Genética provada vale até 132% mais: o que faz um zebu PO multiplicar o preço no leilão

Diferença entre animais avaliados e bovinos comerciais chegou a R$ 6,6 mil por cabeça entre as fêmeas; genotipagem, fertilidade, desempenho e carcaça ajudam a explicar o prêmio pago pelos compradores

A genética Nelore PO alcançou preços bem superiores aos dos animais comerciais no 10º Leilão Nelore BRGN, realizado em setembro de 2026, em Brasília (DF). Os 38 bovinos puros de origem foram vendidos por R$ 11.415,26 por cabeça, em média, enquanto os 41 animais comerciais registraram média de R$ 5.304,88. A diferença representa um ágio de 115,2% no grupo PO.

Entre as fêmeas, a distância foi ainda maior. As dez matrizes Nelore PO atingiram média de R$ 11.664, contra R$ 5.018,52 das 27 fêmeas comerciais. Naquele leilão específico, portanto, o prêmio chegou a 132,4%, ou R$ 6.645,48 a mais por cabeça. Nos machos, a diferença foi de 93,4%. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

O resultado não significa que qualquer animal PO valha automaticamente 132% mais. O ponto central está no conjunto de informações disponíveis sobre os animais ofertados. Todos os Nelore PO do leilão haviam sido genotipados e participavam de avaliações genéticas reconhecidas, além de apresentarem indicadores relacionados a características de interesse econômico.

O que fez a genética Nelore PO valer mais?

O registro genealógico é apenas uma parte da equação. No caso dos animais BRGN, os compradores tinham acesso a informações capazes de mostrar com maior precisão o potencial que cada reprodutor ou matriz poderia transmitir às próximas gerações.

Os animais foram avaliados em programas ligados à Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP), ao trabalho de Genética de Melhoramento Animal da Universidade de São Paulo e ao Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ), da ABCZ.

Além disso, cada exemplar PO apresentava pelo menos um selo BRGN ligado a características como fertilidade, precocidade sexual, habilidade materna, ganho de peso ou carcaça.

Na prática, isso oferece ao comprador mais elementos para avaliar o animal do que apenas conformação visual e pedigree. O impacto econômico da genética também aparece em trabalhos envolvendo o desempenho de animais Nelore PO em comparação com bovinos comerciais, nos quais características produtivas podem alterar conversão, ganho de carcaça e custo de produção.

Genotipagem reduz parte da incerteza na seleção

Uma das ferramentas utilizadas nesse processo é a avaliação genômica.

Segundo a ANCP, a DEP Genômica reúne informações de pedigree, desempenho do próprio animal, dados de progênie e marcadores moleculares. A incorporação do DNA aumenta a confiabilidade das estimativas, especialmente em animais jovens, que ainda possuem pouca ou nenhuma informação de descendentes.

A DEP, ou Diferença Esperada na Progênie, não informa simplesmente se um bovino é “bom” ou “ruim”. Ela estima a capacidade do animal de transmitir determinada característica aos filhos quando comparado a outros indivíduos avaliados dentro daquela base genética.

Para o pecuarista, isso permite direcionar a compra. Dependendo do objetivo da propriedade, podem receber maior peso características relacionadas a peso, fertilidade, habilidade materna, precocidade ou composição de carcaça.

Fertilidade e habilidade materna pesaram entre as matrizes

As fêmeas foram justamente o grupo com maior diferença de preços no leilão.

O lote de maior valor entre as matrizes PO reuniu as novilhas BRGN 2139 da Cerrados e BRGN 2217 da Cerrados. As duas estavam prenhas e possuíam avaliações favoráveis para fertilidade, carcaça, peso e habilidade materna. Juntas, foram negociadas por R$ 35.520.

Características reprodutivas têm impacto direto no sistema de cria. Uma matriz que emprenha regularmente, produz bons bezerros e permanece produtiva por mais tempo pode contribuir para diluir custos e aumentar a quantidade de quilos desmamados ao longo de sua permanência no rebanho.

O PMGZ utiliza informações de crescimento, reprodução, características maternas e carcaça nas avaliações dos rebanhos participantes. Entre os indicadores disponíveis estão peso à desmama, idade ao primeiro parto, precocidade e acabamento de carcaça.

Peso e carcaça também entram no preço do touro

Entre os machos, o maior valor individual foi registrado pelo BRGN 2174, arrematado por R$ 16.800. O animal tinha selo BRGN ligado ao peso, relacionado ao potencial genético para ganho de peso ao longo das diferentes fases de criação.

Outros touros valorizados reuniam avaliações para peso, precocidade sexual e carcaça. São características que podem afetar desde a produção do bezerro até a terminação do animal e o resultado obtido no frigorífico.

Esse interesse por eficiência de carcaça também aparece em avaliações práticas. Em janeiro de 2026, um abate técnico com animais Nelore PO registrou média de 60,5% de rendimento de carcaça em um lote acompanhado pelo PMGZ Carne.

Isso não significa que o desempenho de um lote possa ser automaticamente reproduzido em qualquer propriedade. Nutrição, sanidade, manejo, ambiente e estratégia de terminação continuam interferindo diretamente no resultado.

Avaliação a pasto aproxima a genética da realidade da fazenda

Outro ponto do programa BRGN é o ambiente de seleção.

A Embrapa informa que o trabalho de seleção vem sendo realizado há cerca de 25 anos, direcionado às condições do Cerrado. Os animais são desenvolvidos em sistema a pasto, com suplementação durante o período seco, buscando selecionar genética adaptada às condições encontradas em propriedades comerciais da região.

Essa adaptação é relevante porque potencial genético e ambiente não funcionam separadamente. Um animal com avaliações superiores precisa encontrar condições adequadas de alimentação, sanidade e manejo para expressar esse potencial.

Por isso, a escolha de um reprodutor deve partir dos objetivos da fazenda. O produtor de cria pode priorizar fertilidade, habilidade materna e peso à desmama. Já propriedades de ciclo completo podem acrescentar maior atenção a crescimento, precocidade e características de carcaça.

O avanço desse tipo de seleção também aparece em projetos recentes de touros Nelore PO avaliados para características produtivas, mostrando como o mercado vem aumentando o uso de informações objetivas na escolha dos reprodutores.

PO mais caro precisa entregar informação, não apenas pedigree

Os números do leilão da Embrapa mostram que compradores aceitaram pagar mais por animais acompanhados de um conjunto amplo de informações genéticas e produtivas.

Isso muda a análise do preço. Em vez de comparar somente o valor de aquisição de dois touros, o produtor pode observar DEPs, acurácia das avaliações, fertilidade, histórico produtivo, desempenho, características de carcaça e adequação ao sistema da fazenda.

Também é necessário identificar quais características realmente têm impacto econômico naquele rebanho. Um touro pode apresentar excelente avaliação para determinado indicador e, ainda assim, não ser a opção mais adequada para todos os sistemas produtivos.

O ágio de 132,4% registrado entre as matrizes é, portanto, um retrato daquele leilão, e não uma tabela de valorização aplicável a todo Nelore PO. O que o resultado evidencia é a disposição do mercado em pagar mais quando pedigree vem acompanhado de avaliação genética, genômica, desempenho e características funcionais documentadas.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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