Como a crise hídrica impacta o agronegócio brasileiro?

Como a crise hídrica impacta o agronegócio brasileiro?

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Foto: Bom Futuro

Piora nas condições do pasto, redução na produtividade e demais efeitos da falta de chuva tornarão desafiador para os gigantes do agro no cenário para 2021

Diante da maior seca do Brasil em 111 anos, a crise hídrica tem sido motivo de muita preocupação devido à predominância da matriz hidrelétrica na geração de eletricidade. No entanto, há outro setor que sofre muito com a falta de chuvas e é justamente a chamada locomotiva do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro: o agronegócio.

Em relatório, a equipe de análise do Itaú BBA lembra que desde fevereiro o Brasil enfrenta um período de chuvas abaixo da média, o que levou o Instituto Nacional de Meteorologia a enviar um aviso de emergência para o período entre junho e setembro para cinco estados: Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná.

De acordo com analistas do banco Morgan Stanley, ainda são esperadas sólidas safras no Brasil comparadas com anos anteriores, mas o tempo seco persistente está levando a uma onda de revisões para baixo nas expectativas de ofertas de grãos. “Isso coincide com os estoques já pressionados e com uma perspectiva de forte demanda global, principalmente devido à recuperação da pecuária na China”, analisa a equipe da instituição financeira americana. O Morgan Stanley projeta um déficit de 9 milhões de toneladas de soja e de 26 milhões de toneladas de milho para o atual ano-safra, que se encerra em setembro.

A consequência disso é que os preços das commodities devem continuar elevados e descolados de fundamentos como custos e margem dos produtores. “Com as notícias negativas relacionadas ao clima e consumidores tentando garantir seu fornecimento, nós projetamos que os grãos de soja fiquem em US$ 13,80 o bushel, e que o milho fique em US$ 5,50 o bushel em 2021.”

Como lembram os analistas, esses valores estão acima dos custos de produção das duas commodities tanto no Brasil como nos Estados Unidos, que são de US$ 7 e US$ 9 o bushel respectivamente para a soja e de US$ 3 e US$ 4 o bushel respectivamente para o milho.

Já para o ano-safra 2021/22 os analistas esperam pequenos superávits de 12 milhões e 7 milhões de toneladas de soja e de milho respectivamente.

Voltando à análise do Itaú BBA, os especialistas ressaltam que a “safrinha” – ciclo de plantio e colheita feito depois da safra “normal”, na qual o plantio é feito entre outubro e dezembro, a estação chuvosa – de milho foi afetada de maneira desigual dentro das microrregiões do Mato Grosso, estado que é o maior produtor da commodity do país. A produtividade de safras por hectare no norte do estado caiu 5%, enquanto a região sul teve uma redução de 8%.

De acordo com o relatório, somando as plantações de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Goiás, as projeções são de uma disponibilidade de 60 milhões de toneladas comparada com um potencial de chegar a 90 milhões de toneladas.

“Isso ocorreu porque em torno de 35% da área agricultável alocada para o milho foi plantada fora da janela ideal (devido ao atraso na colheita de soja) e a falta de chuvas durante a estação de cultivo de também prejudicou os volumes da safra”, escrevem os analistas do Itaú.

Na pecuária os impactos da seca também são sentidos, pois as condições do pasto já estão deterioradas em regiões do Mato Grosso, de Minas Gerais, de São Paulo e do Paraná. “Nós estimamos produção baixa e que a disponibilidade do gado caia ainda mais. Esse cenário é agravado por custos maiores de grãos, que estão contribuindo para os altos gastos dos fazendeiros com alimentação.”

Foto: Divulgação.

Impacto nas empresas

As empresas do agronegócio que possuem ações negociadas na bolsa de valores serão impactadas cada uma à sua maneira, de acordo com o relatório. Os frigoríficos JBS e Marfrig serão menos afetados, já que estão menos expostos ao mercado brasileiro. As operações no país representam apenas 20% e 14% respectivamente do Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciações e Amortizações (Ebitda) de cada uma das duas empresas, aponta o Itaú BBA.

Por outro lado, a oferta restrita de gado pressionará as margens das companhias nas operações brasileiras e a redução da lucratividade nos lotes de confinamento também deve reduzir a disponibilidade de gado no período. “Esperamos que essas duas empresas continuem a experimentar margens desafiadoras dentro de suas unidades brasileiras de negócios de gado”, avalia o banco.

A Minerva, por ter mais exposição ao mercado brasileiro, deve manter margens comprimidas. “Minerva pode ser a mais afetada de todos os três players de gado listados porque a crise hidrológica pode prejudicar a relação valor de mercado dividido pelo lucro da companhia. Além disso, nós destacamos que o real mais forte deve impactar as margens das exportações”, completam os analistas.

No ramo de processados de frango, a BRF deve ser pressionada pelos custos nos preços de grãos, que já estão mais elevados desde a metade do ano passado. “Devido à seca atual, a perspectiva de oferta se tornou ainda mais comprimida e a inflação dos custos deve continuar sendo um tópico recorrente pelo restante do ano de 2021.”

Vale lembrar que, recentemente, chegaram as primeiras cargas de milho argentino importadas pela JBS e pela BRF, que buscam no país vizinho uma alternativa ao produto nacional por causa da quebra de safra.

Um carregamento de cerca de 35 mil toneladas foi desembarcado ao final de maio, no porto de Paranaguá (PR), e um segundo de aproximadamente 30 mil toneladas chegou a Rio Grande (RS) no meio da semana passada, de acordo com informações da Reuters.

Foto: SLC Agrícola

SLC Agrícola

Já o BBA aponta que, exposta à safra do milho, a SLC Agrícola teve a maior parte das suas plantações impactadas pela falta de chuvas, o que levou a uma revisão do guidance para um valor 20% menor de produtividade do produto conforme divulgado na demonstração de resultados da companhia no primeiro trimestre.

Porém, não é tudo negativo para a SLC, pois a empresa fez hedge para aproximadamente 74% da safra atual de milho e, assim, provavelmente será capaz de garantir preços acima da média no mercado à vista.

Além disso, os analistas do BBA explicam que a empresa também fez hedge em níveis mais elevados para a próxima safra, uma vez que os preços dispararam desde o início do ano.

Adaptado do conteúdo da Infomoney escrito por Ricardo Bomfim

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