No Dia do Gaúcho, Cavalo Crioulo pode ganhar uma semana oficial no RS

Proposta em discussão na Assembleia Legislativa prevê a criação da Semana do Cavalo Crioulo e do Dia do Domador; raça já é animal-símbolo do Rio Grande do Sul, e sua cadeia movimenta mais de R$ 4 bilhões por ano no território gaúcho

No 20 de setembro, Dia do Gaúcho, poucas imagens representam tão bem a ligação entre o campo, a história e a cultura do Rio Grande do Sul quanto a de um cavaleiro montado em um Cavalo Crioulo. Agora, essa relação pode ganhar um novo reconhecimento no calendário oficial do Estado.

Está em discussão na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul uma proposta que pretende instituir oficialmente a Semana do Cavalo Crioulo e o Dia do Domador. A iniciativa é da deputada estadual Adriana Lara e prevê que as celebrações ocorram no início de dezembro, fortalecendo o reconhecimento de uma cadeia que ultrapassou os limites das estâncias e hoje reúne criação, genética, competições, leilões, serviços e milhares de profissionais.

A proposta ganha um significado especial justamente durante as comemorações farroupilhas. Isso porque o Cavalo Crioulo não é apenas associado culturalmente ao gaúcho: a raça já é reconhecida por lei como animal-símbolo do Rio Grande do Sul e integrante do patrimônio cultural do Estado. O reconhecimento existe desde a Lei Estadual nº 11.826, de 26 de agosto de 2002.

Uma raça que também virou potência econômica

Por trás da tradição existe uma cadeia econômica de peso.

Segundo informações atribuídas à Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC) na divulgação da proposta, a cadeia produtiva da raça movimenta mais de R$ 4 bilhões por ano no Rio Grande do Sul.

O tamanho desse mercado pode ser percebido também dentro da Expointer. Na edição de 2026, dos 25 leilões programados, oito tiveram participação de equinos Crioulos, com previsão de oferta de 248 exemplares. Somente nos seis leilões realizados durante a Expointer de 2025, a raça havia movimentado R$ 14,51 milhões em vendas.

O crescimento ajuda a explicar por que o Crioulo deixou de ser visto exclusivamente como o cavalo da lida.

A rusticidade e a funcionalidade continuam entre suas características mais valorizadas, mas a raça construiu também uma grande estrutura esportiva, envolvendo modalidades funcionais e eventos que movimentam criadores, treinadores, veterinários, domadores, ginetes, leiloeiros, centrais de reprodução, fornecedores e propriedades rurais.

Semana do Cavalo Crioulo entraria para o calendário oficial

A proposta pretende levar essa importância para o calendário oficial gaúcho.

A Semana do Cavalo Crioulo seria realizada no começo de dezembro, período que já concentra uma programação importante da raça. Em 2025, por exemplo, a terceira edição da Semana do Cavalo ocorreu entre 1º e 6 de dezembro, na Arena do Cavalo Crioulo, no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio.

O evento reuniu provas como Doma de Ouro, Um Ano de Freio, Rédeas, Vaquero/Working Cow Horse, Movimiento a La Rienda e Inclusão de Ouro, além de outras atividades.

A transformação da semana em uma data oficial do Estado, portanto, daria reconhecimento institucional a uma mobilização que já existe dentro da raça.

Projeto também valoriza o domador

Outro ponto da proposta é a criação do Dia do Domador, previsto para 2 de dezembro.

A iniciativa dá continuidade a um movimento de valorização de um dos profissionais mais tradicionais da cadeia do cavalo no Rio Grande do Sul.

Em 2025, a Assembleia Legislativa aprovou por unanimidade o projeto que reconheceu o ofício de domador como Patrimônio Histórico e Cultural do Rio Grande do Sul. A iniciativa também homenageou Vilson Souza, figura histórica da doma gaúcha e primeiro ginete campeão do Freio de Ouro.

A relação entre domador e Cavalo Crioulo está diretamente ligada à própria evolução funcional da raça. Muito antes das grandes arenas e dos leilões milionários, esses animais eram selecionados principalmente pela capacidade de enfrentar as exigências da rotina das propriedades rurais.

Cavalo Crioulo já carrega reconhecimento histórico

A nova proposta não seria o primeiro reconhecimento legal concedido à raça.

Desde 2002, a legislação gaúcha estabelece expressamente o Cavalo Crioulo como animal-símbolo do Rio Grande do Sul, além de considerá-lo parte do patrimônio cultural estadual.

Em âmbito nacional, outro importante reconhecimento veio em 2022, quando a Marcha de Resistência do Cavalo Crioulo do Rio Grande do Sul passou a ser reconhecida como manifestação da cultura nacional, após a transformação do projeto aprovado pelo Congresso na Lei nº 14.392/2022.

A Marcha é uma das provas que melhor traduzem a origem funcional da raça, colocando à prova características historicamente associadas ao Crioulo, como rusticidade, resistência e capacidade de recuperação.

Do campo às pistas, um símbolo do Rio Grande do Sul

A história do Cavalo Crioulo acompanha parte importante da própria formação da cultura campeira do Sul do Brasil.

Descendente dos cavalos introduzidos pelos colonizadores espanhóis na América, o animal passou por séculos de adaptação às condições do continente. No Rio Grande do Sul, tornou-se fundamental para o trabalho com o gado e, posteriormente, ganhou espaço crescente nas competições funcionais e na seleção genética.

A organização dos criadores ganhou força em 1932, em Bagé, com a criação da entidade que posteriormente se tornaria a Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos. Décadas depois, a criação do Freio de Ouro ampliaria ainda mais a seleção funcional e o mercado da raça.

Por isso, discutir uma semana oficial dedicada ao Cavalo Crioulo justamente quando o Rio Grande do Sul celebra suas tradições ajuda a dimensionar algo que o campo conhece há gerações: para o gaúcho, o cavalo não aparece apenas nas comemorações — ele participou da construção da própria vida rural do Estado.

Agora, essa ligação histórica pode ganhar mais um capítulo no calendário oficial gaúcho.

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