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Os critérios técnicos para a escolha de espécies forrageiras para o estabelecimento de pastagens.

O processo de degradação da pastagem pode ser revertido através da adoção de práticas preventivas, culturais e de recuperação. O ditado popular “prevenir é melhor que remediar” se aplica neste contexto – ou seja, as práticas preventivas seriam as de maior impacto positivo e entre muitas destas a escolha da espécie forrageira é o primeiro passo.

Antes de relacionar e abordar os critérios para tal escolha da espécie forrageira seria interessante resumir como se tem escolhido espécies forrageiras ao longo dos últimos quase dois séculos desde a introdução das primeiras forrageiras no Brasil provenientes do continente Africano.

Os pecuaristas têm buscado uma forrageira com as seguintes características:

  • Que produza grandes quantidades de sementes de alto valor de germinação e que possam ser semeadas sobre cinzas, tocos e troncos, em terrenos não preparados ou com preparo mínimo, usando apenas uma gradagem, e mesmo assim a pastagem estabelecer-se rapidamente e com vigor;
  • Que produza grande quantidade de massa de forragem por hectare para suportar altas taxas de lotação;
  • Que produza forragem de alto valor nutritivo garantindo alto desempenho por animal;
  • Que seja de alta aceitação por todas as espécies de animais herbívoros e que não cause intoxicações nos mesmos;
  • Que tolere à seca, à geada, ao fogo;
  • Que tolere solos mal drenados e de baixa fertilidade;
  • Que seja resistente aos insetos pragas e às doenças e que seja agressiva para competir com as plantas invasoras.

Seria mais fácil resumir a escolha do empresário rural como “o que eu preciso para plantar la nas minhas terras é o “o capim milagroso””. Infelizmente, o erro maior de todo o processo está no modismo que vivem a maior parte das fazendas do Brasil. É preciso começar a ver e se planejar de acordo com a sua realidade e não com a do vizinho.

Os trabalhos de pesquisa e os fatos demonstram que esta planta não existe e que o sucesso no estabelecimento, condução e persistência de uma pastagem depende basicamente da mudança de atitude por parte dos produtores e técnicos, entendendo que cada espécie tem suas particularidades.

Um dado que chama atenção é que apesar de se ter disponíveis mais de 70 gramíneas e mais de 19 leguminosas já introduzidas no Brasil como opções para o plantio de uma pastagem, atualmente aproximadamente apenas doze plantas forrageiras ocupam áreas expressivas nas pastagens brasileiras.

Só de constituir uma monocultura de um único gênero já seria desafiador pelos riscos que qualquer monocultura traz, mas aqui o risco é ainda maior porque aquelas duas espécies que ocupam 75% da área de pastagens dos Cerrados são, na maioria, de reprodução assexuada ou apomítica, o que leva à baixa variabilidade genética, sendo verdadeiros “clones”. Assim qualquer estresse, seja este biótico (pragas ou doenças) ou abiótico (extremos hídricos e de temperatura) coloca em risco a produção e a persistência da planta em uma dada região.

É só refletir sobre os ataques que a B. decumbens está sofrendo pela cigarrinha-da-pastagem desde a sua introdução no Brasil, como também a “síndrome da morte do capim-braquiarão”, provocado principalmente pela baixa tolerância desta forrageira a solos mal drenados, e aos ataques da cigarrinha-da-cana, ambos os problemas de ocorrência, principalmente na região Norte. Esta falta de diversidade nas pastagens brasileiras pode ser considerada como uma das causas da degradação da pastagem.

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Entretanto, quando olhamos de forma geral, o cenário que encontramos é de pecuaristas que, ainda hoje, continuam correndo atrás do “capim milagroso”, já que ainda pagam absurdos quando as empresas lançam a nova cultivar da moda. Todos acreditam na tal promessa de que “resolve todos os problemas” e vêem seu dinheiro indo pelo ralo com as novas sementes em substituição à aquela que ele não soube manejar e já estava estabelecida na propriedade.

Por isso é de extrema importância o esclarecimento de produtores e técnicos sobre os critérios para a escolha de uma espécie forrageira, critérios estes baseados cientificamente e validados tecnicamente em campo, que de toda forma se adeque a realidade da propriedade assistida.

Avaliação dos critérios para a escolha da espécie forrageira

Antes da avaliação dos critérios para a escolha da espécie forrageira, o técnico que auxilia a propriedade deve se ambientar quanto a realidade da propriedade. O tipo de solo, doenças comuns na região, clima, pragas e microclima em que se atua, são pontos chaves para se iniciar o planejamento para escolha de uma espécia forrageira.

Agora vamos aos critérios para a escolha da espécie forrageira:

1.Exigências climáticas: descartar forrageiras que exigem um índice pluviométrico acima do índice da região e que não tolerem geadas, se é comum a ocorrência destas na região em questão. O técnico tem como fonte de informação a publicação do Departamento Nacional de Meteorologia (DNMET) que apresenta valores das normais climatológicas referentes ao período de 1961 a 1990 de 209 estações meteorológicas (atualmente são 394 estações) com médias históricas para nove parâmetros (atualmente são 29 parâmetros).

2.Exigências em solo: descartam-se forrageiras que não se adaptam às características do solo que o homem não consegue alterar, tais como relevo e profundidade. Depois aquelas que não se adaptam a solos mal drenados e por último, aquelas que são exigentes e muito exigentes em fertilidade de solo, em ambientes onde o solo é naturalmente de fertilidade muito baixa e baixa e por alguma razão não for viável a sua correção e adubação.

O técnico tem como fonte de informação o mapa de solos da EMBRAPA que traz 42 classes de solos e suas associações. Identificada a classe que predomina na região onde se encontra a propriedade basta ao técnico recorrer aos livros de solos e estudar as características daquela classe em questão. Depois amostrar o solo na área em questão para a análise laboratorial.

3.Comportamento frente a pragas e a doenças: descartar forrageiras que sejam susceptíveis às pragas e doenças que aparecem no ambiente em questão, e escolher aquelas pelo menos moderadamente susceptíveis, dando preferência àquelas moderadamente resistentes e resistentes. Particular atenção deve ser dada à praga cigarrinha-da-pastagem e cigarrinha-da-cana devido ao grau de dano econômico que causam.

4.Aceitabilidade pelos animais: descartar forrageiras que não são bem aceitas pela espécie animal que se pretende explorar, tais como as B. decumbens e o capim-braquiarão para o plantio de pastagens para eqüinos. Para ruminantes não há diferenças significativas em aceitabilidade para diferentes espécies forrageiras, desde que estas estejam em piquetes separados, ou seja, o animal só vai exercer a preferência por uma determinada espécie se no piquete houver misturas de forrageiras, pois do contrário, ele consumirá forragem e apresentará desempenho de forma semelhante. Em tempo, o termo palatabilidade não se aplica aqui porque o pesquisador não tem como medir este parâmetro de forma quantitativa, enquanto a aceitabilidade pode ser medida e comparada através de protocolo de pesquisa já padronizado.

5.Distúrbios metabólicos causados aos animais: descartar forrageiras que causam distúrbios em uma determinada espécie animal ou em uma categoria dentro da espécie. Como exemplo, as distrofias ósseas em eqüinos causadas por excesso de oxalato em algumas forrageiras, a fotossensibilização em bezerros, comum em pastagens de B. decumbens, a intoxicação por nitrato em pastagem de capim Tanner-Grass (Braquiária-do-brejo).

6.Formas de plantio: toda forrageira pode ser implantada através de mudas, mas nem todas podem ser implantadas através de sementes. Esta segunda forma de plantio praticamente não tem restrições possibilitando o plantio em pequenas e em grandes áreas, pelos métodos, manual, ou por tração animal, ou tratorizado ou aéreo. O investimento para o plantio da pastagem pode ser duas a três vezes mais baixo quando o plantio é feito através de sementes comparado com o plantio por mudas, quase sempre feito manualmente.

7.Formas de uso: há que definir as finalidades de exploração da área em questão, ou seja – será exclusivamente para pastejo ou apenas para fenação ou ensilagem ou pré-secagem, ou formas destes usos combinadas em uma mesma área. Uma vez definida a forma de uso o técnico que assiste ao produtor definirá o manejo da área: em caso de exploração sob pastejo definirá o método de pastoreio, as alturas alvos de manejo do pastejo, a frequência de pastejo; no caso de áreas para corte definirá a altura e a freqüência de cortes etc..

8.Potencial de produção de forragem: é preciso ser definido pelo produtor com a orientação de um técnico para então se definir qual nível tecnológico da exploração deverá ser aplicado na área em questão: sem correção e sem adubação do solo, ou só com correção do solo; ou com correção e adubação sem ou com irrigação.

Há que se destacar aqui que haverá diferenças na produção de forragem apenas em ambientes em não equilíbrio, ou seja, com restrições climáticas ou de solos e sob o ataque de pragas e presença de doenças. Por outro lado, em sistemas em equilíbrio, sem aqueles tipos de restrições, e com manejo do pastejo orientado pelas alturas alvos de cada espécie forrageira, não haverá diferenças significativas no potencial de produção de forragem entre diferentes plantas forrageiras.

9.Qualidade de forragem: é comum os produtores e muitos técnicos perguntarem qual ou quais forrageiras são mais recomendadas para sistemas de produção de leite ou de carne, ou seja, eles querem saber qual, ou quais forrageiras, são de melhor qualidade.

Por que então não se incluiu nesta lista de critérios para a escolha da espécie forrageira o parâmetro “valor nutritivo” ou “qualidade de forragem”? É porque em ambientes em equilíbrio não há diferenças significativas para os parâmetros, valor nutritivo da forragem (composição química e digestibilidade), valor alimentício da forragem (valor nutritivo e consumo de forragem); e qualidade de forragem, avaliada pelo desempenho do animal.

É preciso salientar que as informações necessárias para escolha correta são bastante complexas e devem ser feitas atreladas entre o conhecimento técnico do consultor da área e conhecimento prático da propriedade que o pecuarista carrega.

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As informações são da Scot Consultoria adaptadas pela equipe do CompreRural.

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