Explicamos o dilema dos frigoríficos: boi inteiro x boi castrado

Explicamos o dilema dos frigoríficos: boi inteiro x boi castrado

Foto: Haras LFL & Fazenda Bananal

Hoje, os frigoríficos vivem um verdadeiro dilema, entre incentivar ou não a castração de bovinos.

Por Adilson Rodrigues, PecNética

A manobra da indústria ocorre de forma comedida, pela dificuldade em pagar maiores bonificações. O boi castrado é matéria-prima para o mercado gourmet, baseado fortemente na alimentação fora de casa, onde, segundo o IBGE, o brasileiro deixa 25% da renda.

É uma demanda parelha com a dos cortes para churrasco, no qual se exige maciez, uma capa de gordura generosa e marmoreio caprichado. A diferença é que também necessita de padronização nos cortes.

Quando falamos em nicho de carne de qualidade, soa aos ouvidos como algo pequeno, todavia não se iluda. É um mercado consolidado e crescente. Para se ter ideia, a indústria ainda não atende metade da demanda.

Reflexo direto é a importação de 1.100 toneladas de cortes especiais pelo Brasil, um negócio na ordem de R$ 25 milhões mensais (ABIEC). Agora se o horizonte é tão promissor, por que os frigoríficos não investem pesado neste setor?

Para responder a pergunta, terei de contar um pouco de história. Há 20 anos, os matadouros aceitavam apenas animais castrados e sobrava produto, permitindo longuíssimas escalas de abate, que beiravam os 20 dias.

No embalo da franca expansão, os empresários investiram forte no parque industrial. O tiro no pé veio com a diminuição do rebanho nacional, devido à saída de pecuaristas por pressão da agricultura e o crescente abate de fêmeas.

O resultado não poderia ser outro que um aumento avassalador da taxa de ociosidade frigorífica, beirando os 50%. Este índice é matador porque o mesmo gasto no abate de 400 cabeças/dia é empregado no abate de 200/dia.

E o que antes eram quase três semanas caiu para apenas cinco dias de escala atualmente. A solução foi aceitar a desova de bois inteiros, prática crescente no passo em que o pecuarista também descobriu as vantagens de produzir boi inteiro.

Bois inteiros queimam 15% mais energia para mantença em comparação aos capados. Por outro lado, crescem 23,48% mais, ganham 24% mais peso e convertem 11,11% mais alimento.

Só que normalmente ficam fora dessa conta 10% a mais de custos com a manutenção da fazenda, a maior dificuldade de manejo e as diversas lesões, inclusive nos cascos.

Para o frigorífico não foi de todo ruim, pois detectou ótimos compradores de cortes magros. Falamos dos chilenos, árabes, russos e mais recentemente os chineses.

Casou o fato de as carcaças bovinas com menos gordura reduzirem a necessidade de toalete para atender o gosto da massa do consumo interno. Na alimentação do dia a dia (entenda por segunda a sexta), a dona de casa não paga, mas aceita maciez e despreza gordura.

Dois coelhos com uma cajadada só! Aqui está a base dos programas de qualidade que premiam entre 3% e 10% para bois inteiros, muitos dos quais vinculados a raças específicas.

Oportunidades para o pecuarista organizado faturar um pouco mais com a produção de bois castrados existem, porém, não a rodo.

Há grifes de carne que remuneram entre 10 e 15% sobre a cotação do boi gordo de hoje. Até pouco tempo pagava-se 20%.

Foto: PecNética

Vale a pena castrar o gado?

Se não desejar o diferencial da facilidade de manejo e aumentar o giro da boiada, fica a dica do PecNética, antes de sacar o burdizzo ou o canivete se pergunte: produzir o quê? Pra quem?

Prêmio de 10% para boi castrado equivale a vender boi inteiro sem qualquer bônus. Um plus de 15% representa ganhos reais de 5%.

Atente também à idade do animal à castração. No Sul, esmacula-se ao nascimento ou aos 90 dias, e opiniões se dividem entre os períodos de desmama e sobreano, de forma a aproveitar a ação da testosterona no crescimento por mais tempo.

Abater fêmea é melhor que castrar macho?

Não se engane: se produzir bois castrados custa 10% mais caro do que engordar boi inteiro, terminar fêmea custa 20% mais. O rendimento de carcaça obtido através do desenvolvimento muscular é muito inferior na fêmea.

Uma perda entre 2% e 3%, para ser exato.

Além disso, quanto mais se pressionar para AOL (Área de Olho de Lombo – indicador de rendimento carcaça) menos se obtém de marmoreio. Concluindo: apenas 18% da carcaça torna-se carne de qualidade diferenciada. O restante passa por uma implacável limpeza de gordura.

PARTILHAR

Portal de conteúdo rural, nosso papel sempre será transmitir informação de credibilidade ao produtor rural.

1 COMENTÁRIO