As pesquisas envolvem técnicas capazes de modificar características específicas dos animais, acelerar processos de melhoramento e, no futuro, ampliar as ferramentas disponíveis para a reprodução bovina.
O uso da engenharia genética para desenvolver bovinos mais tolerantes ao calor e as possibilidades de aplicação das células-tronco na reprodução assistida estão entre as abordagens científicas que podem contribuir para o avanço da pecuária. As pesquisas envolvem técnicas capazes de modificar características específicas dos animais, acelerar processos de melhoramento e, no futuro, ampliar as ferramentas disponíveis para a reprodução bovina.
Os temas vão ser apresentados pelo pesquisador Luiz Sergio Camargo da Embrapa (Juiz de Fora-MS) e pela pesquisadora Anna Denicol, da Universidade da Califórnia, em Davis (EUA), durante o I SIMFertCorte – Simpósio Internacional de Reprodução e Fertilidade em Gado de Corte, em Campo Grande (MS). Embora estejam em diferentes estágios de desenvolvimento, as linhas de investigação têm como ponto de convergência o uso do conhecimento sobre células e material genético para aperfeiçoar características de interesse produtivo e reprodutivo.
Estresse térmico desafia a produtividade da pecuária tropical
Um dos principais desafios da criação de bovinos em regiões tropicais e subtropicais é o estresse térmico provocado pelas condições de temperatura e umidade. Seus efeitos são particularmente relevantes para animais de origem europeia, selecionados ao longo de décadas para características produtivas, mas que apresentam maior sensibilidade ao calor. Entre os exemplos estão bovinos da raça Angus, utilizados na produção de carne, e da raça Holandesa, especializada na produção de leite. Apesar do potencial produtivo dessas raças, as condições ambientais podem comprometer seu desempenho.
Segundo Camargo, o estresse térmico pode afetar a fertilidade, reduzir as taxas de concepção, aumentar o intervalo entre partos e prejudicar a produção. Dependendo das condições, também pode interferir em características relacionadas à qualidade dos produtos de origem animal. O problema não se limita às regiões tipicamente tropicais. Áreas de clima temperado, como parte do Sul do Brasil, podem apresentar verões suficientemente quentes para provocar um desconforto.
Nesse cenário, a proposta da pesquisa é aumentar a capacidade de tolerância ao calor sem abrir mão das características produtivas já selecionadas nas raças. “É trazer um melhoramento para esses animais, fazer com que eles melhorem sua capacidade de tolerar temperaturas mais elevadas. É claro que não vão ser animais totalmente tolerantes ao calor, mas queremos aumentar essa tolerância em relação ao que apresentam atualmente”, explica.
As avaliações iniciais indicaram diferenças no comportamento e na resposta térmica dos bovinos editados em comparação àqueles que não receberam a alteração genética. Os resultados são considerados preliminares e não significam que os animais editados sejam imunes ao estresse térmico. A próxima etapa prevista é ampliar a população fundadora, produzir a geração seguinte e realizar avaliações a campo com maior número de animais.
Células-tronco ampliam possibilidades da reprodução assistida
Outra área em desenvolvimento envolve o uso de células-tronco embrionárias bovinas, conhecidas pela sigla ESC, do inglês embryonic stem cells. A pesquisadora Anna Denicol afirma que a obtenção de células-tronco embrionárias bovinas com características adequadas à manutenção em laboratório é relativamente recente, com avanços importantes registrados a partir de 2018.
Essas células apresentam duas propriedades centrais: capacidade de autorrenovação prolongada, permitindo sua manutenção e multiplicação em cultivo, e potencial de diferenciação em diferentes tipos celulares, “o que faz dessas células ótimas candidatas para uso em reprodução”, indica Denicol. A capacidade de autorrenovação, continua ela, é importante pois permite estudar e manipular essas células em laboratório. Já o potencial de diferenciação abre possibilidades para a obtenção de células especializadas.
Uma de suas linhas de pesquisa envolve a chamada reprodução in vitro, baseada na possibilidade de diferenciar células-tronco em gametas, como óvulos e espermatozoides. “Outra aplicação seria o que chamamos de reprodução in vitro. Isso depende da diferenciação das células-tronco em óvulos e espermatozóides, que poderiam ser utilizados na FIV sem precisar produzir um animal”, comenta a geneticista. Entretanto, essa tecnologia ainda não está disponível para utilização em bovinos.
Os resultados mais avançados nessa área foram obtidos em camundongos, enquanto diferentes grupos científicos trabalham para desenvolver metodologias equivalentes em bovinos. Trata-se de uma perspectiva de pesquisa que depende de avanços no entendimento dos processos de diferenciação celular e na reprodução das etapas de formação dos gametas.
As abordagens apresentadas por Camargo e Denicol mostram diferentes caminhos para o desenvolvimento de tecnologias aplicadas à pecuária, as quais vão estar no primeiro dia do SIMFertCort, no dia 15 de outubro, quinta-feira, focado nos avanços em biotecnologia reprodutiva, no auditório do Sistema Famasul.
O tema de Camargo é o “Incremento da tolerância ao calor em bovinos via edição gênica”, e de Denicol, “Tecnologias reprodutivas utilizando células-tronco na pecuária bovina: estado da arte e perspectivas”. Também na manhã do dia 15, Marcos Vinícius Barbosa (Embrapa) aborda os “Aspectos genéticos e genômicos da fertilidade de touros”, Arlindo Moura (UFCeará), as “Proteínas, protoformas e metabólitos: o que o atlas molecular do plasma seminal revela sobre a função espermática e potencial reprodutivo de touros”, e Simon Lilico (Roslin Institute-UK), a “Edição Gênica”.
Serviço:
I SIMFertCorte – Simpósio Internacional de Reprodução e Fertilidade em Gado de Corte
Data: 15 e 16 de outubro de 2026 (quinta e sexta-feira)
Local: Sede do Sistema Famasul, Campo Grande/MS
Público-alvo: Produtores rurais, profissionais do setor agropecuário, empresas, estudantes e pesquisadores
Inscrições: bit.ly/simfertcorte
Fonte: Embrapa
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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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