Soltaram 28 asnos em um deserto quase sem água; décadas depois, eles mudaram a paisagem

Reintroduzidos no deserto do Neguev a partir de 1982, os asnos-selvagens-asiáticos conseguiram restabelecer uma população que hoje supera 300 indivíduos; estudos sobre grandes equídeos ajudam a revelar como esses animais podem alterar solo, vegetação e disponibilidade de recursos em regiões áridas.

Em 1982, cinco asnos-selvagens-asiáticos começaram uma experiência de conservação no coração de uma das regiões mais áridas de Israel. Nos anos seguintes, novas solturas completariam um grupo de 28 animais reintroduzidos entre 1982 e 1987 na região de Makhtesh Ramon, no deserto do Neguev. Machos e fêmeas voltavam a ocupar uma paisagem da qual seus parentes haviam desaparecido décadas antes.

Mais de quatro décadas depois, o resultado vai muito além da sobrevivência daqueles primeiros animais. A população se estabeleceu, reproduziu-se e expandiu sua distribuição pelo deserto. Estudos realizados ao longo dos anos estimaram cerca de 200 indivíduos vivendo no Neguev, embora levantamentos de épocas diferentes apresentem números distintos.

A história voltou a ganhar repercussão internacional em setembro de 2026 acompanhada de uma afirmação ainda mais impressionante: os animais teriam “transformado o deserto em um oásis”.

A realidade científica é mais complexa — e talvez mais interessante.

Pesquisas sobre asnos e cavalos em regiões áridas demonstram que esses grandes herbívoros podem atuar como verdadeiros engenheiros de ecossistemas. Ao caminhar, pastar, transportar sementes e procurar água, eles alteram fisicamente o ambiente. E uma descoberta publicada na revista Science mostrou que equídeos são capazes inclusive de cavar poços de até dois metros de profundidade para alcançar água subterrânea, criando pontos de abastecimento aproveitados por inúmeras outras espécies.

Os 28 animais faziam parte de uma operação de conservação

A história começa antes de 1982.

O asno-selvagem-asiático (Equus hemionus) já havia ocupado extensas áreas da Ásia Ocidental, inclusive o Neguev. Caça e perda de habitat provocaram forte redução da população e a subespécie originalmente encontrada no Oriente Médio, Equus hemionus hemippus, acabou extinta no início do século XX.

Israel iniciou em 1968 um núcleo de reprodução utilizando 11 animais de populações iranianas e turcomenas. O objetivo era formar uma população capaz de retornar à natureza.

A etapa decisiva começou em 1982.

Entre aquele ano e 1987, 28 indivíduos — 14 machos e 14 fêmeas — foram reintroduzidos na região de Ein Saharonim, em Makhtesh Ramon. Posteriormente, entre 1992 e 1993, outros dez foram libertados em Wadi Paran, cerca de 35 quilômetros ao sul.

Portanto, não se tratou simplesmente de “soltar 28 burros no deserto”. Foi um programa estruturado de conservação, reprodução e reintrodução de um equídeo selvagem desaparecido daquela paisagem.

E funcionou.

Durante a década de 1990, os animais começaram a ampliar naturalmente sua área de ocorrência em direção às terras altas do Neguev e ao vale de Arava. Décadas depois, a população já estava estabelecida em diferentes áreas da região.

O que um asno pode fazer por um deserto?

É aqui que a história ganha uma dimensão particularmente interessante para a ciência.

Grandes herbívoros não são apenas consumidores de vegetação. Eles movimentam nutrientes, transportam sementes, pisoteiam determinadas áreas, abrem caminhos e modificam fisicamente a superfície do terreno.

Em ecologia, animais capazes de provocar alterações relevantes no ambiente são frequentemente tratados como engenheiros de ecossistemas.

Com equídeos, um dos exemplos mais impressionantes envolve água.

Um estudo liderado pelo ecólogo Erick Lundgren e publicado em 2021 na revista Science acompanhou cavalos e asnos ferais em ambientes áridos da América do Norte.

Os pesquisadores observaram os animais escavando o solo até alcançar o lençol subterrâneo.

Alguns desses buracos chegaram a aproximadamente dois metros de profundidade.

O comportamento solucionava uma necessidade imediata dos próprios animais: beber.

Mas o efeito não terminava ali.

Os poços passaram a servir a dezenas de espécies

Ao analisar os locais escavados, os pesquisadores descobriram que a água encontrada pelos equídeos estava sendo utilizada por toda uma comunidade animal.

Câmeras instaladas nos desertos de Sonora e Mojave registraram 57 espécies de vertebrados utilizando esses pontos de água, entre elas aves, cervos e até grandes predadores.

Nos locais estudados, os poços aumentaram a quantidade de água superficial disponível e reduziram a distância que os animais precisavam percorrer entre uma fonte e outra.

Em determinado ponto monitorado, quando o curso d’água secou completamente, os poços cavados pelos equídeos se tornaram a única fonte de água disponível.

Em outro local, chegaram a representar até 74% da água superficial acessível.

A distância média entre pontos de água também caiu em cerca de 843 metros.

Em um ambiente desértico, isso não é detalhe.

Significa diminuir o deslocamento necessário para beber justamente nos períodos de maior calor e escassez.

Quando o poço seca, outra transformação pode começar

Talvez a descoberta mais curiosa tenha surgido depois que alguns desses poços perderam a água.

Os pesquisadores perceberam que certas escavações abandonadas passaram a funcionar como áreas favoráveis à germinação de árvores associadas a ambientes ribeirinhos.

Isso acontece porque a escavação modifica as condições físicas do solo de maneira semelhante, em pequena escala, ao distúrbio provocado por uma inundação.

O estudo concluiu que alguns poços se transformavam em verdadeiros berçários para árvores, acrescentando uma segunda função ecológica àquela escavação originalmente feita apenas para beber.

É um exemplo de como uma ação aparentemente simples de um animal pode desencadear uma sequência de efeitos sobre o ambiente.

E as sementes?

A dispersão de sementes é outra função importante exercida por grandes herbívoros.

Ao consumir frutos e outras estruturas vegetais, os animais podem transportar sementes por quilômetros antes de eliminá-las nas fezes. Além do deslocamento, algumas sementes encontram ali matéria orgânica e umidade capazes de favorecer sua germinação.

No caso dos grandes herbívoros de regiões áridas, isso significa conectar manchas isoladas de vegetação em paisagens onde água, nutrientes e cobertura vegetal estão distribuídos de forma extremamente irregular.

Somam-se a isso os efeitos mecânicos.

Cascos modificam a superfície, criam trilhas e revolvem determinadas porções do solo. Dependendo da intensidade, do ambiente e da população animal, esses impactos podem ser positivos ou negativos — razão pela qual não é cientificamente correto afirmar que a presença de asnos sempre melhora um ecossistema.

Essa ressalva é fundamental.

Nem heróis nem vilões

A descoberta também mexeu com um debate antigo envolvendo equídeos introduzidos.

Em diferentes partes do mundo, cavalos e asnos ferais são tratados como espécies invasoras capazes de competir com a fauna nativa, degradar margens de cursos d’água, consumir vegetação e provocar erosão.

Esses impactos existem e precisam ser considerados.

O que pesquisas mais recentes acrescentaram à discussão é que a relação pode ser mais complexa do que simplesmente classificar esses animais como prejudiciais ou benéficos.

No sudoeste dos Estados Unidos, por exemplo, o estudo mostrou que os mesmos equídeos considerados invasores estavam criando fontes de água utilizadas pela fauna nativa.

O efeito final depende do ambiente, da densidade populacional, da disponibilidade de recursos e das espécies que compõem aquele ecossistema.

É justamente essa complexidade que torna o caso relevante.

Uma função que grandes animais desempenham há milhares de anos

Existe ainda uma interpretação ecológica mais ampla.

Antes das grandes extinções de megafauna, enormes herbívoros movimentavam-se por praticamente todos os continentes. Esses animais derrubavam vegetação, escavavam, transportavam nutrientes e sementes e modificavam continuamente a paisagem.

Quando desapareceram, algumas dessas funções também desapareceram.

A pesquisa publicada na Science levanta justamente a possibilidade de que equídeos presentes hoje em regiões áridas estejam restabelecendo parcialmente processos ecológicos antes desempenhados por grandes mamíferos extintos.

Não significa que cavalos ou asnos devam ser introduzidos indiscriminadamente em ambientes naturais.

Significa que a presença de grandes herbívoros pode produzir efeitos ecológicos muito mais amplos do que simplesmente retirar vegetação do ambiente.

Do Neguev ao campo brasileiro: a lição está na relação entre animal, solo e paisagem

Embora o caso israelense seja um projeto de conservação e não tenha relação direta com produção agropecuária, ele toca em um princípio conhecido de quem trabalha com sistemas produtivos: animais também modificam fisicamente o ambiente onde vivem.

Na pecuária, intensidade de pastejo, lotação, disponibilidade de água, distribuição dos animais, fertilidade e cobertura do solo determinam se essa interação produzirá degradação ou poderá integrar processos de ciclagem de nutrientes e manejo da vegetação.

O mesmo princípio aparece na natureza em escala muito maior.

A presença de um grande herbívoro altera onde nutrientes são depositados, quais plantas são consumidas, como sementes se deslocam e até onde outros animais conseguem encontrar determinados recursos.

Por isso, a história iniciada no Neguev há mais de quatro décadas não deve ser reduzida à ideia simplificada de que “28 burros criaram um oásis”.

O que aconteceu é cientificamente mais relevante.

Um programa iniciado para devolver um grande herbívoro ao deserto conseguiu estabelecer novamente uma população selvagem onde seus parentes haviam desaparecido. Paralelamente, pesquisas realizadas em outros desertos revelaram que equídeos podem cavar água, transportar sementes, criar condições para novas plantas e disponibilizar recursos para dezenas de outras espécies.

Quarenta anos depois, a experiência ajuda a lembrar que recuperar um animal não significa necessariamente recuperar apenas uma espécie.

Em determinadas situações, significa também devolver à paisagem processos ecológicos que haviam desaparecido junto com ela.

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