonte: Globo Rural

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