Medicina equina ganha tratamento inédito para laminite em cavalos

Velagliflozina foi autorizada na Grã-Bretanha para cavalos e pôneis com hiperinsulinemia que não respondem adequadamente ao manejo e exercício; medicamento atua sobre alteração metabólica associada ao risco de laminite

A medicina equina acaba de alcançar um marco no combate a uma das condições mais temidas entre proprietários, criadores e veterinários. A Grã-Bretanha colocou no mercado o primeiro medicamento veterinário desenvolvido e licenciado especificamente para tratar a hiperinsulinemia em cavalos e pôneis com desregulação da insulina, alteração metabólica fortemente relacionada ao desenvolvimento da laminite endocrinopática.

O medicamento é o Scovella, à base de velagliflozina, substância pertencente à classe dos inibidores do cotransportador de sódio-glicose 2 (SGLT-2). Autorizado pelas autoridades britânicas em abril de 2026, o produto passou a chegar aos veterinários da Inglaterra, Escócia e País de Gales em setembro.

A novidade chama atenção porque não atua simplesmente sobre a dor ou sobre as consequências da laminite no casco. A proposta é controlar uma alteração metabólica que pode colocar determinados animais em risco antes mesmo do aparecimento da doença.

O que a insulina tem a ver com a laminite?

A laminite provoca comprometimento das estruturas responsáveis por manter a parede do casco ligada aos tecidos internos que sustentam o osso distal do membro. Nos quadros graves, causa dor intensa e pode comprometer permanentemente a locomoção do cavalo.

Durante muito tempo, a doença foi associada principalmente a fatores como excesso de grãos, distúrbios digestivos, doenças sistêmicas e sobrecarga dos membros.

O avanço da endocrinologia equina, entretanto, mostrou a importância de outro mecanismo: a desregulação da insulina.

Ela é considerada uma característica central da síndrome metabólica equina e está diretamente relacionada ao aumento do risco de laminite endocrinopática.

Isso significa que, em determinados animais, o problema começa metabolicamente antes de aparecer no casco.

Um em cada cinco equinos pode apresentar desregulação da insulina

Dados citados no desenvolvimento da nova terapia estimam que aproximadamente um em cada cinco cavalos e pôneis possa apresentar desregulação da insulina.

Isso não significa que um em cada cinco desenvolverá laminite.

Também não significa que todo animal acima do peso tenha a condição ou que toda laminite seja provocada pelo mesmo mecanismo.

É justamente por isso que o diagnóstico veterinário é fundamental.

A regulamentação britânica exige avaliação clínica e testes endocrinológicos adequados antes do início do tratamento, confirmando a presença da desregulação da insulina.

Como funciona o novo medicamento?

A velagliflozina atua nos rins, bloqueando parcialmente um transportador envolvido na reabsorção da glicose.

Como consequência, uma parcela maior da glicose é eliminada pela urina, reduzindo a resposta glicêmica e ajudando a controlar a produção excessiva de insulina.

O objetivo não é simplesmente baixar a glicose sanguínea.

Em cavalos insulinodisregulados, determinados estímulos alimentares podem provocar uma resposta de insulina muito superior à observada em animais metabolicamente saudáveis. É justamente sobre esse mecanismo que a terapia procura atuar.

Estudo encontrou diferença expressiva

Um dos resultados experimentais utilizados no desenvolvimento do medicamento chamou atenção.

Em um desafio alimentar realizado com animais predispostos, nenhum dos pôneis tratados com velagliflozina desenvolveu laminite clínica, enquanto 38% dos animais do grupo controle não tratado apresentaram a doença.

O resultado é relevante, mas precisa ser interpretado dentro do contexto do estudo.

Ele não significa proteção absoluta contra laminite, já que o experimento avaliou animais específicos, submetidos a determinadas condições, e existem outras causas da doença que não dependem da desregulação da insulina.

Medicamento não substitui dieta e exercício

Este talvez seja o ponto mais importante para proprietários de cavalos.

A autorização britânica prevê o uso da velagliflozina em cavalos e pôneis com desregulação da insulina que não responderam adequadamente às mudanças de manejo e exercício.

Portanto, o tratamento farmacológico não substitui os cuidados tradicionais.

Controle da dieta, ingestão energética, quantidade de carboidratos não estruturais, condição corporal e exercício — quando clinicamente possível — continuam fundamentais.

Não se trata de um medicamento para compensar manejo nutricional inadequado.

Cavalo não precisa ser obeso para apresentar o problema

Outro ponto importante é que nem todo animal com desregulação da insulina apresenta obesidade evidente.

O excesso de peso continua sendo um fator de risco importante e aparece frequentemente associado à síndrome metabólica equina. Entretanto, existem cavalos insulinodisregulados que não são necessariamente obesos.

Por isso, observar apenas a condição corporal pode não ser suficiente.

Animais com histórico recorrente de laminite, depósitos regionais de gordura — incluindo crista pronunciada no pescoço — ou suspeita de alterações metabólicas merecem avaliação veterinária.

Testes endocrinológicos, incluindo métodos como teste oral de açúcar e teste de tolerância à insulina, podem fazer parte da investigação, conforme o caso.

Tratamento exige acompanhamento veterinário

A velagliflozina também possui efeitos que precisam ser monitorados.

Como modifica o metabolismo e aumenta a eliminação urinária de glicose, a documentação britânica alerta para a possibilidade de elevação dos triglicerídeos sanguíneos. Nos estudos, grande parte desses episódios foi assintomática e transitória.

Existem ainda contraindicações.

O produto não deve ser utilizado em animais com anorexia ou hiperlipemia acompanhada de sinais clínicos, como perda de apetite e letargia.

Por isso, diagnóstico, prescrição e acompanhamento veterinário são indispensáveis.

Quinze anos de pesquisa

O desenvolvimento da terapia é resultado de aproximadamente 15 anos de pesquisas relacionadas à desregulação da insulina e laminite equina, segundo a fabricante.

A velagliflozina já aparecia em pesquisas anos antes da chegada do produto ao mercado. Em 2018, estudos experimentais apontaram sua capacidade de reduzir a hiperinsulinemia e prevenir laminite em pôneis insulinodisregulados submetidos a desafio alimentar.

A diferença em 2026 é importante: a pesquisa deu origem a um medicamento veterinário formulado e autorizado especificamente para equinos.

A autorização britânica, entretanto, possui uma particularidade: trata-se de uma limited marketing authorisation, concedida dentro das regras britânicas para medicamentos veterinários.

Isso não equivale automaticamente à aprovação em outros países.

E no Brasil?

Este ponto exige atenção. Não há, nas informações utilizadas para esta reportagem, confirmação de registro e disponibilidade comercial do Scovella no Brasil.

Portanto, o lançamento britânico não deve ser interpretado como autorização para comercialização ou utilização automática do medicamento no mercado brasileiro. A fabricante indicou intenção de levar a terapia para outros mercados, mas as fontes consultadas não apresentam um cronograma específico para o Brasil.

A eventual chegada da tecnologia ao país teria relevância particular. O Brasil possui uma grande população equina e cadeias consolidadas envolvendo cavalos de esporte, trabalho, reprodução e lazer.

Uma mudança na forma de enfrentar a laminite

Talvez o maior avanço representado pela nova terapia esteja na mudança de perspectiva.

A laminite normalmente chama atenção quando o cavalo já demonstra dor, dificuldade para caminhar ou alterações nos cascos.

O avanço da endocrinologia equina permite agir antes.

Identificar corretamente animais com desregulação da insulina possibilita trabalhar sobre um importante fator de risco antes que um episódio de laminite provoque danos ao casco.

Dieta adequada, controle da condição corporal, exercício e acompanhamento veterinário continuam sendo a base do manejo. Agora, para determinados cavalos nos quais essas medidas não conseguem controlar adequadamente a hiperinsulinemia, a medicina veterinária passa a contar com uma nova ferramenta terapêutica oficialmente licenciada na Grã-Bretanha.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM