Gado de leite: cruzamento entre raças é sempre a melhor opção?

Gado de leite: cruzamento entre raças é sempre a melhor opção?

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É muito comum nos depararmos com produtores, técnicos e demais pessoas envolvidas na atividade leiteira fazendo a seguinte pergunta: qual a sua opinião sobre o cruzamento entre raças?

Em alguns casos, o cruzamento já é adotado há um certo tempo como estratégia de melhoramento genético e o rebanho possui animais dos mais variados graus de sangue. Em outros, considerasse a possibilidade de utilizar esta prática para se obter alguns de seus benefícios.

É sabido que o resultado da heterose, também conhecida como vigor híbrido, através da combinação dos genes de dois indivíduos puros de raças diferentes, gera um indivíduo (F1) geneticamente superior aos pais. Quanto melhor forem os indivíduos da raça pura, melhor será o desempenho produtivo da F1. Entretanto, a definição de qual raça ou material genético devemos usar na fêmea F1 ainda é um desafio e nem todas as respostas estão totalmente esclarecidas.

O cruzamento estre raças é um tema que costuma despertar interesse. Neste artigo iremos trazer um pouco do que vivenciamos no campo junto de alguns índices disponíveis atualmente nas provas, que podem auxiliar na escolha do material genético a ser utilizado no rebanho. Quando perguntamos ao criador qual o motivo dele estar adotando, ou considerando adotar, o cruzamento como prática, as justificativas mais comuns são:

“Tenho novilhas Holandesas, já tive experiências ruins com terneiros nascendo muito grandes e já perdi algumas novilhas por este motivo.”

Mesmo com o dado de facilidade de parto disponível na prova da raça Holandesa, ainda há casos em que o produtor opta por usar um touro da raça Jersey em suas novilhas Holandesas. E, caso o fruto deste acasalamento seja uma fêmea, ele geralmente não tem uma estratégia de acasalamento definida para esta fêmea F1 na propriedade.

Atualmente, é possível acasalar novilhas Holandesas com touros da mesma raça. O índice que nos dá esta segurança é a FACILIDADE DE PARTO DO TOURO. O uso de touros com até 8% de FP e uma nutrição adequada reduzem o risco de problemas de parto em novilhas. A facilidade de parto é uma ferramenta segura (desde que você procure touros de alta confiabilidade) e que deve
ser usada como critério de escolha na seleção de touros para uso em novilhas. CABRIOLET, TROY, CASANOVA, LAWMAN, STEVIE e EMERALD são alguns dos touros de nossa bateria que têm indicação para serem usados em novilhas. A utilização do sêmen sexado GenChoice é outra estratégia de manejo utilizada para reduzir os riscos de problemas de parto em primíparas.

“Meu rebanho está apurando demais. Com qual perfil de touro devo trabalhar para ter um resultado melhor?”

Essa situação é muito comum em rebanhos instalados nas partes mais quentes do país e em rebanhos oriundos de outros cruzamentos. Precisamos nos atentar aos índices importantes nesta situação. Por exemplo, a estatura dos animais, pois eles estarão em função do manejo, sempre caminhando e com algum estrangulamento quanto a qualidade do conforto. Compostos de pernas e úbere são relevantes, principalmente, quando existem mais de duas raças como progenitoras dessas vacas. Por fim, a força também é importante para que esses animais tenham capacidade de suportar as exigências e também coloquem várias crias.

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Por isso, buscamos sempre animais com perfis como o do CASANOVA, MAD MAX ou TEBO. No caso em que não há a intenção de se voltar com o Holandês, o ideal é trabalharmos com touros Girolando que carreguem em sua genealogia indivíduos puros que tragam essas características.

“Quero mais gordura e proteína no leite.”

Esta talvez seja a principal motivação do cruzamento entre raças (Holandesa x Jersey), já que a maioria dos produtores recebe uma bonificação em seu pagamento dependendo da % de gordura e proteína do leite.

É fato que a raça Jersey é reconhecida por produzir o maior percentual de sólidos e a raça Holandesa é a maior produtora de quantidade (kg produzidos de gordura e proteína) no mundo. Na maioria das vezes, o sistema de pagamento de leite no Brasil, mesmo que leve em consideração os sólidos, ainda dá grande peso ao volume de leite produzido. Por isso, o produtor busca como resultado nesse cruzamento alto volume (litros produzidos) com altos sólidos.

É importante que a decisão de se usar ou não o cruzamento leve em consideração o sistema de pagamento de leite no qual cada produtor está inserido. Assim, o planejamento genético irá agregar valor ao produto.

É possível trabalhar com a raça Holandesa e, através da escolha correta de touros com alta combinação de sólidos (CFP), como
GATEDANCER, PRINCETON, GENIUS e TANGO, aliar volume de leite e sólidos que irão atingir excelentes índices de remuneração.

“Tenho vacas Holandesas muito grandes. Quero animais mais rústicos.”

Esta é uma demanda cada vez mais comum dos produtores que visam lucratividade e produtividade em seus rebanhos. Quando buscamos uma saída imediatista, o cruzamento quase sempre é a primeira opção. Mais uma vez frisamos que não existe uma receita única e muitas perguntas podem ficar sem resposta quando o assunto é o cruzamento de raças como uma estratégia de longo prazo. É necessário levarmos em conta o contexto e o impacto financeiro a médio e longo prazo. Devemos ter em mente alguns questionamentos neste momento:

Qual a estratégia de escolha de material genético será usada nas F1?
Qual o impacto pode haver nas fêmeas de reposição do rebanho a longo prazo?

Animais MEDIANOS e SAUDÁVEIS também podem ser de raça pura. A CRI é pioneira na seleção de exemplares com essas características e conta com uma bateria de destaque nesses índices.

A utilização de touros com alto ICC$, como TROY, GENIUS, CHINCHI, GATEDANCER e ALTIVO, agrega saúde e reduz a tendência ao aumento de estatura das fêmeas, sem a necessidade de utilização do cruzamento.

“Ouvi dizer que o animal cruzado é mais fértil e longevo.”

Ferramentas que proporcionam a seleção de animais com maior fertilidade estão cada vez mais presentes nas provas. Historicamente, a Taxa de Fertilidade das Fêmeas (DPR) sofreu uma queda significativa, principalmente na raça Holandesa.
Talvez devido às baixas taxas de herança das características relacionadas à fertilidade, a busca pelo cruzamento seja considerada pelo maior impacto imediato.

A raça Jersey é mais uma vez a mais procurada para este cruzamento, com a Girolando em segundo lugar. Quando comparamos com a
Holandesa pura, a característica mais destacada pelo produtor que opta pelo cruzamento com o Girolando é a perda em persistência de lactação. Cabe aqui ressaltar o mesmo raciocínio referente às possíveis consequências a médio e longo prazo
que já descrevemos acima.

A genética vem avançando muito em relação aos índices de saúde como FERTILIDADE e LONGEVIDADE. Mas, devemos nos questionar: O cruzamento é a única saída para se incrementar esses índices? Não. É apenas uma das possibilidades a serem consideradas. Entretanto, é possível incrementar esses índices mantendo o rebanho puro. Se você busca fêmeas mais FÉRTEIS e LONGEVAS, considere utilizar touros como ALTIVO, PESO, MAD MAX, GENIUS, TROY E CABRIOLET em seu rebanho.

CONCLUSÃO

Quando falamos de cruzamento, vale ressaltar que os touros Girolando vêm, a cada ano e a cada nova geração, mostrando que podem contribuir para nossa pecuária leiteira nacional. Os testes de progênie vêm se firmando e mostrando que podemos trabalhar os touros Girolando nos rebanhos. Devemos, é claro, respeitar os critérios de seleção e escolher com fundamento no
desenvolvimento genético do plantel e do projeto de produção de leite futuro da fazenda.

A impressão que fica é que, na maioria das vezes em que o cruzamento entre as raças é colocado em prática ou considerado como uma estratégia a ser utilizada em todo ou em parte do rebanho, serve para amenizar ou solucionar características, principalmente de saúde, relacionadas à raça Holandesa. Isso acontece pela má indicação dos touros a serem trabalhados no rebanho.

Bem executado e bem planejado, o cruzamento pode sim ser uma ferramenta implantada com sucesso nos rebanhos. Para isso, é necessário muito critério ao definir o planejamento genético do rebanho. Projetos embasados em dados concretos, com um bom planejamento atingem seu objetivo e determinam o sucesso de uma propriedade leiteira. Procure não tomar decisões baseadas no impulso, por modismo e sem embasamento. Elas geram um forte impacto negativo no resultado da atividade.

Autores
Bruno Scarpa Nilo
Gerente de Produto Leite

Daniela Riccó
Promotora Técnica Leite

CRI Genética

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