Fazenda recebe autorização para matar 20 mil aves nativas, mas dona do grupo manda cancelar operação

Autorização envolvia 15 mil galahs e 5 mil corellas em uma propriedade pecuária de mais de 1 milhão de hectares na Austrália; medida acabou suspensa antes do controle em larga escala

Uma gigantesca fazenda de gado no norte da Austrália conseguiu autorização para controlar até 20 mil aves nativas depois de relatar danos às lavouras, instalações e equipamentos. A Newcastle Waters Station, no Território do Norte, recebeu licença para atingir 15 mil galahs e 5 mil little corellas, espécies que vinham formando grandes concentrações dentro da propriedade.

A medida, porém, não avançou como previsto. Depois que a autorização se tornou pública e provocou reação de grupos ambientalistas, a Terra Firma, gestora ligada aos proprietários da Consolidated Pastoral Company (CPC), determinou que os planos fossem interrompidos. O abate em larga escala ainda não havia começado. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Fazenda de mais de 1 milhão de hectares enfrentava concentração de aves

Newcastle Waters ocupa 1.041.201 hectares na região de Barkly, no Território do Norte. Segundo a CPC, a propriedade tem capacidade para aproximadamente 73,5 mil bovinos, incluindo cerca de 20 mil matrizes Brahman comerciais.

O problema relatado pela empresa não estava restrito ao consumo de grãos. Documentos oficiais apontam danos a árvores, sistemas elétricos, linhas de energia, aeronaves e equipamentos de segurança do aeródromo, além de prejuízos às lavouras de sorgo destinadas à alimentação do gado.

A documentação apresentada ao Parlamento também relacionou a concentração das aves à própria atividade agropecuária. Produção de grãos, armazenamento dentro da fazenda e alimentação dos bovinos teriam criado uma fonte adicional de alimento capaz de sustentar bandos maiores do que aqueles normalmente encontrados no ambiente.

Conflitos semelhantes entre produção e fauna já vêm sendo registrados em outras partes da Austrália. Em propriedades rurais do país, grandes bandos de aves têm provocado perdas em lavouras e reservas de alimento, exigindo diferentes estratégias de manejo.

Autorização previa método químico e eutanásia

O governo do Território do Norte emitiu duas permissões para Newcastle Waters.

A primeira permitia o manejo de 200 galahs e 200 little corellas, incluindo métodos de dispersão não letais e armas de fogo. A segunda ampliou significativamente a quantidade: 15 mil galahs e 5 mil little corellas.

Para a autorização de maior escala, foi aprovado o uso de alphachloralose, substância que causa torpor nas aves, seguido de eutanásia manual realizada por uma empresa especializada.

De acordo com o governo, métodos letais só poderiam ser autorizados depois que alternativas não letais fossem testadas ou consideradas impraticáveis. Técnicos responsáveis pela análise também deveriam avaliar riscos para animais que não eram alvo da operação, cursos d’água, rebanhos e aves de rapina.

Teste envolveu 30 aves, mas operação maior não começou

Antes da repercussão do caso, o CEO da CPC, Troy Setter, informou à ABC Rural que um teste havia sido realizado em 30 aves, mas que o controle em larga escala ainda não tinha sido iniciado.

A propriedade também vinha recorrendo a barulhos de disparos para afugentar os bandos, estratégia que, segundo Setter, conseguiu afastar parte das aves. O executivo declarou na ocasião que o uso da licença de maior escala seria considerado uma medida de último recurso.

Tecnologias não letais também vêm sendo pesquisadas para esse tipo de problema. Em Queensland, por exemplo, um drone que imita o voo de um falcão-peregrino foi testado para afastar pássaros de áreas agrícolas sem eliminar os animais.

Gestora ligada aos proprietários manda abandonar plano

A reviravolta ocorreu em maio. A Terra Firma afirmou que não tinha conhecimento prévio do pedido de licença e comunicou que havia instruído a administração da Newcastle Waters e a direção da CPC a cessar os planos de abate imediatamente.

Naquele momento, a autorização administrativa continuou existente, mas a empresa decidiu não colocar em prática a operação prevista para milhares de aves.

A licença tinha validade até 30 de setembro de 2026 e, portanto, já está expirada.

O episódio transformou um problema de manejo dentro de uma fazenda em uma discussão mais ampla sobre a convivência entre produção agropecuária e fauna nativa. No caso de Newcastle Waters, a escala chama atenção: uma propriedade com mais de 1 milhão de hectares, dezenas de milhares de bovinos e uma autorização que permitiria atingir até 20 mil aves. A operação, entretanto, terminou barrada antes de chegar à fase de grande escala.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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