Lula anuncia que Uruguai cedeu ao Brasil parte da cota de exportação de carne bovina à China

Medida pode abrir espaço para novos embarques brasileiros, mas Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, alerta ao Compre Rural que a decisão final cabe às autoridades chinesas.

O Brasil ganhou uma possibilidade de ampliar novamente os embarques de carne bovina para a China. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (21) que o Uruguai autorizou o Brasil a utilizar parte do excedente de sua cota de exportação destinada ao mercado chinês

O anúncio ocorreu após reunião de Lula com o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, em Nova York, durante a semana de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU. Segundo o presidente brasileiro, a autorização fez parte das discussões sobre comércio agrícola entre os dois países. 

“Agradeci a autorização concedida ao Brasil para uso do excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China”, afirmou Lula.

A movimentação chama atenção do setor porque ocorre em um momento de forte restrição aos embarques brasileiros para seu principal comprador de carne bovina.

Palavra final ainda é da China

Apesar do anúncio, há uma ressalva importante: a concordância do Uruguai não significa que o Brasil já esteja autorizado a utilizar esse volume.

O Compre Rural conversou com Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado, que destacou que a gestão do sistema está nas mãos de Pequim.

“Por mais que haja aceitação do Uruguai, a decisão final cabe à China. A gestão da cota é 100% de responsabilidade das autoridades chinesas. Vale o histórico de que o Brasil já tentou flexibilização anteriormente e a resposta foi negativa”, afirmou Iglesias ao Compre Rural.

O histórico reforça a cautela. Em fevereiro, a China rejeitou um pedido do governo brasileiro para que cotas remanescentes de outros países fossem redistribuídas entre fornecedores que já tivessem alcançado seus próprios limites. Outros países também fizeram pedidos semelhantes e receberam resposta negativa. 

Portanto, a sinalização uruguaia representa um avanço nas negociações, mas a operação ainda depende do aval das autoridades chinesas.

Cota virou ponto crítico para a carne brasileira

A China estabeleceu para o Brasil uma cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina em 2026. Dentro desse limite, a tarifa de importação é de 12%. Para volumes excedentes, a salvaguarda prevê tarifa adicional de 55%

A Safras & Mercado já vinha alertando para o rápido avanço dos embarques. Segundo levantamento da consultoria, as vendas realizadas até junho haviam alcançado volume equivalente a 100% da cota anual. Apenas naquele mês, o Brasil enviou 158,3 mil toneladas de carne bovina à China. 

A situação levou frigoríficos a ajustar a produção. Iglesias já havia apontado que empresas reduziram capacidade de abate e anunciaram férias coletivas diante da perspectiva de menor participação chinesa nas compras durante parte do segundo semestre. 

Quanto da cota uruguaia poderá ficar com o Brasil?

Esse é um dos principais pontos ainda sem resposta. Não foi informado o volume exato do excedente uruguaio que poderia ser aproveitado pelo Brasil, nem como seria operacionalizada uma eventual transferência.

O Uruguai recebeu para 2026 uma cota de aproximadamente 324 mil toneladas, enquanto a brasileira ficou em 1,106 milhão de toneladas. 

Para a pecuária brasileira, uma autorização chinesa poderia ajudar a recuperar parte do espaço comercial perdido no segundo semestre e ampliar novamente a demanda dos frigoríficos exportadores.

O anúncio, portanto, abre uma possibilidade importante, mas a etapa decisiva acontece agora em Pequim. Sem a concordância chinesa, o excedente oferecido pelo Uruguai não poderá simplesmente ser incorporado à cota brasileira — justamente o ponto destacado por Fernando Iglesias.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM