“Show de horrores”, diz jurado ao criticar touros Nelore em centrais

Médico-veterinário Antonio Carlos Souza questiona padrão racial e conformação de reprodutores; debate também mobiliza técnicos e selecionadores.

A seleção de touros Nelore em centrais de reprodução está no centro de uma crítica do médico-veterinário Antonio Carlos Souza, jurado efetivo do Colegiado de Jurados das Raças Zebuínas. Ao relatar visitas a esses estabelecimentos, ele questiona a conformação de reprodutores apresentados como Nelore e cobra maior atenção às características que definem a raça.

A preocupação envolve corpo, cupim e garupa, mas alcança uma discussão mais ampla: quais critérios devem orientar a escolha dos animais cuja genética será multiplicada nos rebanhos? O posicionamento de Souza encontra pontos de convergência com manifestações anteriores de jurados, técnicos e selecionadores, que defendem maior integração entre avaliação genética, estrutura corporal e identidade racial.

“Uma raça tem que estar definida”

Souza afirma que aproximadamente 80% de seu trabalho está concentrado no Nelore. Segundo ele, a presença de animais de diferentes criadores em uma central de prestação de serviços evidenciou diferenças que considera preocupantes.

“Uma raça, ela tem que estar definida a qual agrupamento ela pertence, seja Nelore, Sindi, Guzerá, qual for”, afirma.

Entre as características criticadas, o jurado menciona animais curtos, pernas curtas, cupins tombados e garupas curtas e estreitas. Ao descrever sua impressão durante a visita, utiliza a expressão “show de horrores”.

O questionamento também alcança o reconhecimento dos exemplares. “E o pior de tudo: todos com a chancela da associação, com o caranguejo na perna. Isso que nos preocupa mais”, declara.

Souza não identifica nominalmente os animais, as centrais ou a associação mencionada. Sua manifestação é uma crítica aos critérios de seleção e caracterização racial, sem apresentar avaliações individuais que permitam concluir sobre o desempenho genético ou reprodutivo dos exemplares.

Outros jurados já fizeram alertas semelhantes

A preocupação com a conformação de animais valorizados pelo mercado aparece em manifestações anteriores do zootecnista José Otávio Lemos.

Em artigo publicado no Compre Rural em maio de 2021, ele escreveu: “Ando assustado com animais vistos nas centrais, em exposições e nas fazendas. Até Grandes Campeões”.

Na análise, Lemos questionou alterações na linha dorso-lombar, falta de harmonia corporal e angulações inadequadas. O argumento central era que tamanho, peso e valorização comercial precisavam ser acompanhados de uma avaliação cuidadosa da estrutura do reprodutor. O alerta sobre a conformação do Nelore também dirigia aos jurados uma reflexão sobre os critérios utilizados nas pistas.

Em 2024, Lemos voltou ao assunto ao utilizar animais do Nelore Adir como referência de caracterização racial. Na ocasião, defendeu que dados de desempenho e avaliações genéticas fossem acompanhados da observação do animal e de seu enquadramento no padrão da raça.

Paulo Leonel e o papel das pistas

A relação entre padrão racial e produção também integra a abordagem de Paulo Leonel, do Nelore Adir. Em participação no Agro360, publicada em fevereiro de 2026, o selecionador discutiu preservação das características raciais, padronização de carcaças e o papel das exposições.

Conforme a apresentação do episódio, sua avaliação é que as pistas se afastaram da realidade produtiva, perdendo parte da função de indicar aos criadores um modelo de animal a ser buscado. A abordagem coloca em discussão a conexão entre os critérios de julgamento e os objetivos da pecuária comercial.

Já Jayme Miranda, ex-presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil, sintetizou sua posição ao discutir o uso das avaliações genéticas: “Tem que fazer um boi com DEPs boas, mas um boi Nelore. Dentro da característica da raça”.

A declaração, anteriormente publicada pelo Compre Rural, expressa uma defesa da combinação entre indicadores favoráveis e identidade racial.

O desafio é combinar os critérios

Uma contribuição técnica para esse debate aparece no artigo “Touros de central: está bagunçado!”, publicado sob autoria editorial BrasilcomZ em outubro de 2021. O texto questiona a diversidade de tipos encontrados nas centrais e manifesta preocupação com aprumos, padrão racial e conformação frigorífica.

Ao mesmo tempo, reconhece o avanço das avaliações genéticas e ressalta que a seleção exclusivamente visual é insuficiente. A proposta é interpretar os índices e as características individuais em conjunto, considerando a realidade produtiva de cada rebanho.

As manifestações ocorreram em contextos diferentes e não representam uma avaliação dos mesmos animais. Ainda assim, convergem em um ponto relevante para o pecuarista: a escolha de um reprodutor exige compreender o que cada informação revela e quais aspectos precisam ser examinados em conjunto.

É nesse encontro entre genética, funcionalidade e caracterização racial que a crítica de Antonio Carlos Souza ganha relevância. O debate pede critérios claros para explicar por que um touro deve ser selecionado — e quais características justificam a multiplicação de sua genética.

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