Fenômeno deve intensificar o contraste entre excesso de umidade no Sul e calor com restrição hídrica no centro-norte do Brasil, ampliando os riscos para grãos, café, pastagens e rebanhos
Entre lavouras encharcadas no Sul e pastagens perdendo vigor em áreas mais quentes do país, um mesmo fenômeno climático pode provocar problemas completamente diferentes. El Niño acende alerta no campo porque altera a distribuição das chuvas, eleva as temperaturas e interfere diretamente na quantidade de água disponível no solo.
O cenário ganhou força em julho de 2026. O Centro de Previsão Climática da NOAA confirmou que o El Niño já está presente e estimou 97% de probabilidade de permanência até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte, período correspondente ao começo do outono no Brasil. Para o trimestre entre outubro e dezembro de 2026, o órgão calcula 81% de chance de o evento atingir intensidade muito forte.
El Niño acende alerta no campo com rápida intensificação
A Organização Meteorológica Mundial projeta que o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial avance rapidamente. Os modelos analisados pela entidade apontam para um El Niño forte, com anomalias médias da temperatura da superfície do mar superiores a 2 °C em regiões importantes para o monitoramento do fenômeno.
A FAO também colocou a agricultura mundial em estado de atenção. A organização analisou 41 anos de imagens de satélite para identificar áreas agrícolas e pastoris historicamente mais expostas às secas relacionadas ao El Niño. O levantamento mostra que eventos intensos podem provocar quebra de safras, perda de animais, redução da oferta de água e aumento do endividamento das famílias rurais.
Isso não significa que todas as propriedades terão prejuízos. A intensidade dos impactos depende da época em que o fenômeno se estabelece, da interação com outros sistemas oceânicos e atmosféricos, do tipo de solo e da fase de desenvolvimento das culturas. Uma previsão sazonal indica aumento de probabilidade, e não garantia de que determinado evento ocorrerá em todos os municípios.
Regiões brasileiras enfrentam riscos opostos
A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia para o trimestre entre julho e setembro indica chuvas acima da média em áreas do Sul e volumes abaixo do normal em grande parte do centro-norte brasileiro. Ao mesmo tempo, temperaturas superiores à média devem predominar em boa parte do território.
Região Sul
Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o sudeste do Paraná apresentam maior possibilidade de chuva acima da média. O principal risco não é a falta de água, mas o acúmulo excessivo de umidade, que pode saturar o solo, favorecer erosões e diminuir os intervalos disponíveis para semeadura, pulverização e colheita.
As áreas com drenagem deficiente exigem atenção especial. Quando o solo permanece encharcado, as raízes recebem menos oxigênio, as máquinas não conseguem entrar na lavoura e aumenta o risco de compactação causada por operações realizadas fora da condição adequada.
Região Centro-Oeste
Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal e parte de Mato Grosso do Sul entram no período mais seco do ano com temperaturas elevadas. Em julho, o INMET projetou desvios superiores a 2 °C em áreas de Mato Grosso, condição que acelera a evaporação e reduz progressivamente o armazenamento de água no solo.
O tempo firme favorece a maturação e a retirada do milho segunda safra e do algodão mais adiantado. Em contrapartida, lavouras tardias, cultivos irrigados e áreas com baixa capacidade de retenção de água ficam mais vulneráveis à restrição hídrica.
Região Sudeste
O Sudeste deve combinar chuva próxima da média em grande parte do território com temperaturas mais altas. O Espírito Santo aparece como uma das exceções, com previsão de precipitação abaixo do normal, enquanto o oeste de Minas Gerais pode registrar aquecimento superior a 1,5 °C.
Essa combinação aumenta a evapotranspiração das lavouras. Café, frutas, hortaliças e sistemas irrigados passam a exigir acompanhamento mais rigoroso da umidade do solo e da disponibilidade de água nas propriedades.
Regiões Norte e Nordeste
No Norte, áreas do Amazonas e de Roraima podem enfrentar chuva abaixo da média associada a temperaturas elevadas. O quadro tende a reduzir a umidade do solo, limitar o desenvolvimento das pastagens e ampliar o risco de focos de calor.
No Nordeste, a preocupação é maior nos sistemas dependentes exclusivamente da chuva. Temperaturas acima do normal elevam a demanda hídrica das plantas e dos animais, especialmente no Semiárido e em propriedades com pouca capacidade de armazenamento de água.
El Niño acende alerta no campo para soja, milho e trigo
A soja e o milho respondem de maneiras diferentes conforme a região e o estágio da safra. No Centro-Oeste, o efeito imediato do tempo seco pode ser positivo para a colheita das áreas maduras. O risco aumenta nas lavouras que ainda estão em enchimento de grãos ou dependem de umidade residual para completar o ciclo.
Para a safra de verão 2026/27, a atenção estará concentrada no início das chuvas. Uma precipitação isolada pode estimular a semeadura, mas não necessariamente garantir umidade suficiente para a germinação e o estabelecimento das plantas. Por isso, a decisão de plantar deve considerar o volume acumulado, a previsão de continuidade das chuvas e a condição real do solo.
No Sul, soja e milho podem encontrar boa disponibilidade hídrica, mas enfrentar dificuldades operacionais. A Embrapa recomenda reforçar a drenagem, preservar a cobertura do solo contra erosões e intensificar o monitoramento fitossanitário nas áreas sujeitas ao excesso de chuva.
O trigo merece atenção imediata por estar implantado durante a intensificação do fenômeno. Períodos prolongados de umidade podem aumentar a pressão de doenças, reduzir a eficiência de aplicações e prejudicar a qualidade dos grãos próximos à colheita. As orientações técnicas incluem manejo preventivo de doenças, ajuste da adubação e planejamento antecipado da retirada da produção.
Café pode enfrentar maior demanda por água
Nas lavouras cafeeiras de Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo, o principal problema esperado é o aumento da perda de água para a atmosfera. Mesmo sem uma seca severa, temperaturas mais altas fazem o solo e as plantas perderem umidade com maior rapidez.
O INMET destaca que café, frutíferas e hortaliças podem exigir manejo hídrico mais cuidadoso, sobretudo em regiões com estoques reduzidos de água no solo. A situação é mais delicada em lavouras jovens, solos rasos, áreas compactadas e propriedades com irrigação limitada.
A cobertura vegetal ou morta do solo ajuda a diminuir a exposição direta à radiação solar, reduzir a evaporação e conservar a umidade por mais tempo. O manejo da irrigação também deve considerar a necessidade real das plantas, evitando tanto o déficit quanto o uso excessivo de água.
Pastagens e pecuária sentem efeitos do calor
Nas áreas de pecuária extensiva, a redução da umidade do solo limita o rebrote das forrageiras e diminui a quantidade de alimento disponível. A perda de qualidade do pasto pode obrigar o produtor a antecipar o uso de silagem, feno, capineiras ou suplementação concentrada.
O calor também interfere diretamente no comportamento dos bovinos. Sob estresse térmico, os animais tendem a reduzir o consumo de alimento e o tempo de pastejo, aumentando a procura por sombra e água. Como consequência, podem ocorrer menor ganho de peso e queda no desempenho dos rebanhos leiteiros.
Entre as medidas preventivas estão a oferta contínua de água limpa, manutenção de áreas sombreadas, ajuste da lotação dos piquetes e realização dos manejos nas horas mais frescas. A formação antecipada de reserva alimentar reduz o risco de compra emergencial de insumos durante uma estiagem prolongada.
Planejamento pode reduzir a exposição às perdas
A confirmação de um El Niño forte exige decisões baseadas na realidade de cada propriedade, e não apenas em médias regionais. O produtor deve acompanhar previsões de curto e médio prazo, mapas de armazenamento de água no solo e alertas meteorológicos emitidos para sua localização.
No Sul, as prioridades são drenagem, conservação do solo, controle de doenças e organização das operações agrícolas. No centro-norte, o foco deve estar na preservação da umidade, no uso eficiente da irrigação e na preparação das reservas destinadas aos animais.
Também é importante respeitar o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, escalonar épocas de plantio quando tecnicamente possível e revisar as condições do seguro rural. O objetivo não é eliminar completamente o risco climático, mas evitar que todas as áreas e investimentos fiquem expostos ao mesmo problema ao mesmo tempo.
El Niño acende alerta no campo, mas seus efeitos não serão uniformes. Enquanto algumas propriedades podem enfrentar excesso de chuva, outras terão de administrar calor e escassez de água. Monitoramento local e planejamento antecipado serão determinantes para proteger a produtividade e o caixa da atividade rural.
VEJA MAIS:
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.