Como desmamar “um bezerro a mais” e lucrar mais

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Foto: Divulgação

No artigo abaixo, Carlos Henrique Kulik, consultor técnicos de bovinos de corte na Agroceres Multimix, fala sobre a bezerra F1 e suas oportunidades!

Atualmente, estamos vivenciando uma grande valorização do preço da arroba, uma alta muito significativa nos preços dos insumos e, principalmente, uma excelente margem no seguimento de cria. O bezerro está valendo ouro.

Discutir tecnologia junto ao criador nunca se justificou tanto. Desmamar um bezerro a mais, a cada 100 vacas, é o anseio de todo criador, uma vez que a eficiência da fazenda é dada pela quantidade de quilos de bezerros desmamados por matriz que entra na estação de monta. Além disso, gera receita adicional suficiente para subsidiar o investimento em novas tecnologias.

Sabemos que possuir mais “bezerros do cedo” aumenta a produção; compreendemos que usufruir de uma estação de monta mais curta é melhor e; concordamos que recorrer a uma genética de ponta trará ganhos produtivos para a fazenda.

Além disso, entendemos também que explorar a precocidade do rebanho faz todo sentido. Isso porque antecipar a idade que a novilha entra em estação aumenta o número de fêmeas aptas a entregar um bezerro por ano na fazenda, mudando a estrutura do rebanho e toda dinâmica da fazenda, além de selecionar o rebanho para precocidade.

Paralelo a isso, o uso de IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo) é crescente em nosso país, destacando-se o uso de raças britânicas nos protocolos de inseminação, aos quais podemos destacar a raça Angus. Dentre os vários benefícios desse cruzamento (Nelore X Angus), podemos citar: o produto F1 possui desempenho superior à média dos pais (heterose), no qual exploramos a rusticidade e resistência a parasitas do Nelore, com a precocidade (engorda e sexual) e ótima qualidade de carne do Angus.

Nesse cenário – de mercado e produtivo -, recebo frequentemente uma indagação de muitos produtores que atendo.

 Carlos, dado a precocidade da novilha F1 e o momento atual do mercado do bezerro, dos grãos e da arroba, o que vale mais a pena:

  • Vender a bezerra F1 desmamada?
  • Recriar e tirar uma cria dessa novilha F1?
  • Recriar e engordar esse animal?

Vamos aos números!

Foto: Divulgação
  1. Vender a bezerra F1 desmamada?

Para responder a esta pergunta, precisamos primeiro calcular o custo do bezerro desmamado.

Entendendo que o custo do bezerro se origina no custo da vaca, se anualizarmos todos os valores gastos com as matrizes que entram em estação e dividir este custo pela quantidade de bezerros desmamamos, chegamos ao custo do bezerro. Nessa matemática simples a receita gerada pela vaca de descarte é quem paga o custo de reposição da novilha no plantel.

Abaixo segue uma tabela – já com valores de exemplo – anualizando os principais custo da fazenda em relação à vaca.

Neste exemplo, vemos que o custo da vaca é de R$ 1.124,00. Nesse caso, se a cada 100 vacas tivermos 100 bezerros, este seria o custo do bezerro, o que, na prática, é praticamente impossível de acontecer. Sendo assim, para chegar ao custo do bezerro precisamos dividir esse valor anual de custo da vaca pela taxa de desmama, visto que, são os bezerros desmamados que pagarão toda a conta das vacas que entram em estação. Quanto maior o número da taxa de desmama menor o custo do bezerro.

Taxa de desmama: Número de bezerros desmamados/ número de vacas expostas a reprodução X 100

Utilizando para cálculo o valor de taxa de desmama de 65%, temos o valor do bezerro equivalente a R$ 1.729,30. Se pensarmos nos custos atuais de venda de bezerros – em torno de R$ 14,00/kg -, concluímos que uma bezerra de 210 kg seria vendida por R$ 2.940.

  1. Recriar e tirar uma cria dessa novilha F1?

Aproveitando o bom momento da cria, o criador pode optar ainda por segurar essa fêmea F1 para tirar uma cria, visto que essa fêmea herda a precocidade da raça Angus e consegue emprenhar facilmente aos 14 meses de idade. Abaixo, vemos um protocolo nutricional ao longo das fases da vida desse animal.

SPE seca: suplemento proteico energético para o período seco (consumo 0,5% do peso vivo);
Mineral enriquecido: consumo 0,05% do peso vivo;
Proteico: suplemento proteico (consumo 0,1% do peso vivo);
SPE águas: suplemento proteico energético para o período de águas (consumo 0,5% do peso vivo).

  • 1ªSeca
    Levando em conta que a fêmea desmama em maio com 210 kg, na primeira seca a F1 será recriada com (SPE), pois ela necessita atingir aproximadamente 300 kg aos 14 meses, ou seja, precisa ganhar 0,450kg/dia. Além da suplementação necessita pasto com boa oferta de forragem;
  • 1ª Águas
    Nas primeiras águas a F1 estará com 290 kg. Devemos, portanto, ajustar a lotação e fornecer para as fêmeas prenhas apenas mineral enriquecido. Com a lotação ajustada e boa oferta de forragem os animais deverão atingir desempenho de 0,505kg/dia;
  • 2ª Seca
    Na segunda seca as fêmeas estarão no final da gestação, momento em que ocorrerá a parição. O protocolo nessa fase é proteico 1g/kg de peso vivo. Essa suplementação ajudará na evolução de desempenho para a fêmea parir bem. A meta de desempenho nessa fase é de 0,300kg/dia;
  • 2ª Águas
    No segundo período das águas, as mães estarão amamentando e precisarão engordar para serem comercializadas até os 30 meses de idade. Como teremos pasto, o protocolo de engorda será no SPE, porém precisamos fazer uma desmama precoce quando os bezerros estiverem com 5 meses de idade. As fêmeas desmamadas em pasto, com boa oferta e disponibilidade, consumindo SPE conseguem atingir desempenho de 1 kg/dia e serão comercializadas próximo aos 600kg de peso vivo.

Essa estratégia de tirar uma cria da fêmea F1 é interessante, pois é possível aumentar o número de bezerros desmamados, uma vez que as fêmeas ½ sangue (Aberdeen – Nelore) conseguem emprenhar facilmente com 14 meses, contra 24 meses nos sistemas tradicionais. Outro ponto importante dessa estratégia é que conseguimos aumentar a produção de arrobas e desfrute da fazenda de cria, pois a fêmea F1 tem maior produção de @/ha/ano, quando comparada com uma fêmea nelore ou com uma vaca, na qual o peso é praticamente estável ao longo do ano.

Tabela 2: Simulação retirando uma cria da fêmea F1

Os programas de incentivo à raça angus pagam valor superior à @ da vaca (normalmente preço da @ do macho) para fêmeas bem-acabadas com até 4 dentes. O pecuarista que pretende aproveitar essa diferença de preço da @ deve ficar atento, pois a troca de dentes em um animal meio sangue taurino ocorre normalmente 6 meses antes que em um animal zebuíno.

  1. Recriar e engordar esse animal?

A terceira opção é recriar e engordar essa fêmea. Como já comentado, essa fêmea pode ser comercializada a preço de @ de boi. A seguir, fizemos uma simulação de recria em SPE e terminação na TIP (Terminação Intensiva a Pasto). Nessa estratégia, o animal fica apenas 12 meses na fazenda.

  • 1ª Seca
    O sistema de recria segue o protocolo da fêmea que será destinada à reprodução. A diferença ocorre no período das águas;
  • 1ª Águas
    Nas águas, o animal permanece em SPE durante 3 meses. Com lotação ajustada e oferta de pastagem adequada o desempenho previsto para essa estratégia é de 0,800kg/dia. Após atingir 360kg a novilha vai para a TIP, consumindo 1% do peso vivo de ração, com um desempenho previsto de 1,2kg/dia para ser abatida com 470 kg.

Tabela 3: Simulação recriando e engordando a fêmea F1

Não existe uma receita de bolo! Cada propriedade tem suas particularidades, que precisam ser levadas em conta. O intuito deste texto foi mostrar as opções que podem ser utilizadas, porém os resultados podem mudar devido a diferenças em custos de produção. Então, cada produtor deve avaliar sua realidade, custos e índices, para definir a melhor estratégia.

Fonte: Agroceres Multimix

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