Na montaria em touros, completar os oito segundos apenas garante ao competidor o direito de receber uma nota; avaliação pode chegar a 100 pontos e leva em conta o desempenho do peão e do animal
Quem acompanha uma montaria em touros pela primeira vez pode imaginar que a regra é simples: permanecer sobre o animal durante oito segundos e pronto. Mas a pontuação que decide Barretos envolve muito mais do que resistir ao cronômetro. O tempo é apenas a primeira barreira. Depois dele, entram em cena equilíbrio, controle, dificuldade da montaria, movimentos do touro e a avaliação dos juízes.
Essa diferença será especialmente importante na 71ª Festa do Peão de Barretos, marcada para 20 a 30 de agosto de 2026. A arena receberá novamente a final da PBR Brazil entre os dias 20 e 23 de agosto, reunindo alguns dos principais competidores e animais da modalidade no país. A organização prevê cerca de 3,5 mil participantes nas nove modalidades esportivas do evento e mais de R$ 1,5 milhão em premiações, sendo R$ 150 mil destinados à PBR Brazil.
Oito segundos são obrigatórios, mas não garantem uma boa nota
Na regra oficial da Professional Bull Riders, o competidor precisa permanecer montado durante oito segundos, segurando a corda com apenas uma das mãos enquanto mantém a outra livre. O cronômetro começa quando o ombro ou o quadril do touro ultrapassa o plano da porteira do brete.
Se o peão cair antes do sinal dos oito segundos, não recebe nota naquela tentativa. Também pode perder a montaria caso toque no touro, no próprio corpo ou no chão com a mão livre antes do término do tempo regulamentar.
A própria organização de Barretos estabelece que a mão de equilíbrio não pode tocar no animal, no corpo do competidor ou na estrutura da arena. Nessas situações, a apresentação fica sem aproveitamento técnico.
Portanto, chegar aos oito segundos não significa tirar uma nota alta. Significa apenas completar uma montaria válida e abrir caminho para que o desempenho seja avaliado.
Como é formada a pontuação que decide Barretos
No sistema utilizado pela PBR, uma montaria completa pode valer até 100 pontos.
A divisão é praticamente um duelo dentro da própria nota:
- até 50 pontos correspondem ao desempenho do competidor;
- até 50 pontos correspondem ao desempenho do touro.
Segundo as regras oficiais da PBR, quatro juízes participam da avaliação. Cada um pode atribuir até 25 pontos ao competidor e até 25 ao animal. As marcações são reunidas e divididas por dois para chegar à nota oficial da apresentação.
Isso significa que um peão tecnicamente impecável não necessariamente produzirá uma das maiores notas da noite se estiver sobre um touro que apresente pouca dificuldade.
O contrário também vale: um animal extremamente difícil pode contribuir para elevar a nota da dupla, mas o competidor precisará demonstrar capacidade suficiente para acompanhar esses movimentos sem perder o controle.
É justamente essa combinação que transforma uma boa montaria em uma apresentação acima dos 90 pontos.
O touro também está sendo julgado
Essa é uma das particularidades que mais surpreendem quem não acompanha o rodeio regularmente. O animal não é apenas um obstáculo para o peão: ele também recebe sua própria avaliação.
Os juízes observam o grau de dificuldade imposto pelo touro, considerando características como intensidade dos giros, mudanças de direção, coices, quedas da parte dianteira do corpo e movimentos laterais realizados durante os saltos. Quanto maior a combinação dessas ações e a dificuldade criada para o competidor, maior pode ser a avaliação do animal.
Outro detalhe importante é que o touro pode ser avaliado mesmo quando derruba o competidor antes dos oito segundos. Na PBR, os animais possuem suas próprias estatísticas e classificações, independentes da pontuação obtida pelo peão.
Por isso, dentro do rodeio profissional, existem animais que se tornam tão conhecidos quanto os próprios competidores.
Controle do peão também pesa na pontuação que decide Barretos
Do lado do competidor, os juízes não avaliam apenas sua capacidade de permanecer sobre o animal.
O julgamento considera principalmente controle, equilíbrio e resposta aos movimentos do touro. Um peão que permanece centralizado, acompanha as mudanças de direção e demonstra movimentos fluidos tende a receber uma avaliação melhor.
A técnica também pode fazer diferença. Movimentos executados com domínio, como trabalhar as esporas de maneira coordenada durante a apresentação, ajudam a demonstrar que o competidor não está simplesmente tentando sobreviver à montaria, mas efetivamente controlando seu corpo diante das reações do animal.
É daí que surgem diferenças importantes entre duas apresentações em que ambos os competidores conseguiram cumprir exatamente os mesmos oito segundos.
PBR mudou o sistema de notas em 2026
A temporada de 2026 trouxe uma mudança importante justamente na maneira como os juízes diferenciam apresentações muito semelhantes.
Desde o início deste ano, a PBR passou a permitir marcações em décimos de ponto, abandonando a limitação anterior baseada principalmente em intervalos de meio ponto. A intenção é aumentar a precisão das avaliações e reduzir empates entre competidores e animais de alto nível.
A mudança foi baseada em uma análise de mais de 15,5 mil montarias realizadas no principal nível da PBR ao longo de dois anos. Segundo a entidade, 96% das avaliações de touros acima de 19 pontos estavam concentradas entre 20 e 22 pontos, enquanto 81% ficavam dentro de uma faixa de apenas um ponto, entre 20,5 e 21,5.
Na prática, havia pouco espaço para que os juízes diferenciassem dois desempenhos de nível muito parecido.
Agora, por exemplo, uma apresentação que anteriormente poderia receber 21 pontos pode ser diferenciada com notas como 20,8 ou 21,2, permitindo que pequenas vantagens técnicas apareçam no resultado. O mesmo vale para a avaliação dos competidores.
O novo regulamento também estabelece um limite de equilíbrio entre as duas partes: a nota do competidor não pode superar a avaliação do touro em mais de três pontos. O peão, por outro lado, pode receber uma avaliação consideravelmente inferior à do animal caso seu desempenho técnico justifique essa diferença.
Uma montaria recente mostra como a conta funciona
Um exemplo de alto nível ocorreu na PBR World Finals de 2026, nos Estados Unidos.
O brasileiro Eduardo Aparecido montou o touro Ransom e conseguiu uma apresentação de 96,10 pontos, uma das maiores daquela edição da final mundial. Na composição da nota, o competidor recebeu 49,35 pontos, enquanto o touro teve 46,75 pontos.
É um exemplo que ajuda a desmontar a ideia de que basta permanecer sobre o animal: além de completar os oito segundos, foi necessária uma combinação excepcional entre alto grau de dificuldade do touro e domínio técnico do competidor.
É justamente dessa soma que surgem as montarias históricas.
Por que dois peões que ficaram oito segundos podem ter notas diferentes?
Imagine dois competidores que completaram suas montarias.
O primeiro enfrenta um touro que realiza movimentos relativamente previsíveis e consegue permanecer montado, mas passa boa parte da apresentação fora de posição.
O segundo recebe um animal que gira rapidamente, muda de direção, salta com intensidade e exige constantes correções. Ainda assim, o competidor permanece centralizado e acompanha os movimentos.
Os dois chegaram aos oito segundos. Mas a segunda combinação tende a produzir uma avaliação muito superior porque o nível de dificuldade e a qualidade técnica da resposta foram maiores.
Também existe a possibilidade de uma nova tentativa. Caso ocorra uma situação que prejudique injustamente o competidor — como contato do touro com o brete, problema com equipamentos ou uma atuação abaixo do padrão esperado do animal — os juízes podem conceder um re-ride, permitindo outra montaria.
Em Barretos, cada décimo pode fazer diferença
Na arena, oito segundos passam rapidamente. Na classificação, porém, tudo o que acontece dentro desse intervalo é observado.
A pontuação que decide Barretos não premia simplesmente quem consegue permanecer mais tempo sobre o touro. Uma montaria válida precisa chegar aos oito segundos, mas a posição no ranking depende da qualidade apresentada durante esse período.
É uma avaliação simultânea entre dois atletas: o competidor tentando demonstrar controle e o touro mostrando toda sua capacidade atlética e dificuldade.
Com o sistema mais preciso adotado pela PBR em 2026 e uma final nacional marcada para os primeiros quatro dias da 71ª Festa do Peão, entender essa dinâmica também muda a maneira de assistir às disputas.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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