Produtores bloquearam a BR-317 após entregarem o gado e não receberem; crise também ameaça trabalhadores, transportadores e fornecedores
O Frigorífico Frigoraça passou a enfrentar uma grave crise em Boca do Acre, no sul do Amazonas, depois que pecuaristas denunciaram atrasos no pagamento dos bovinos entregues para abate. Na terça-feira (22), produtores realizaram uma manifestação e interromperam o trânsito na BR-317, principal ligação do município com o Acre.
Segundo relatos divulgados durante o protesto, alguns fornecedores estariam esperando há até 11 dias para receber. Caminhões boiadeiros permaneceram estacionados nas proximidades da indústria enquanto produtores, transportadores, funcionários e demais credores cobravam explicações sobre o futuro da operação.
Passivo pode ultrapassar R$ 30 milhões
A dimensão financeira do problema ainda não está totalmente esclarecida.
Credores e trabalhadores ouvidos pela imprensa local afirmam que o passivo acumulado poderia superar R$ 30 milhões. A estimativa reuniria compromissos com pecuaristas, funcionários, transportadores, postos de combustíveis e outros fornecedores.
Esse valor ainda não foi auditado, apresentado em uma relação oficial de credores ou confirmado por autoridade pública. Portanto, deve ser tratado como uma estimativa relatada pelas pessoas que afirmam ter valores a receber.
Também há relatos de que mais de 400 trabalhadores poderiam ser afetados pela redução ou paralisação das atividades. O número exato de funcionários e a situação dos salários e contratos de trabalho, entretanto, ainda dependem de confirmação documental, tendo sido apurados como fatos dos denunciantes até o momento.
Pecuaristas dizem que negociação não avançou
A mobilização ganhou força depois que produtores se reuniram para tentar obter um posicionamento dos responsáveis pela operação.
A pecuarista Bruna Chiarelli publicou vídeos em frente ao frigorífico e afirmou que os credores não receberam uma proposta concreta de pagamento. Segundo o relato dela, os produtores teriam sido orientados a procurar a Justiça caso quisessem cobrar os valores.
Até a publicação desta matéria, não havia manifestação pública da Falcão Indústria de Alimentos confirmando ou contestando essa versão, nem um calendário oficial para a regularização dos pagamentos.
O bloqueio da BR-317 ocorreu de forma pacífica, mas mostrou que o problema deixou de ser apenas uma disputa comercial entre empresas e fornecedores. A interrupção atingiu uma rodovia estratégica para o transporte de animais, mercadorias e passageiros entre o Amazonas e o Acre.
Quem é responsável pela operação do frigorífico
A estrutura industrial de Boca do Acre é historicamente conhecida como Frizam e pertence à Agropam — Agricultura e Pecuária Amazonas S/A.
A operação, porém, passou a ser conduzida pela Falcão Indústria de Alimentos Ltda., que utiliza o nome Frigoraça. Documento do Ministério Público Federal registra que a Agropam celebrou um contrato de locação industrial com a Falcão para que a empresa assumisse as atividades de abate e demais operações associadas à unidade.
A filial de Boca do Acre está registrada no CNPJ 11.958.002/0005-38, permanece com situação cadastral ativa e possui capital social declarado de R$ 9,8 milhões. A manutenção do cadastro ativo, contudo, não comprova a situação financeira atual nem garante capacidade para quitar os compromissos relatados pelos credores.
Operação movimentava centenas de animais por dia
Relatos locais indicam que a planta teria alcançado um ritmo próximo de 500 bovinos abatidos por dia.
Esse volume ajuda a explicar o impacto potencial da crise. Cada dia de atividade envolve compra de animais, transporte, combustível, mão de obra, manutenção, alimentação, prestação de serviços e circulação de recursos no comércio de Boca do Acre.
Quando o pagamento do gado deixa de acontecer, o efeito chega primeiro ao caixa do produtor. Em seguida, atinge transportadores, fornecedores, trabalhadores e o próprio mercado regional do boi gordo.
A situação também pode reduzir a concorrência pela matéria-prima. Com menos compradores ativos, pecuaristas da região ficam mais dependentes de frigoríficos instalados em outras cidades, aumentando o custo do frete e diminuindo o poder de negociação.
Relato aponta problema semelhante em Mato Grosso
O AC24 Agro informou que produtores também teriam realizado recentemente uma manifestação contra o Frigoraça em Juruena, Mato Grosso, igualmente motivada por reclamações de falta de pagamento.
Ainda não existem informações públicas suficientes para determinar o valor envolvido em Juruena ou confirmar se os problemas nas duas unidades fazem parte da mesma crise financeira. A empresa possui operações e estruturas comerciais em diferentes estados, mas isso não significa que todas estejam afetadas.
O que ainda precisa ser esclarecido
O caso continua cercado por questões importantes:
- Qual é o valor total efetivamente devido aos pecuaristas;
- Quantos fornecedores e trabalhadores foram atingidos;
- Se os abates continuam ou foram suspensos;
- Qual será o destino dos animais já negociados ou transportados;
- Se existe uma proposta de pagamento ou renegociação;
- Se outras unidades do grupo enfrentam a mesma situação;
- Qual será a atuação das autoridades trabalhistas, policiais e do Ministério Público.
Até o momento, não foi localizado anúncio de recuperação judicial, acordo formal com credores ou cronograma público de pagamento.
O Compre Rural mantém espaço aberto para que a Falcão Indústria de Alimentos, a Agropam e as autoridades envolvidas apresentem esclarecimentos. A matéria deverá ser atualizada caso sejam divulgados documentos, pagamentos, decisões judiciais ou uma manifestação oficial da empresa.
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