Irmãos Batista, da JBS, compram fabricante de armas de guerra

Joesley e Wesley Batista, que construíram uma das maiores potências globais da proteína animal, assumem o controle da Avibras por meio de investimento pessoal; operação leva os empresários ligados à JBS a uma nova fronteira estratégica da economia brasileira

Os irmãos Joesley e Wesley Batista, conhecidos no agronegócio pela trajetória que transformou a JBS em uma das maiores companhias de alimentos do planeta, estão avançando para um setor bastante distante dos frigoríficos, fazendas e cadeias de proteína animal. A Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais dos empresários, acertou a aquisição do controle da Avibras Aeroespacial, uma das empresas mais estratégicas da indústria brasileira de defesa.

A conexão com a JBS ajuda a dimensionar o tamanho do movimento, mas exige uma distinção importante: não é a JBS que está comprando a Avibras, nem a aquisição integra diretamente a J&F. Segundo comunicado divulgado sobre a operação, a Globe pertence ao portfólio de investimentos pessoais da família Batista.

Ainda assim, trata-se de um movimento empresarial relevante protagonizado pelos mesmos irmãos que ajudaram a levar um negócio iniciado no setor de carnes em Goiás ao posto de gigante mundial dos alimentos.

A JBS informa atualmente possuir mais de 250 unidades produtivas no mundo, presença comercial em mais de 180 países e 158 mil colaboradores somente no Brasil, com operações que incluem Friboi, Seara, Swift, couros, biodiesel, logística e biotecnologia.

Agora, os Batista colocam os pés em outro mercado de dimensão global: defesa, mísseis, foguetes e tecnologia aeroespacial.

Dos frigoríficos da JBS à indústria de defesa

A ligação com o agronegócio está justamente na origem e na trajetória empresarial da família.

A história da JBS começou em 1953, quando José Batista Sobrinho, o Zé Mineiro, iniciou a Casa de Carnes Mineira, em Anápolis (GO). Em 1970, a aquisição do primeiro frigorífico, em Formosa (GO), deu origem à marca Friboi. Décadas depois, a companhia se transformaria em uma multinacional de alimentos.

Joesley e Wesley participaram diretamente dessa expansão. Documentos societários da própria JBS identificam os dois empresários como controladores indiretos da J&F, estrutura historicamente ligada ao controle da companhia de alimentos.

É essa dimensão que torna a entrada na Avibras particularmente relevante: empresários cuja fortuna e projeção empresarial nasceram da cadeia da carne passam a controlar uma companhia que domina tecnologias consideradas críticas para a defesa brasileira.

E a diversificação dos negócios ligados à família já vinha acontecendo há anos. A própria JBS ampliou sua atuação para logística, biotecnologia e outras cadeias de proteínas — em 2025, por exemplo, entrou no mercado de ovos com a aquisição de 50% da Mantiqueira.

A Avibras, porém, coloca os irmãos Batista diante de uma indústria completamente diferente.

O que exatamente os irmãos Batista compraram?

A aquisição será realizada pela Globe Investimentos e envolve a totalidade das ações da Nova AVB, controladora da Avibras Aeroco, estrutura que concentra as operações industriais da companhia após seu processo de reorganização.

O valor da transação não foi divulgado e a operação foi notificada ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Na documentação apresentada ao órgão antitruste, os compradores sustentaram que a aquisição representa uma entrada estratégica nos segmentos brasileiro de defesa e aeroespacial e que poderá contribuir para a recuperação e o desenvolvimento das atividades da fabricante.

Segundo as informações apresentadas ao Cade, também foi solicitado que a operação seja analisada pelo rito sumário, sob o argumento de que não existe sobreposição relevante capaz de provocar problemas concorrenciais.

Uma empresa que fabrica mísseis e foguetes

Fundada em 1961, a Avibras tornou-se um dos nomes brasileiros de maior reconhecimento internacional na área de defesa.

A empresa acumulou conhecimento em tecnologias críticas de propulsão e integração de sistemas complexos. Entre seus produtos está o conhecido Sistema de Artilharia ASTROS, além de mísseis, foguetes, veículos especiais e soluções destinadas ao setor espacial civil.

O ASTROS tornou-se especialmente importante por representar uma tecnologia desenvolvida no Brasil com projeção internacional. Antes da crise financeira, equipamentos da Avibras chegaram a mercados como Arábia Saudita, Catar, Indonésia e Malásia.

Ou seja: não se trata apenas da compra de uma indústria em dificuldades, mas da entrada dos Batista em uma companhia detentora de conhecimento tecnológico acumulado durante décadas.

Avibras saiu de uma crise profunda

A aquisição ocorre justamente quando a fabricante tenta reconstruir suas operações.

A antiga Avibras entrou em recuperação judicial em março de 2022, declarando à época dívidas próximas de R$ 600 milhões. O período de crise foi acompanhado por paralisação das atividades e uma greve de funcionários que durou 1.280 dias e terminou em março de 2026.

A reorganização societária separou as operações industriais da antiga estrutura de dívidas e levou à criação da Avibras Aeroco.

Antes da aquisição agora anunciada, a nova estrutura recebeu uma captação privada de aproximadamente R$ 300 milhões, coordenada pelo Brasil Crédito. Joesley Batista já havia participado desse financiamento, embora o tamanho individual de seu aporte não tenha sido divulgado.

Portanto, a chegada dos irmãos à Avibras não começou com a compra do controle. Já existia participação de capital na tentativa de recuperação da companhia.

Agora, o movimento ganha outra dimensão.

De uma casa de carnes a negócios globais

É justamente aqui que a notícia encontra espaço natural dentro do universo acompanhado pelo Compre Rural.

A aquisição da Avibras não transforma a JBS em uma empresa de defesa. São operações societariamente distintas. Mas mostra até onde chegou a expansão empresarial da família que construiu sua principal referência econômica dentro da pecuária brasileira.

A JBS nasceu de um pequeno negócio de carnes em Goiás e hoje lidera globalmente a produção de carne bovina e de frango, segundo informações da própria companhia.

Nos últimos anos, a empresa também avançou sobre novas áreas relacionadas ao agro, alimentos, ciência e infraestrutura. Em 2026, inaugurou a JBS Biotech, centro com mais de 4 mil metros quadrados dedicado, entre outras frentes, à saúde animal e nutrição de precisão.

No mesmo ano, anunciou uma parceria com o fundo soberano da Indonésia envolvendo US$ 2,5 bilhões por 25% de suas operações na Austrália e Nova Zelândia, dentro de uma estratégia que pode mobilizar até US$ 5 bilhões para expansão na Ásia e Oceania.

Esse histórico ajuda a compreender por que a compra da Avibras chama atenção mesmo fora do mercado de defesa.

Os Batista saíram de uma família construída empresarialmente ao redor da carne para uma estrutura de investimentos que hoje alcança alguns dos setores mais estratégicos da economia.

A nova fronteira dos irmãos Batista

No caso da Avibras, há ainda um componente diferente: soberania tecnológica.

Segundo a Globe, a aquisição pretende sustentar a retomada das operações, preservar a capacidade tecnológica e industrial da fabricante e criar condições para que a empresa volte a crescer dentro e fora do Brasil. A companhia também destacou a intenção de preservar o controle nacional da Avibras.

A documentação encaminhada ao Cade apresenta o negócio como uma entrada estratégica dos irmãos Batista na indústria brasileira de defesa e aeroespacial.

É uma mudança de fronteira que poucos imaginariam quando a família Batista começou no comércio de carnes no interior de Goiás.

Mais de sete décadas depois, os empresários ligados à construção da gigante JBS passam da proteína animal e dos grandes negócios do agronegócio para o controle de uma fabricante brasileira de foguetes, mísseis e sistemas de defesa.

E, embora JBS e Avibras permaneçam negócios distintos, a operação acrescenta um capítulo bastante incomum à trajetória de uma das famílias empresariais mais conhecidas do agro brasileiro.

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