Volume equivale a até 400 mil cabeças e poderia reaquecer as compras de boi-China, mas Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, alerta que operação ainda depende do aval de Pequim
O possível uso pelo Brasil de parte da cota uruguaia de carne bovina para a China ganhou um novo desdobramento. Depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciar que o Uruguai autorizou o aproveitamento de seu excedente, estimativas da Safras & Mercado apontam que cerca de 80 mil toneladas estão em discussão. O volume, porém, ainda não está disponível aos frigoríficos brasileiros: falta a autorização das autoridades chinesas.
A dimensão é relevante para a pecuária. Segundo a consultoria, 80 mil toneladas poderiam representar aproximadamente 320 mil a 400 mil cabeças de gado. Se a autorização sair rapidamente, o movimento poderá provocar uma recomposição das compras de animais habilitados para a China já em outubro, justamente quando as indústrias começam a preparar cargas para 2027.
Fernando Iglesias: decisão continua nas mãos da China
Apesar da sinalização positiva do Uruguai, o ponto central permanece o mesmo: Pequim precisa concordar com a operação.
Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, destaca que a gestão das cotas é responsabilidade das autoridades chinesas e que o Brasil já buscou anteriormente uma flexibilização das regras sem sucesso.
“Por mais que haja aceitação do Uruguai, a decisão final cabe à China, a gestão da cota é 100% de responsabilidade das autoridades chinesas. Vale o histórico de que o Brasil já tentou flexibilização anteriormente e a resposta foi negativa”, afirma Iglesias.
O alerta atualizado da Safras & Mercado reforça essa cautela. Além da anuência chinesa, seria necessário estabelecer um mecanismo que permita contabilizar carne de origem brasileira dentro do volume originalmente destinado ao Uruguai. Por isso, a consultoria recomenda tratar as 80 mil toneladas como uma possibilidade, e não como oferta adicional já garantida ao Brasil.
Outubro vira a principal janela
Mesmo que a autorização chinesa seja concedida, existe outro desafio: o tempo.
O trânsito marítimo entre Brasil e China leva aproximadamente 45 a 60 dias. Dessa forma, outubro seria praticamente a única janela segura para concentrar embarques com possibilidade de internalização da carne ainda em 2026. A partir de novembro, cresce consideravelmente o risco de a mercadoria chegar apenas em 2027.
Quando a carne poderia chegar à China?
| Embarque no Brasil | +45 dias | +60 dias |
|---|---|---|
| 1º de outubro | 15 de novembro | 30 de novembro |
| 15 de outubro | 29 de novembro | 14 de dezembro |
| 31 de outubro | 15 de dezembro | 30 de dezembro |
| 10 de novembro | 25 de dezembro | 9 de janeiro de 2027 |
| 20 de novembro | 4 de janeiro de 2027 | 19 de janeiro de 2027 |
A tabela deixa claro o tamanho da corrida contra o relógio. Quanto mais tarde vier uma eventual autorização chinesa, menor será a possibilidade de utilização integral das 80 mil toneladas ainda neste ano.
Abiec vê impacto maior em 2027
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) também considera positiva a iniciativa, mas avalia que seus efeitos tendem a ser limitados em 2026 justamente pelo tempo necessário para negociação, embarque e trânsito da mercadoria até a China.
Para 2027, entretanto, o cenário ganha outra dimensão. A cota brasileira será de 1,128 milhão de toneladas, e existe o risco de o limite ser novamente alcançado nos primeiros meses do ano caso o atual ritmo de vendas seja mantido. A Abiec vem defendendo mecanismos que permitam distribuir melhor os embarques ao longo do ano e preservar o fluxo comercial com o principal destino da carne bovina brasileira.
Até 400 mil animais entram no radar
Para o pecuarista, o principal efeito de uma autorização rápida estaria na demanda dos frigoríficos.
A Safras & Mercado estima que 80 mil toneladas correspondam a algo entre 320 mil e 400 mil cabeças. Embora o Brasil tenha capacidade exportadora para absorver esse volume, seria necessário originar, produzir e embarcar rapidamente toda essa carne.
Isso poderia aumentar a procura por boi-China em outubro e novembro, adicionando um novo componente de demanda ao mercado físico.
Por enquanto, porém, o mercado trabalha com uma oportunidade — não com 80 mil toneladas já garantidas. O Uruguai deu sinal verde, mas o movimento capaz de transformar essa possibilidade em novos embarques brasileiros ainda precisa vir de Pequim.
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