Maior desfile de cavalos da Mongólia reúne mais de 12 mil animais em cena impressionante; vídeo

Com cerca de 12.600 cavaleiros, maior desfile de cavalos da celebração tomou a estepe de Khui Doloon Khudag e mostrou ao mundo a força de uma tradição que acompanha a Mongólia há séculos.

Uma imensa linha de cavalos avançando pela estepe, praticamente até onde a vista alcança. A cena registrada em Khui Doloon Khudag, na Mongólia, reuniu cerca de 12 mil animais durante o Festival Mundial do Cavalo e mostrou ao mundo algo que, para os mongóis, vai muito além de uma apresentação equestre: o cavalo continua sendo parte da identidade de uma nação construída sobre uma das culturas pastoris mais antigas e preservadas da Ásia.

Registros divulgados durante o evento mostram milhares de animais reunidos na região tradicionalmente ligada às grandes celebrações e corridas equestres do país. A banda mongol The HU, conhecida internacionalmente por incorporar elementos da cultura tradicional à música contemporânea, também publicou imagens do festival mencionando a presença dos 12 mil cavalos em Khui Doloon Khudag.

Mas os números ajudam apenas a dimensionar visualmente o acontecimento. Para compreender por que reunir tantos cavalos possui tamanho peso simbólico, é necessário olhar para a própria formação histórica da Mongólia.

Poucos lugares do planeta mantêm uma relação tão próxima com o cavalo.

Dados mencionados internacionalmente pelo próprio governo mongol indicam uma população equina na casa dos milhões. Em discurso nas Nações Unidas em 2025, o presidente Khurelsukh Ukhnaa destacou que a Mongólia tinha cerca de 3,4 milhões de cavalos para aproximadamente 3,3 milhões de habitantes.

É uma proporção difícil de imaginar em países altamente urbanizados.

Nas extensas áreas de pastagem mongóis, o cavalo historicamente não foi apenas um animal de esporte ou lazer. Ele participou do deslocamento das famílias, do manejo dos rebanhos, das atividades produtivas e da própria organização da vida nômade.

Essa relação atravessou séculos.

O próprio presidente mongol já resumiu essa ligação ao afirmar perante a ONU que os mongóis cresceram historicamente sobre cavalos. O simbolismo está inclusive nos elementos nacionais: o animal aparece no imaginário do país, enquanto crina e cauda estão relacionadas a tradicionais estandartes e o morin khuur, instrumento de duas cordas com cabeça de cavalo, ocupa lugar central na cultura mongol.

A celebração do primeiro Dia Mundial do Cavalo reuniu 12.600 cavaleiros e foi uma iniciativa do presidente da Mongólia, Khurelsukh Ukhnaa. Foto: MONTSAME

A importância histórica ganha outra dimensão quando se observa a geografia.

A Mongólia possui vastas extensões de estepes abertas, onde comunidades pastoris desenvolveram durante gerações sistemas de criação adaptados ao frio extremo, às grandes distâncias e à disponibilidade sazonal de pastagens.

Nesse ambiente, dominar a equitação significava mobilidade.

Muito antes da mecanização, o cavalo permitia percorrer rapidamente enormes territórios, acompanhar animais, transportar pessoas e manter conexões entre comunidades separadas por dezenas ou centenas de quilômetros.

Essa capacidade de deslocamento também teve enorme influência militar e política durante a expansão do Império Mongol, especialmente a partir do século XIII. Cavalos resistentes e cavaleiros capazes de permanecer longos períodos montados deram às forças mongóis uma mobilidade extraordinária para a época.

Por isso, um desfile com milhares de animais não representa apenas quantidade. Ele recupera visualmente uma relação entre homem, cavalo e território que ajudou a construir a própria história mongol.

A ligação continua evidente no Naadam, o principal festival tradicional do país.

Realizado anualmente, o Naadam gira em torno de três práticas históricas: corrida de cavalos, luta livre e arco e flecha. Desde 2010, o festival integra a Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

A própria UNESCO considera o Naadam inseparável da civilização nômade mongol e destaca que seus conhecimentos e práticas são tradicionalmente transmitidos dentro das famílias, passando de geração para geração.

É justamente essa continuidade que torna a cultura equestre mongol diferente de muitos espetáculos contemporâneos envolvendo cavalos.

Ali, o animal não foi incorporado posteriormente à celebração.

A celebração existe porque o cavalo já fazia parte da vida.

A dimensão política dessa relação ganhou um capítulo importante recentemente.

Por iniciativa da Mongólia, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, em junho de 2025, a criação do Dia Mundial do Cavalo, celebrado em 11 de julho.

Segundo a Presidência da Mongólia, a proposta pretende aumentar a conscientização internacional sobre a importância dos equinos e incentivar ações relacionadas à preservação do patrimônio cultural e da atividade equestre.

A escolha da data não ocorreu por acaso.

O dia 11 de julho coincide com o início das celebrações nacionais do Naadam, criando uma ligação direta entre uma tradição mongol e o reconhecimento internacional da contribuição dos cavalos para a humanidade.

O Dia Mundial do Cavalo promove o valor e o patrimônio genético do cavalo mongol. Foto: MONTSAME

A iniciativa também chama atenção para uma questão contemporânea: apesar de permanecer importante em diversas regiões rurais, a população equina e determinadas atividades ligadas aos cavalos enfrentam pressões provocadas pela urbanização, mudanças econômicas, alterações no estilo de vida e efeitos climáticos, segundo a justificativa apresentada pela Mongólia.

Para países pecuários como o Brasil, existe outro aspecto interessante por trás das imagens.

O avanço tecnológico transformou profundamente a relação entre animais, produção e território. Tratores, motocicletas, caminhonetes, drones e sistemas digitais assumiram funções que durante séculos dependeram de cavalos.

Ainda assim, o animal permanece economicamente relevante.

No Brasil, isso pode ser observado na pecuária extensiva, nas provas funcionais, no turismo rural, nos esportes equestres, na reprodução, nos leilões e em uma ampla cadeia formada por criadores, veterinários, zootecnistas, treinadores, ferradores, fabricantes de equipamentos e prestadores de serviços.

A Mongólia apresenta outro estágio dessa relação.

Nas estepes, o cavalo ainda está conectado diretamente ao modo tradicional de criação e deslocamento de parte da população rural. Não é somente patrimônio histórico: continua integrado à vida pastoril.

Essa talvez seja uma das razões pelas quais imagens de milhares de cavalos atravessando Khui Doloon Khudag chamam tanta atenção fora do país.

A dimensão do Festival Mundial do Cavalo impressiona imediatamente pelo número.

Doze mil animais reunidos em uma mesma paisagem já seriam suficientes para transformar o evento em uma das imagens equestres mais marcantes do ano. Mas reduzir o acontecimento à grandiosidade do desfile seria perder justamente sua parte mais interessante.

Na Mongólia, o cavalo aparece na história, na pecuária, na música, no esporte, nas celebrações, nos símbolos nacionais e na própria memória das famílias nômades.

A UNESCO reconhece diferentes manifestações dessa cultura, do Naadam ao tradicional morin khuur, instrumento cuja história está diretamente relacionada ao culto e à importância do cavalo entre os povos mongóis.

É por isso que a imagem de milhares de animais atravessando a estepe possui uma força que números sozinhos não conseguem explicar.

Os 12 mil cavalos de Khui Doloon Khudag não estavam apenas participando de um desfile. Eles representavam, em movimento, séculos da história de um povo que fez do cavalo parte de sua identidade.

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