Importação de cannabis cresce 51% emdois anos e desafia produção nacional

Solicitações de importação avançam 51% em dois anos, enquanto mudanças regulatórias e desafios da produção nacional colocam novas oportunidades no radar do setor; temas estarão em debate no Cannabis Connection 2026

O mercado brasileiro de cannabis medicinal apresenta sinais de expansão, com aumento das solicitações de importação, crescimento do canal farmacêutico e mudanças no ambiente regulatório. Os movimentos indicam a consolidação de uma atividade econômica que envolve pacientes, profissionais de saúde, empresas e instituições de pesquisa e ampliam o debate sobre o acesso aos tratamentos, a produção nacional e as oportunidades de negócios.

Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que o Brasil registrou 114.708 solicitações de importação de produtos à base de cannabis no primeiro semestre de 2026, ante 75.852 no mesmo período de 2024. O aumento foi de 51,2% em dois anos. Na comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, o crescimento foi de 27%.

Os números estão vinculados à RDC nº 660/2022, que estabelece critérios para a importação excepcional de produtos derivados de cannabis por pessoas físicas para uso próprio. Os registros não equivalem necessariamente ao número de pacientes atendidos, às importações efetivamente concluídas ou ao faturamento do setor.

Ainda assim, a evolução dos indicadores ajuda a dimensionar a relevância desse canal de acesso e a transformação da demanda brasileira por produtos à base de cannabis. A tendência é detalhada na análise sobre o crescimento das solicitações de importação de cannabis no Brasil.

No mercado farmacêutico, os dados também apontam expansão. Em análise publicada em outubro de 2025, informações da Close-Up International indicaram crescimento superior a 70% do mercado farmacêutico de cannabis desde o início de sua comercialização. Na ocasião, a empresa também apontou espaço para ampliar a distribuição dos produtos nas farmácias brasileiras.

Os números correspondem ao período analisado em 2025 e não devem ser interpretados como uma medição atualizada do mercado em 2026. O levantamento sobre o crescimento do mercado farmacêutico de cannabis e as expectativas relacionadas à regulação ajuda a contextualizar a evolução desse canal.

A ampliação do acesso e a expansão comercial, no entanto, não significam que todos os desafios estejam resolvidos. A consolidação do setor depende também da qualificação da prescrição, da produção de evidências científicas, da segurança dos produtos, da previsibilidade regulatória e da capacidade de desenvolver modelos de negócio sustentáveis.

Cannabis medicinal exige avanço científico e educação médica

O crescimento do mercado coloca em evidência a necessidade de aproximar a expansão do acesso da formação dos profissionais de saúde e do conhecimento científico sobre os tratamentos.

Para o Dr. Pedro Pierro, diretor científico da Sechat, a evolução tecnológica precisa caminhar junto com a educação médica e a qualificação das informações disponíveis sobre a cannabis medicinal.

“A evolução tecnológica tem ampliado as possibilidades da cannabis medicinal e contribuído para a evolução dos tratamentos oferecidos aos pacientes. Hoje, milhares de pessoas no Brasil já têm acesso a produtos à base de cannabis, e esse avanço traz uma responsabilidade importante para o setor: ampliar o conhecimento científico e a educação médica. É fundamental que os profissionais de saúde tenham acesso a informações qualificadas para compreender as evidências disponíveis, avaliar as indicações e os limites terapêuticos e tomar decisões clínicas fundamentadas. O crescimento desse mercado precisa caminhar junto com a formação médica, a pesquisa e o compromisso com a segurança dos pacientes”, afirma Pierro.

A qualificação da prática clínica é um dos fatores relevantes para o desenvolvimento desse segmento. A ampliação do conhecimento sobre evidências, indicações e limitações terapêuticas contribui para decisões médicas fundamentadas e para o uso responsável dos produtos.

O avanço comercial, portanto, precisa ser acompanhado pela evolução científica e pela capacidade de profissionais e empresas de atuar em um ambiente que exige atenção às evidências e às normas sanitárias.

Regulamentação influencia o futuro do mercado

Além da demanda, o ambiente regulatório é determinante para a evolução da cannabis medicinal e para a abertura de novas possibilidades de pesquisa e produção.

As regras sanitárias definem condições para atividades como importação, fabricação, comercialização e cultivo, conforme a modalidade e a finalidade de cada operação. Para as empresas, compreender essas diferenças é fundamental para avaliar custos, riscos, parcerias e oportunidades de investimento.

As mudanças regulatórias também colocam em discussão a capacidade de o Brasil desenvolver uma cadeia produtiva própria, reduzir gargalos e ampliar sua participação nos diferentes elos do mercado.

Entre os profissionais que acompanham essas questões está Ana Cecília Carvalho, farmacêutica e especialista em regulação de medicamentos e fitoterápicos na Anvisa.

A programação também contará com Carolina Sellani, internacionalista e coordenadora do Grupo de Trabalho de Insumos de Cannabis na Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (ABIQUIFI), e Leonardo Navarro, advogado especializado em direito à saúde e cannabis medicinal e diretor jurídico do Instituto de Conexão e Regulação (ICR).

A participação de especialistas em regulação, insumos e direito à saúde permitirá discutir como as normas influenciam o desenvolvimento dos negócios e quais condições precisam ser consideradas por empresas que pretendem ingressar ou ampliar sua atuação no setor.

Cultivo nacional coloca competitividade em pauta

A possibilidade de desenvolver a produção brasileira é outra dimensão estratégica para o futuro do mercado. A integração entre pesquisa agropecuária, genética, cultivo, processamento e indústria pode contribuir para estruturar uma cadeia produtiva nacional, desde que sejam atendidos os requisitos regulatórios aplicáveis a cada atividade.

Em 2026, novas regras da Anvisa para atividades relacionadas à pesquisa e ao cultivo de cannabis para fins medicinais e farmacêuticos ampliaram o debate sobre as condições de desenvolvimento dessa cadeia. As disposições para variedades com teor de THC igual ou inferior a 0,3% também passaram a integrar as discussões sobre produção e competitividade.

As autorizações previstas nas normas não representam uma liberação irrestrita do cultivo nem dispensam o cumprimento das exigências aplicáveis ao processamento, à fabricação e ao controle sanitário dos produtos.

Para Beatriz Marti Emygdio, pesquisadora e presidente do Comitê Permanente de Assessoramento Estratégico em Cannabis da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a regulamentação precisa considerar as condições econômicas necessárias para tornar a produção nacional competitiva.

“Não basta regular o cultivo, é preciso regular para competir”, afirmou a pesquisadora.

Entre os desafios estão a disponibilidade de genética adaptada às condições brasileiras, o desenvolvimento de cultivares, o controle fitossanitário, a padronização da matéria-prima, a oferta de sementes e mudas e os custos de produção. Esses fatores influenciam a viabilidade das operações e a capacidade de competir com fornecedores internacionais.

A discussão interessa tanto a empresas que avaliam investir na produção quanto a organizações que atuam em pesquisa, fornecimento de insumos, processamento e desenvolvimento de produtos. A existência de demanda não garante, por si só, a viabilidade econômica de uma cadeia produtiva: é necessário avaliar as condições técnicas, regulatórias e comerciais de cada etapa.

Mercado em amadurecimento exige visão estratégica

Para Daniel Jordão, CEO da Sechat, o crescimento do setor precisa ser acompanhado de decisões que permitam ao Brasil transformar suas oportunidades em capacidade competitiva.

“O mercado brasileiro de cannabis está amadurecendo, e o desafio agora é transformar o potencial que o país reúne em uma posição de referência global. Temos oportunidades relacionadas à dimensão do mercado, à capacidade de desenvolver conhecimento e à participação de diferentes setores da economia. Mas esse potencial não se converte automaticamente em protagonismo. Precisamos discutir como avançar em competitividade, segurança regulatória, inovação e desenvolvimento de negócios capazes de atuar em um ambiente cada vez mais exigente. O Cannabis Connection nasce também com esse propósito: reunir quem está construindo esse mercado para refletir sobre os caminhos possíveis e as decisões necessárias para o próximo estágio de desenvolvimento do setor”, afirma Jordão.

A avaliação reúne questões que vão além do aumento da demanda. O desenvolvimento do mercado depende da capacidade de transformar conhecimento científico em produtos seguros, estabelecer operações compatíveis com as exigências regulatórias, desenvolver fornecedores e identificar oportunidades sustentáveis ao longo da cadeia.

Para empresários e investidores, acompanhar indicadores de mercado é apenas uma parte da análise. Também é necessário compreender a dinâmica dos canais de acesso, os custos de operação, as condições de concorrência e os efeitos das mudanças regulatórias sobre cada modelo de negócio.

Cannabis Connection 2026 discutirá oportunidades e desafios do setor

O crescimento das solicitações de importação, a expansão do mercado farmacêutico, as mudanças regulatórias e as perspectivas para o cultivo nacional estarão entre os temas do Cannabis Connection 2026, encontro que será realizado em 5 de novembro, em São Paulo.

Em sua quarta edição, o evento reunirá representantes de órgãos reguladores, instituições de pesquisa, indústria farmacêutica, agronegócio, varejo e empresas para discutir o cenário brasileiro e os caminhos para o desenvolvimento dos mercados de cannabis medicinal e cânhamo industrial.

A programação contará com Allan Paiotti, CEO da Cannect, que apresentará dados relacionados ao mercado de importação pela RDC nº 660/2022; Bianca Aparecida Lamim, analista sênior de Market Insights da Close-Up International, com informações sobre o mercado farmacêutico; e Beatriz Marti Emygdio, da Embrapa, que contribuirá para o debate sobre pesquisa, cultivo e produção nacional.

Também estão entre os participantes Ana Cecília Carvalho, especialista em regulação de medicamentos e fitoterápicos na Anvisa; Carolina Sellani, coordenadora do Grupo de Trabalho de Insumos de Cannabis na ABIQUIFI; Leonardo Navarro, diretor jurídico do ICR; Bruno Pegoraro, cofundador e presidente do Instituto Ficus; Edmar Martinez, empresário e líder da operação na América do Sul da Advanced Nutrients; e Milena Rocha, gerente nacional de Medicamentos Especiais do Grupo DPSP, responsável pelas redes Drogaria São Paulo e Drogarias Pacheco.

A programação inclui ainda Leandro Luize, editor-chefe e gestor de jornalismo do portal Panorama Farmacêutico, além de outros representantes dos diferentes segmentos da cadeia.

A proposta é aproximar dados de mercado, conhecimento técnico e experiências empresariais para discutir como o setor pode responder às mudanças regulatórias, ampliar sua capacidade produtiva e desenvolver oportunidades de negócios. O encontro também pretende contribuir para a compreensão dos desafios enfrentados por empresas em diferentes estágios, desde a entrada no mercado até a expansão de operações já estabelecidas.

Para quem acompanha o setor, o debate sobre crescimento, regulação e competitividade ajuda a contextualizar as decisões que podem influenciar os próximos anos da cannabis medicinal e do cânhamo industrial no Brasil.

O Cannabis Connection 2026 será realizado em 5 de novembro, a partir das 14h, no Edifício JK 1600, na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, em São Paulo.

A programação e as informações sobre participação estão disponíveis no Cannabis Connection.

Serviço

  • Cannabis Connection 2026
  • Data: 5 de novembro de 2026
  • Horário: a partir das 14h
  • Local: Edifício JK 1600
  • Endereço: Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 1600, Itaim Bibi, São Paulo (SP)

Informações e inscrições

VEJA MAIS:

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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