Presidente fez a declaração durante ato de campanha em Santa Catarina ao falar sobre a relação de seu governo com o agronegócio; Lula citou o volume de crédito rural e a abertura de mercados internacionais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocou novamente a relação de seu governo com o agronegócio no centro do debate político. Durante um comício realizado neste sábado (19), em Florianópolis (SC), Lula questionou por que parte do setor mantém resistência ao seu governo e afirmou que, diante dos recursos disponibilizados à agricultura, produtores deveriam “não só votar, mas se ajoelhar” para ele.
A declaração ocorreu em um ato de campanha eleitoral, no qual Lula, candidato à reeleição, estava acompanhado de aliados políticos, entre eles Gelson Merísio (PSB), candidato ao governo catarinense apoiado pelo presidente. Ao falar diretamente sobre o agro, Lula relacionou sua argumentação principalmente ao volume de crédito rural disponibilizado durante seus governos e à abertura de mercados internacionais para produtos brasileiros.
“Se dependesse de dinheiro do governo, eles deveriam não só votar, mas se ajoelhar pra mim”, declarou Lula durante o discurso.
O que Lula disse sobre o agronegócio
A declaração surgiu quando o presidente sugeriu que Merísio promovesse uma reunião com representantes do agronegócio catarinense para discutir os motivos da resistência política encontrada pelo governo entre parte dos produtores.
Lula afirmou que gostaria que fosse perguntado aos representantes do setor por que eles não votam em seu grupo político. Na sequência, relacionou essa questão aos recursos disponibilizados para financiar a produção rural.
O presidente também declarou que “nunca houve tanto dinheiro para a agricultura como agora” e afirmou que os três maiores volumes de crédito destinados ao setor ocorreram durante seus mandatos.
A fala ganhou repercussão justamente pela utilização da expressão “se ajoelhar” ao relacionar políticas públicas direcionadas à agropecuária com apoio eleitoral.
Plano Safra empresarial tem R$ 525,1 bilhões
Os números oficiais ajudam a colocar a declaração em perspectiva.
No Plano Safra 2026/2027, o governo federal programou R$ 525,1 bilhões em crédito para a agricultura empresarial. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), os recursos são destinados a operações de custeio, comercialização e investimento.
O montante supera os R$ 516 bilhões anunciados para a agricultura empresarial no Plano Safra 2025/26.
É importante, entretanto, fazer uma distinção: o valor anunciado no Plano Safra não corresponde a uma transferência direta de R$ 525,1 bilhões do governo para produtores rurais.
O Plano Safra organiza e estabelece condições para diferentes linhas de crédito rural, contratadas por produtores e cooperativas junto às instituições financeiras. Dependendo da modalidade, existem recursos controlados, equalização de taxas e diferentes fontes de financiamento.
Na prática, o produtor contrata financiamento, assume uma dívida e precisa quitar a operação conforme as condições estabelecidas para aquela linha.
Essa diferenciação é relevante para compreender a afirmação feita pelo presidente durante o comício: uma coisa é o volume de crédito disponibilizado ao setor; outra é interpretar todo esse montante como dinheiro entregue diretamente pelo governo aos produtores.
Lula também citou abertura de mercados
O presidente utilizou outro indicador para defender sua relação com o agronegócio: a abertura de mercados internacionais para produtos brasileiros.
Durante o discurso, Lula destacou particularmente as oportunidades conquistadas para proteínas animais, segmento de grande importância para Santa Catarina.
Segundo o presidente, durante seu governo foram abertos 34 mercados para aves e derivados e outros 25 para carne suína.
Santa Catarina possui posição estratégica nesse segmento. O estado abriga uma cadeia altamente integrada entre produtores, cooperativas e agroindústrias e figura entre os principais polos brasileiros de produção e exportação de carnes suína e de frango.
A abertura de mercado significa que determinado país passou a autorizar sanitária ou comercialmente a entrada de um produto brasileiro. Isso, entretanto, não representa automaticamente aumento das exportações, que posteriormente dependerá de fatores como demanda, preço, competitividade, câmbio e negociação comercial.
Crédito rural e apoio político são questões diferentes
A declaração também coloca em evidência uma distinção importante para o debate no campo.
O Plano Safra é uma política pública de crédito rural existente há décadas e executada por diferentes governos. Seus recursos financiam custeio, comercialização e investimentos necessários à produção agropecuária brasileira.
Produtores utilizam essas linhas para financiar desde sementes, fertilizantes e defensivos até máquinas, armazenagem, irrigação e outras estruturas produtivas.
O volume disponibilizado, as taxas de juros, as fontes de recursos e as condições dos programas variam a cada safra e conforme as decisões de política agrícola.
Já a preferência eleitoral de produtores e representantes do setor envolve fatores que vão além da disponibilidade de financiamento, podendo incluir questões econômicas, regulatórias, ambientais, fundiárias, tributárias e posicionamentos políticos individuais.
Por isso, a existência de crédito rural e a preferência eleitoral do produtor são elementos distintos, ainda que tenham sido relacionados pelo presidente em seu discurso.
Declaração ocorre em plena campanha eleitoral
Outro elemento fundamental para compreender a fala é o momento em que ela foi feita.
Lula é candidato à reeleição em 2026, e a declaração ocorreu durante um comício eleitoral em Santa Catarina. Portanto, o discurso deve ser entendido também dentro do ambiente de campanha e da disputa pelo eleitorado.
Santa Catarina possui forte presença do agronegócio, especialmente das cadeias de aves, suínos, grãos e cooperativismo.
Ao abordar o setor durante o evento, Lula procurou apresentar o volume de crédito rural e a abertura de mercados como resultados de sua administração e, ao mesmo tempo, questionou por que essas políticas não se traduzem necessariamente em apoio político.
A expressão utilizada pelo presidente provocou reações de adversários políticos após o discurso e ampliou a repercussão da declaração.
Independentemente da disputa eleitoral, os números permitem separar os dois pontos centrais da discussão: o governo efetivamente ampliou o volume nominal de crédito programado para a agricultura empresarial no atual Plano Safra, chegando a R$ 525,1 bilhões; esses recursos, porém, são majoritariamente linhas de financiamento e não uma transferência direta desse valor aos produtores.
A declaração de Lula acrescenta agora um componente político a essa discussão ao relacionar as políticas destinadas ao campo com o apoio eleitoral recebido por seu governo dentro do agronegócio.
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