Levantamento da Produção Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, mostra a força de Mato Grosso, Bahia e Goiás entre os gigantes da oleaginosa; São Desidério aparece na liderança, à frente de Sorriso e Formosa do Rio Preto no ranking dos maiores produtores de soja do Brasil
A liderança brasileira na produção mundial de soja é sustentada por uma geografia agrícola muito mais concentrada do que os números nacionais podem sugerir. A oleaginosa é cultivada em 2.640 municípios, mas apenas 20 deles respondem por aproximadamente 14% de toda a produção brasileira, segundo dados da Produção Agrícola Municipal (PAM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Confira os detalhes do ranking dos maiores produtores de soja do Brasil.
No topo desse mapa aparece uma mudança que chama atenção: São Desidério, no oeste da Bahia, ocupa a primeira colocação do ranking, com 2.092.944 toneladas, deixando para trás um dos nomes mais conhecidos da agricultura brasileira, Sorriso, em Mato Grosso, que aparece praticamente empatado, com 2.084.520 toneladas.
A diferença entre os dois primeiros colocados é de apenas 8.424 toneladas, dimensão pequena diante de produções municipais superiores a 2 milhões de toneladas. Logo depois aparece outro município baiano, Formosa do Rio Preto, com 1.958.821 toneladas.
O ranking ajuda a mostrar algo maior do que uma simples disputa entre municípios. Ele revela onde está uma das maiores concentrações de escala, tecnologia, logística e capital da agricultura brasileira.
Bahia coloca dois municípios entre os três maiores produtores
A presença de São Desidério e Formosa do Rio Preto entre os três primeiros evidencia o peso que o oeste baiano conquistou no mapa nacional da soja.
A região integra uma das principais fronteiras agrícolas do Matopiba — território formado por áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — e reúne propriedades altamente tecnificadas, produção em grande escala e forte presença também nas cadeias do algodão e do milho.
São Desidério produziu 2,093 milhões de toneladas de soja, enquanto Formosa do Rio Preto chegou a 1,959 milhão de toneladas.
Os dados fazem parte da PAM, pesquisa anual do IBGE que acompanha área plantada e colhida, quantidade produzida, produtividade e valor da produção agrícola até o nível municipal.
O tamanho econômico dessa produção também impressiona. Nos resultados da PAM 2024 apresentados pelo próprio IBGE, a soja movimentou cerca de R$ 3,7 bilhões somente em São Desidério.
Sorriso segue como uma potência agrícola
Perder a primeira posição isolada da soja não reduz a dimensão de Sorriso no agronegócio brasileiro.
O município mato-grossense aparece em segundo lugar no ranking específico da oleaginosa, com 2.084.520 toneladas, apenas 0,4% abaixo do volume registrado por São Desidério.
E quando a análise é ampliada para os grãos, sua dimensão fica ainda mais evidente. Dados do IBGE apontam que Sorriso produziu 6,1 milhões de toneladas de grãos em 2024, além de possuir a maior capacidade municipal de armazenagem do país, com aproximadamente 5,6 milhões de toneladas instaladas.
É essa combinação entre lavoura, segunda safra, armazenagem, logística e agroindústria que transformou o município em um dos principais polos agrícolas do mundo.
Reis da soja: os 20 municípios que mais produzem soja no Brasil
De acordo com os números da PAM apresentados no levantamento, esta é a lista:
1º — São Desidério (BA): 2.092.944 toneladas
2º — Sorriso (MT): 2.084.520 toneladas
3º — Formosa do Rio Preto (BA): 1.958.821 toneladas
4º — Rio Verde (GO): 1.572.500 toneladas
5º — Nova Ubiratã (MT): 1.500.600 toneladas
6º — Cristalina (GO): 1.323.300 toneladas
7º — Querência (MT): 1.230.000 toneladas
8º — Jataí (GO): 1.170.000 toneladas
9º — São Félix do Araguaia (MT): 1.164.706 toneladas
10º — Campo Novo do Parecis (MT): 1.141.652 toneladas
11º — Nova Mutum (MT): 1.140.000 toneladas
12º — Sapezal (MT): 1.123.911 toneladas
13º — Paranatinga (MT): 1.120.177 toneladas
14º — Diamantino (MT): 1.014.303 toneladas
15º — Baixa Grande do Ribeiro (PI): 1.007.447 toneladas
16º — Brasnorte (MT): 966.817 toneladas
17º — Barreiras (BA): 960.671 toneladas
18º — Luís Eduardo Magalhães (BA): 926.476 toneladas
19º — Primavera do Leste (MT): 904.800 toneladas
20º — Ponta Porã (MS): 869.400 toneladas
Fonte: Produção Agrícola Municipal (PAM/IBGE)
Mato Grosso domina em número de municípios
Se a Bahia ficou com a liderança individual, Mato Grosso domina quando se observa a quantidade de municípios presentes entre os 20 maiores.
São dez cidades mato-grossenses na lista: Sorriso, Nova Ubiratã, Querência, São Félix do Araguaia, Campo Novo do Parecis, Nova Mutum, Sapezal, Paranatinga, Diamantino e Brasnorte.
Ou seja, metade de todo o Top 20 está em Mato Grosso.
A Bahia aparece com quatro representantes — São Desidério, Formosa do Rio Preto, Barreiras e Luís Eduardo Magalhães —, enquanto Goiás possui três: Rio Verde, Cristalina e Jataí. Piauí e Mato Grosso do Sul completam o ranking, respectivamente com Baixa Grande do Ribeiro e Ponta Porã.
A distribuição evidencia dois grandes eixos de produção: o Centro-Oeste consolidado e o avanço da agricultura empresarial pelo Matopiba.
Onze municípios já ultrapassam 1 milhão de toneladas
Outro número ajuda a dimensionar a escala dessas regiões.
Considerando os volumes apresentados no ranking, 11 dos 20 municípios produzem individualmente mais de 1 milhão de toneladas de soja.
São Desidério, Sorriso e Formosa do Rio Preto estão próximos ou acima da barreira de 2 milhões de toneladas, enquanto Rio Verde e Nova Ubiratã superam 1,5 milhão.
São volumes que ajudam a explicar por que decisões tomadas dentro de alguns poucos municípios podem repercutir em toda a cadeia: preço de terras, fretes, demanda por fertilizantes, sementes e defensivos, armazenagem, máquinas agrícolas, crédito e capacidade de processamento.
Brasil caminha para uma safra de soja histórica
O ranking municipal ganha ainda mais relevância diante do tamanho que a soja alcançou no país.
Na PAM 2024, o IBGE contabilizou 144,5 milhões de toneladas de soja, cultivadas em 46,2 milhões de hectares. A oleaginosa respondeu por 33,2% do valor de toda a produção agrícola pesquisada naquele ano.
Desde então, a produção voltou a avançar.
O material que serve de base para este ranking cita projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) de 180,5 milhões de toneladas para a safra 2025/26, crescimento de 5,3% sobre a temporada anterior.
É importante, porém, separar os períodos: o ranking municipal vem da PAM do IBGE e retrata a produção consolidada por município, enquanto os números da Conab são estimativas da safra nacional 2025/26. Portanto, não representam exatamente o mesmo ano agrícola.
O mapa da soja mostra onde está parte da força econômica do interior brasileiro
Mais do que apontar quem produz mais, o ranking revela municípios que passaram a exercer influência direta sobre investimentos bilionários no interior do país.
Onde a soja alcança volumes próximos ou superiores a 1 milhão de toneladas, cresce também a necessidade de silos, armazéns, rodovias, terminais ferroviários, esmagadoras, usinas de biocombustíveis, revendas, oficinas, transportadoras e serviços especializados.
É por isso que cidades como Sorriso, Rio Verde, Luís Eduardo Magalhães e Primavera do Leste deixaram de ser apenas grandes produtoras agrícolas para se tornarem polos regionais de negócios.
E talvez o dado mais simbólico esteja justamente no topo da lista. São Desidério, no oeste da Bahia, conseguiu superar Sorriso no ranking apresentado e assumir a liderança nacional da produção municipal de soja, enquanto Mato Grosso mantém uma presença esmagadora no conjunto dos maiores produtores.
A disputa por algumas milhares de toneladas entre os líderes é apenas a parte mais visível de uma transformação muito maior: o Brasil construiu verdadeiras potências municipais da soja, capazes de produzir individualmente volumes que ultrapassam 2 milhões de toneladas por ano.
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