Estratégias para não precisar vender gado magro na seca

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Foto Divulgação

“Seca é igual imposto: a gente sabe que todo ano chega”; Zootecnista aponta estratégias para o pecuarista não precisar vender gado magro na seca.

Seca é igual imposto: a gente sabe que todo ano chega”, comparou em entrevista, o zootecnista formado na Universidade Federal de Viçosa, mestre, doutor e pós-doutor pela Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, Pedro Veiga, gerente global de tecnologia da Nutron, divisão de nutrição animal da Cargill.

O especialista apontou algumas das medidas que o produtor pode tomar para não precisar vender gado para livrar a fazenda da superlotação na entressafra, sobretudo em época de arroba valorizada, que pode capitalizar bem a fazenda.

“A gente tem visto, sim (dificuldade do pecuarista com a seca mais severa de 2020). Inclusive alguns pecuaristas que tiveram que vender boi magro em função da falta de planejamento forrageiro do ano. A gente sabe que não é fácil estimar quando vai chover, mas a gente precisa ter um plano B sempre na manga porque todo ano a seca chega. Pode ser que um ano atrase mais ou menos, mas chega. […] A gente tem visto, sim, pecuaristas que venderam animais magros, que não conseguiram aproveitar o boom da arroba que a gente está vendo hoje, que estão com vacas em escore aquém do que a gente gostaria. Infelizmente a seca ainda pega muito pecuarista de calça curta”, lamentou.

Segundo Veiga, a primeira medida a ser tomada é aproveitar o alimento mais barato que o pecuarista tem à disposição. “Com os preços dos insumos nos patamares que estão, a gente precisa usar ao máximo a comida mais barata que nós temos, que é o pasto. E mais uma vez a gente reforça o que os especialistas já vêm reforçando há muito tempo: nós precisamos tratar o pasto como uma lavoura. Mas a pecuária de uma forma geral ainda é muito deficiente nisso. Então a gente precisa construir fertilidade de solo, nós precisamos construir o que a planta precisa de fertilidade para que ela tenha mais vigor ao longo da época das águas, aí a gente consiga preparar um pasto diferido, se for o caso, na época da seca. Então a gente precisa usar e abusar do pasto”, ressaltou.

Veiga também apontou quais são as opções que o pecuarista pode tirar na manga no caso de o pasto realmente não servir como bom alimento. “De toda maneira, se eu estiver com problemas de disponibilidade pasto, se eu estou numa região onde a seca é mais severa e a chuva mais errática, a gente não pode depender só do pasto. Nós precisamos ter estratégias de volumosos suplementares. A gente pode usar uma silagem, um feno, a tecnologia do resgate, ou sequestro, que está cada vez mais dominada no Brasil, tanto para bezerros na recria ou de vacas em períodos críticos”, apresentou.

Caso falhe em planejar e executar alguma dessas estratégias, o produtor não terá alternativa a não ser se livrar de parte do rebanho para evitar perdê-la. “A gente precisa fazer um planejamento muito bem feito de acordo com a região que a gente está para a gente poder ter convicção se nós podemos ou não contar com o pasto na época da seca, seja através de um diferimento e, se for o caso, planejar para produzir aquele volumoso suplementar, que é indispensável. Caso contrário, nós não vamos ter outra alternativa: vai ter que vender animal na época da seca. Então para quem está bem preparado e produz comida, na verdade, esse pecuarista pode até ter uma oportunidade muito interessante de negócio, que é comprar gado na seca daqueles fazendeiros que não se planejaram. Eles vão ter que vender, caso contrário correm até o risco de perder animais. Então produzir alimentos é fundamental”, resumiu.

Foto: Divulgação

Na sequência, o doutor em zootecnista participou de uma sessão de perguntas e resposta sobre nutrição para gado de corte:

– Quero fazer uma TIP – terminação intensiva a pasto – com a recria. Tenho acesso a caroço de algodão, farelo de soja, milho e sal mineral, mas não estou conseguindo WDG (coproduto das destilarias de álcool produzido do milho). Qual a melhor fórmula com esses ingredientes para a alimentação dos garrotes? (Sérgio Souza, com propriedade em Taquarussu-MS)

Veiga: A gente precisa entender qual é o preço que ele está conseguindo em cada um desses insumos. Mas eu adianto que mesmo não tendo WDG na região, já que ele falou que está tendo dificuldades de comprar, com caroço e farelo de soja a gente consegue fechar a parte proteica tranquilamente. Agora qual a fórmula ideal? Seria importante ele entrar em contato conosco e a gente direcionar um técnico. Dependendo do preço de cada insumo, nós vamos encontrar o balanço ideal desses ingredientes. Mas eu deixo ele tranquilo porque, com o que ele tem hoje, é plenamente possível.

– Faço confinamento no grão inteiro, uso 85% de milho. Então minha dúvida é: qual porcentagem eu poderia colocar de caroço de algodão nessa dieta? É recomendável o uso do ingrediente nesse tipo de dieta? (Murilo Bucar, de Fortaleza do Tabocão-TO)

Veiga: Essa pergunta é muito boa. Quem trabalha com dieta de grão inteiro normalmente trabalha com 85% e 15% de pellets. Mas adicionar uma fonte de fibra é interessante e, nesse caso, é o caroço que vai funcionar não só como um a fonte de fibra, mas também como proteína e energia. A gente recomenda de 3 a 6%. Então, para arredondar, 5%. Ele pode pegar 15% dos pellets que ele tem, colocar 5% do caroço, então vão somar 20% e aí ele completa com 80% do grão inteiro. O caroço vai permitir que o animal coma mais e vai ganhar um pouco mais de peso porque vai diluir um pouco a energia dessa dieta, que é muito energética, já que tem muito milho. Então o caroço dilui um pouco, coloca fibra na dieta, o animal melhora o pH ruminal, ele rumina mais e vai ganhar mais peso. 5% (de inclusão de caroço de algodão na dieta), para responder diretamente a pergunta dele.

– Qual a porcentagem ideal para alimentar os bovinos no confinamento? Uso o milho, farelo de algodão, soja e bagaço de cana. (Wilas Avares, de Camocim-CE)

Veiga: A gente fornece dieta à vontade dentro de um manejo de cocho limpo. A gente não quer que o animal coma a mais nem a menos, mas aquilo que exige exatamente. De forma geral, a média vai ficar em torno de 2,3 a 2,5% do peso vivo, seria uma média do período total. No início (do confinamento), o animal vai comer um pouco menos, principalmente nos primeiros dias. A partir do momento que vai adaptando, ele vai aumentando o consumo, atingindo um pico por volta de 40 a 45 dias. Depois o consumo tende a estabilizar. Então não existe uma regra. A gente precisa trabalhar com leituras de cocho para a gente poder fornecer exatamente o que o animal precisa.

– Quantos tratos diários posso fornecer nos 2% do peso vivo no confinamento ou confinamento expresso? (Fabio Conde, da Agropecuária João Corrêa no Mato Grosso)

Veiga: No confinamento nós temos sugerido de três a quatro tratos diários. Isso vai depender muito dos insumos disponíveis, da dieta. Em uma dieta mais úmida, se o pecuarista trabalhar com mais silagem, alguns subprodutos úmidos, como o WDG, por exemplo, a gente precisa distribuir essa dieta mais vezes ao longo do dia. Senão, com esse calorão que está aí, com a umidade o alimento fermenta no cocho, esquenta e podemos ter redução de consumo. Já no sistema de 2% a pasto, se for um cocho que esteja coberto, que não tenha risco de cair água, chover, etc, um trato uma vez por dia já é suficiente. E se o cocho não tiver capacidade para receber toda a dieta de uma vez, só duas vezes por dia.

– Qual a diferença de consumo no confinamento do Angus para o Nelore? (Cláudio Marques, de Coxim-MS)

Veiga: Tem muito mito e a pergunta dá até uma oportunidade de a gente desmistificar isso. O taurino, sim, come mais que um zebuíno, do que um Nelore, por exemplo, principalmente o meio-sangue Angus porque tem a questão da heterose. Então esse animal tem mais poder de ganhar peso, ele tem um metabolismo mais acelerado, ele come mais. A gente tem vários clientes que trabalham com as duas raças, os dois grupos genéticos e eles informam que, na média, o meio-sangue Angus vai comer de 13 a 14% a mais do que o Nelore. […] Só que ele vai transformar isso também em mais ganho. O animal meio-sangue Angus vai ganhar 16 a 17% a mais de carcaça, ou seja, o que ele come a mais ele também converte a mais em carcaça. Isso é importante para a gente deixar claro. Tem muita gente que diz que o Angus não vale a pena porque come mais. Tudo bem, ele come mais, só que também ganha mais e, no final das contas, é mais eficiente o ganho dele em relação ao Nelore.

– Trabalho com cruzamento industrial, F1 Angus x Nelore. Eu consigo manter esse animais com bom peso somente no semiconfinamento? Qual o caminho? (Gabriel Franco Neto, do centro-oeste de Minas Gerais)

Veiga: O semiconfinamento é bastante flexível. A gente consegue imprimir o ganho de peso que a gente quiser. Vai depender basicamente da ração que nós vamos oferta e o ponto crucial, importante do semiconfinamento é qualidade do pasto. Se eu tiver um pasto com boa oferta e boa qualidade, a gente pode ofertar até um pouco menos de ração. Vai depender também do desafio da lotação. Se a gente quer colocar mais animais por área, a gente aumenta a quantidade de ração para usufruir do efeito substitutivo, como a gente chama, o boi deixa de comer pasto para comer ração. Então no semi é plenamente possível manter isso. Agora quanto de ração oferecer vai depender muito da lotação que ele quer trabalhar e também do ganho que ele quer imprimir para os animais dele.

– Estou iniciando uma criação de gado de corte e gostaria de informações sobre como calcular custo e ganho por animal sobre o suplemento. (José Neto, de Recife-PE)

Veiga: Para calcular o ganho a gente vai precisar primeiro saber qual o tipo de pasto disponível. A gente sabe que para o animal suplementado a pasto, o que vai definir o ganho de peso principalmente é o pasto. Então nós precisamos saber qual tipo de pasto, qual a espécie forrageira, em qual época do ano, a qualidade desse pasto, qual o tipo de suplemento que ele está utilizando, qual a quantidade de suplemento… Todos são fatores fundamentais: qualidade do pasto, tipo do pasto, tipo e qualidade do suplemento. Com base nisso, a gente consegue estimar o ganho. Para calcular o custo, basicamente ele precisa estabelecer um valor para o pasto dele. Pode estabelecer como regra estimar um valor de aluguel da região, quanto ele vai gastar com suplemento, com mão de obra e a parte sanitária. Com base nesses fatores, ele vai ter um fechamento de todos os custos na mão dele. Se ele não tem o costume de fazer esses cálculos, é muito importante ele consultar um técnico da região para poder ajudar nesse início. Depois ele consegue rodar com as próprias pernas.

– É possível uma vaca produzir um bezerro por ano se alimentando apenas de pastagens naturais, dispensando o uso de concentrado? […] Moro na região Nordeste, então a pastagem é um pouco mais pobre em nutrientes. (Kleber Cabral Brandão, de Patos-PB)

Veiga: Aqui no Brasil tropical a gente sabe que só o pasto não é capaz de atender todas as demandas nutricionais da vaca, principalmente. Especialmente na época da seca do ano o pasto perde muita qualidade do ponto de vista de proteína, então nós precisamos corrigir proteína durante a seca. E mesmo na época das águas, quando há pastos disponíveis, nós precisamos corrigir deficiências minerais. A gente sabe que os pastos do Brasil, de forma geral, são muito deficientes em minerais, então nós precisamos corrigir. Mas indo direto à resposta: não. Só com o pasto dificilmente vai ser possível. Você vai ter que usar alguma estratégia suplementar com certeza.

– Quais os melhores coprodutos para servir aos animais no confinamento? (Josué Bento Arantes, de Formiga-MG)

Veiga: É aquele que dá o melhor custo x benefício, que vai me dar a arroba produzida mais barata. É claro que cada coproduto tem a sua característica nutricional, mas a gente precisa definir basicamente o que utilizar e o nível de inclusão de cada subproduto de acordo com o custo de produção da arroba. Então o indicador sempre vai ser esse: custo da arroba produzida.

– Qual a recomendação de animais por hectare dentro de um confinamento? (Ricardo Ximenes, de Vitória-ES)

Veiga: A regra geral é a seguinte: na época da seca, a gente trabalha de 12 a 14 m² por animal no confinamento. E na época das águas, quando chove, fica muito barro, então a gente trabalha com o dobro dessa disponibilidade de área, nós estamos falando de 28 a 30 m² por boi. Essa é a regra básica. Claro que vai depender da estrutura que ele tiver, que ele for construir, mas isso é o básico.

– Eu adquiri uma propriedade de 5,5 hectares, porém gostaria de informações de como começar do zero um confinamento bovino da raça Nelore. Já crio gado em Campo Grande-MS numa fazenda, são 20 fêmeas no semiconfinamento e p retendo ampliar bem esse número. Acredito que no sistema de confinamento eu possa chegar a 130 fêmeas. O que acha? (Paulo Henrique Guimarães)

Veiga: É plenamente factível. A gente trabalha de 12 a 14 m² por animal, então, considerando a área que ele tem disponível em relação ao número de cabeças, dá para colocar sem dúvida. Agora ele vai decidir que tipo de dieta vai utilizar, se vai precisar de uma área para produzir volumoso. Mas é possível, sim.

– Posso confinar bezerros de apartação no alto grão? (Ubirajara, de Mata Verde-MG)

Veiga: Para bezerro normalmente não é muito recomendado o alto grão. A recria intensiva, como a gente chama, tem ganhado muito espaço ultimamente no sistema de sequestro ou resgate. Mas se a gente for oferecer uma dieta de alto grão para um bezerro, o que vai acontecer? Ele vai engordar muito cedo, então ele vai ficar o que o pessoal chama de bolinha. Ele vai depositar gordura com um peso ainda muito baixo e você não consegue explorar todo o potencial que ele tem de ganhar carcaça. O ideal é que um bezerro estabeleça um ganho de 600 a 800 g por dia durante a recria, quando ele está crescendo praticamente em músculo e carcaça. É o que a gente chama de construir carcaça. E depois, sim, a gente entra com uma dieta altamente energética de alto grão.

– Quero investir em gado confinado. Vale a pena? Quero começar com 20 cabeças confinadas, no período de 6 a 12 meses. Qual o custo mensal por cabeça? (Jucélio Jesus, de Guarapari-ES)

Veiga: É bom deixar claro que o confinamento vale a pena, sim. Claro que vai ter anos que a margem vai ser um pouco menor que em outros, vai depender muito da relação da compra do boi magro, da venda, do custo de dieta. Mas, se a gente olhar a história do confinamento brasileiro como negócio ao longo dos anos, é uma atividade rentável, então vale a pena. Agora quanto vai gastar, isso vai depender dos custos dos insumos. Para ter ideia do custo da diária de um boi confinado hoje nas principais regiões produtoras brasileiras, e isso varia, ele gira em torno de R$ 14,00 a R$ 15,00. É o custo de uma diária hoje considerando comida, operacional, mas isso pode variar bastante dependendo da região, se eu estou em Mato Grosso, onde o milho é mais barato, se estou no norte Minas, onde a comida é mais cara… Isso varia bastante.

Fonte: Giro do Boi

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