Tyson Foods anuncia nova reestruturação na carne bovina em meio à escassez de animais nos Estados Unidos, enquanto divisão do setor pode acumular prejuízo de até US$ 650 milhões em 2026
A crise do gado nos Estados Unidos está provocando mudanças cada vez mais profundas na indústria frigorífica. A Tyson Foods anunciou nesta quinta-feira, 13 de agosto de 2026, que encerrará as operações de duas unidades ligadas à carne bovina e buscará um comprador para uma terceira instalação, enquanto tenta adaptar sua estrutura à oferta restrita de animais e ao aumento dos custos de produção.
O movimento chama atenção porque parte de uma das maiores empresas de proteínas do mundo e ocorre em um momento no qual os números do rebanho norte-americano ainda não indicam uma recuperação consistente da pecuária de corte.
Crise do gado força Tyson a reorganizar operações
A reestruturação atingirá três instalações da companhia. A Tyson encerrará a operação de carne bovina localizada em Joslin, Illinois, além da unidade case-ready de Eagle Mountain, Utah, responsável pela preparação de produtos destinados ao varejo. Paralelamente, a empresa colocou à venda sua planta de carne bovina de Pasco, Washington.
Com a mudança, a companhia pretende concentrar sua principal estrutura de bovinos em Dakota City, Nebraska; Holcomb, Kansas; e Amarillo, Texas. Parte da capacidade das instalações afetadas será absorvida por outras unidades da rede. Em Amarillo, a previsão é retomar um segundo turno conforme aumente a disponibilidade de animais.
A Tyson afirma que a reorganização permitirá manter um volume semelhante de abate dentro de uma estrutura considerada mais eficiente. A decisão também mostra que o problema enfrentado pela indústria não está apenas na demanda por carne, mas na dificuldade de conseguir matéria-prima em quantidade e preço compatíveis com a capacidade instalada.
Oferta de vacas de corte e bezerros continua apertada
Os dados mais recentes do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) ajudam a dimensionar o cenário.
Em 1º de julho de 2026, os Estados Unidos contabilizavam 94,2 milhões de bovinos e bezerros, segundo o National Agricultural Statistics Service (NASS). O estoque total apresentou leve crescimento, mas indicadores diretamente relacionados à reposição do rebanho de corte permaneceram pressionados.
O país possuía 28,5 milhões de vacas de corte, número 1% menor que o registrado um ano antes. Já a safra de bezerros de 2026 foi estimada em 32,5 milhões de cabeças, queda de 2% em relação a 2025.
Esse detalhe é importante porque o aumento do rebanho total, isoladamente, não significa que a oferta para a produção de carne esteja se recuperando rapidamente. A Tyson destacou que os levantamentos recentes continuam apontando retenção limitada de novilhas, etapa fundamental para ampliar o número de matrizes e reconstruir o rebanho ao longo dos próximos anos.
Tyson prevê prejuízo de até US$ 650 milhões com bovinos
A escassez também aparece diretamente nas contas da companhia.
No balanço divulgado em 3 de agosto, a Tyson projetou que sua divisão de carne bovina deverá encerrar o ano fiscal de 2026 com prejuízo operacional ajustado entre US$ 500 milhões e US$ 650 milhões. O USDA, segundo a própria empresa, projeta ainda uma redução de aproximadamente 3% na produção doméstica de carne bovina no exercício fiscal de 2026 em comparação com 2025.
O desequilíbrio ocorre porque frigoríficos precisam disputar uma quantidade menor de animais, elevando o custo do gado. Mesmo com a carne bovina sendo vendida mais cara ao consumidor, o aumento da receita por produto não tem sido suficiente para neutralizar completamente a pressão provocada pela matéria-prima. A Reuters relata que os processadores vêm enfrentando perdas justamente porque a valorização do gado avançou mais rapidamente que os ganhos obtidos com os preços da carne.
Esse cenário ajuda a explicar por que empresas do setor passaram a rever turnos, plantas e capacidade instalada, buscando reduzir custos enquanto aguardam uma recuperação mais sólida da oferta.
Crise do gado tem raízes na seca e na menor oferta de animais
A atual crise do gado é resultado de um processo que se formou ao longo de vários anos. Períodos prolongados de seca reduziram a disponibilidade de pastagens em importantes regiões produtoras dos Estados Unidos e estimularam pecuaristas a diminuir seus plantéis, inclusive por meio do descarte de fêmeas.
Segundo a Reuters, a disponibilidade de bovinos enfrentada pela indústria chegou a um patamar associado a uma mínima de aproximadamente 75 anos. A situação foi agravada pela interrupção das importações de animais vivos provenientes do México devido às medidas sanitárias adotadas contra a mosca-da-bicheira-do-Novo-Mundo.
O México tradicionalmente fornece animais jovens que seguem para pastagens e confinamentos norte-americanos antes do abate. Por isso, mesmo uma retomada desses embarques não representaria oferta imediata aos frigoríficos: os bovinos ainda precisam passar pelo processo de recria e terminação antes de chegar às plantas industriais.
Carne bovina mais cara chega ao consumidor
A redução da oferta já ultrapassou os limites da indústria e chegou ao varejo.
Em junho, o preço médio de uma libra — cerca de 454 gramas — de carne moída magra ou extramagra atingiu US$ 8,65 nos Estados Unidos, recorde segundo dados federais citados pela Reuters.
A alta cria uma situação incomum na cadeia. O pecuarista encontra preços elevados para os animais, o consumidor paga mais pela carne, mas parte dos grandes frigoríficos continua enfrentando dificuldades para transformar essas cotações maiores em rentabilidade.
É justamente nesse ponto que a reorganização da Tyson ganha relevância. Ao reduzir sua estrutura física e concentrar operações, a companhia tenta ajustar a capacidade industrial ao número de bovinos efetivamente disponíveis no mercado.
Reconstrução do rebanho deve determinar próximos passos
A recuperação da oferta dificilmente acontecerá de maneira imediata. Para ampliar de forma sustentável a produção de bovinos, produtores precisam primeiro reter mais fêmeas para reprodução, aumentar o número de matrizes e somente depois transformar esse crescimento em novas safras de bezerros.
Os próprios dados do USDA mostram que esse processo ainda é limitado: o número de vacas de corte continua abaixo do ano anterior e a produção estimada de bezerros também recuou em 2026.
Por isso, a decisão da Tyson funciona como um sinal importante para toda a cadeia produtiva. Em vez de esperar que a oferta retorne rapidamente aos níveis anteriores, uma das gigantes da indústria está redimensionando agora sua estrutura de carne bovina para trabalhar com um cenário de escassez que ainda pode persistir.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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