Da granja ao prato: Por que a mesma codorna pode botar ovos com tons totalmente diferentes?

Entenda o mecanismo biológico que faz as aves produzirem ovos com tons totalmente diferentes e veja como o manejo correto do estresse protege a qualidade comercial na coturnicultura

Se você trabalha com coturnicultura ou simplesmente consome o produto, com certeza já reparou na esteira de classificação: do mesmo lote, saem ovos com manchas escuras, outros esverdeados e até alguns completamente brancos. Mas o que intriga muita gente no campo é saber que uma única ave é capaz de botar ovos com tons totalmente diferentes de um dia para o outro.

Longe de ser um “defeito”, essa variação visual funciona como um verdadeiro termômetro do galpão. Para o produtor rural, entender os gatilhos por trás dessas cores não é só curiosidade, é estratégia pura para evitar descartes na mesa de embalagem e proteger a lucratividade do negócio.

O que causa a formação de ovos com tons totalmente diferentes?

Longe de ser uma anomalia genética fixa ou um sinal de defeito na ave, a flutuação na cor da casca do ovo de codorna é o resultado de uma intrincada engrenagem fisiológica. Conforme explicam estudos clássicos de avicultura de postura, a base estrutural da casca é composta essencialmente por carbonato de cálcio, o que a torna originalmente branca. O processo de “impressão” das cores e das tradicionais manchas escuras ocorre exclusivamente nas últimas três a quatro horas que antecedem a postura, dentro do útero da ave.

De acordo com o Dr. Carlos Alberto Mendonça, pesquisador em Fisiologia Aviária e consultor técnico no setor de postura, duas substâncias principais atuam como corantes naturais secretados pelas glândulas uterinas: a protoporfirina-IX (responsável pelos tons marrons, avermelhados e pelas manchas pigmentadas) e a biliverdina-IX (que confere nuances de fundo azuladas ou esverdeadas).

“Como a distribuição dos vasos sanguíneos no útero de cada codorna é única, o padrão de manchas funciona como uma verdadeira impressão digital. O ponto crucial para a ocorrência de ovos com tons totalmente diferentes vindos de uma mesma ave é a velocidade de trânsito desse ovo pelo oviduto. Se o ovo passa mais rápido ou mais devagar por essa região devido a estímulos internos, a quantidade e a distribuição de pigmento mudam completamente de um dia para o outro”, esclarece Mendonça.

O gatilho para ovos com tons totalmente diferentes na mesma gaiola

Se a genética dá as cartas sobre o potencial de coloração que o lote pode atingir, as variáveis de manejo ambiental ditam o comportamento diário das aves. Na coturnicultura moderna, o estresse é apontado por especialistas como o principal fator desestabilizador da homogeneidade visual da produção, gerando lotes com frequentes ovos com tons totalmente diferentes.

Quando o rebanho é submetido a fatores estressores, como ruídos súbitos perto dos galpões, presença de predadores domésticos, falhas nos programas de iluminação ou oscilações térmicas severas, o organismo das codornas libera epinefrina (adrenalina). Esse hormônio interfere diretamente nas contrações uterinas e no ritmo do oviduto.

Juliana Silveira, zootecnista e consultora em avicultura de precisão, aponta os impactos práticos desse desequilíbrio para o bolso do produtor: “O estresse pode causar tanto o adiantamento da postura quanto a retenção prolongada do ovo no útero. Se o ovo é expelido prematuramente, a ave não tem tempo hábil de depositar a protoporfirina, resultando em ovos completamente brancos ou extremamente pálidos. Por outro lado, a retenção faz com que o ovo receba uma sobreposição excessiva de pigmento, gerando cascas opacas e excessivamente escuras. Em ambos os casos, o produtor perde a padronização exigida pelas redes de varejo.”

Da granja ao prato: Por que a mesma codorna pode botar ovos com tons totalmente diferentes?
Foto: Divulgação

O sinal de alerta que vai além da estética da casca

Embora variações isoladas de coloração sejam consideradas fisiologicamente normais, uma mudança repentina e generalizada no padrão visual do lote deve acender o sinal de alerta sanitário na propriedade rural. Patologias severas do trato reprodutivo atacam diretamente a capacidade de deposição de pigmentos das aves antes mesmo de comprometerem o volume total de ovos coletados.

Especialistas em sanidade animal destacam que enfermidades como a Síndrome da Queda de Postura (EDS) e a Bronquite Infecciosa, que também acomete codornas japonesas (Coturnix coturnix japonica), causam inflamações crônicas no oviduto. Como consequência, as glândulas responsáveis pela secreção de protoporfirina e cálcio deixam de funcionar corretamente, provocando o surgimento em massa de ovos desbotados, de casca mole ou sem casca, o que inviabiliza a comercialização nacional.

No aspecto nutricional, o equilíbrio macro e micromineral é indispensável. Pesquisas recentes focadas em suplementação de precisão revelam que a inclusão de ferro orgânico e minerais quelatados na dieta de aves de postura melhora significativamente a estabilidade e a intensidade da cor escura da casca. A deficiência crônica de cálcio força o organismo da codorna a priorizar a integridade estrutural do ovo, reduzindo a energia gasta na produção de pigmentos secundários, o que debilita severamente o aspecto comercial do produto final.

Tendências de mercado e o crescimento da coturnicultura nacional

De acordo com dados consolidados da Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) do IBGE, a coturnicultura brasileira atingiu um patamar histórico expressivo, registrando uma produção anual superior a 258,8 milhões de dúzias de ovos de codorna. No topo do ranking nacional, o estado de Minas Gerais lidera isolado com 21% de participação de mercado (produzindo 54,3 milhões de dúzias), seguido de perto pelo Espírito Santo (17,5%), São Paulo (14,4%) e Pernambuco (11,7%).

Esse volume expressivo reflete uma mudança profunda de comportamento do consumidor, que passou a enxergar o ovo de codorna não mais como um item exótico restrito a aperitivos de festas, mas como uma fonte de proteína diária, acessível, prática e rica em nutrientes. No entanto, essa popularização traz consigo uma maior exigência por rígidos padrões de qualidade nas prateleiras.

Para o produtor rural, a ocorrência de cascas despadronizadas impacta diretamente o preço pago pelas grandes distribuidoras. “O consumidor final compra muito pelo aspecto visual e pela homogeneidade da bandeja. Lotes de ovos de codorna que apresentam muita disparidade de cor costumam sofrer depreciação ou descarte sumário na mesa de classificação”, pontua o consultor de mercado agrícola Roberto Dias. “Dominar as técnicas de ambiência, manter o estresse sob controle nas gaiolas e investir em nutrição mineral de alta absorção não são mais diferenciais, são pré-requisitos para garantir a rentabilidade e a sustentabilidade a longo prazo do coturnicultor nacional.”

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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