Excesso de energia, ganho acelerado fora do ponto e dieta incompatível com o tipo de animal podem antecipar a deposição de gordura; o risco é gastar mais na recria sem carregar a mesma eficiência para a terminação
Na recria confinada, perseguir o maior ganho de peso possível sem considerar a composição desse ganho pode custar caro. É nesse ponto que aparece o chamado “boi bolinha”, expressão usada para descrever animais jovens que chegam a uma condição de acabamento elevada antes do momento planejado. O problema não é simplesmente oferecer uma dieta energética, mas formular e conduzir a alimentação sem considerar peso, maturidade, potencial genético e o que acontecerá com o bovino depois da recria.
O alerta ganhou nova repercussão após o BeefDay 2026, realizado em 12 de agosto na APTA Regional de Colina (SP). A quinta edição reuniu mais de 3 mil participantes e teve, entre suas estações técnicas, discussões sobre recria confinada e sistemas de maior desempenho. Em entrevista posterior ao evento, o zootecnista Rafael Neiva Assunção destacou justamente o desafio de intensificar essa etapa sem prejudicar a resposta futura dos animais. O repositório da Universidade Federal de Viçosa confirma que Assunção desenvolveu mestrado em Zootecnia estudando indicadores produtivos e econômicos da recria e terminação de bovinos. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
“Boi bolinha” não é simplesmente um boi que ganha muito peso
Tratar qualquer ganho elevado na recria como problema seria um erro. Bovinos jovens podem apresentar alto desempenho e, ainda assim, seguir uma trajetória produtiva eficiente. O ponto central é qual tecido está compondo esse ganho e em que estágio de desenvolvimento o animal se encontra.
O BR-CORTE 2023, sistema brasileiro de exigências nutricionais coordenado pela Universidade Federal de Viçosa, mostra que o peso à maturidade varia entre grupos genéticos e classes sexuais. O documento também estabelece uma relação direta entre maturidade e composição corporal: quanto mais próximo o animal está de seu peso maduro, maior tende a ser a deposição de gordura em relação à proteína.
Essa diferença impede que uma mesma estratégia seja aplicada indiscriminadamente a todos os lotes. Machos inteiros, castrados, fêmeas, zebuínos e animais cruzados não têm exatamente a mesma curva de crescimento e maturidade. Da mesma forma, um bezerro recém-desmamado e um garrote próximo da terminação não devem ser avaliados apenas pelo número de quilos ganhos diariamente.
O erro está no descompasso entre a dieta e o objetivo da recria confinada
A energia da dieta, portanto, não deve ser tratada como vilã. Ela é indispensável para sustentar crescimento e desempenho. O risco surge quando a densidade nutricional e o consumo são definidos sem considerar as exigências do lote e o destino planejado para aqueles animais.
O próprio BR-CORTE trabalha com cálculos que levam em conta peso corporal, ganho pretendido, categoria e características do animal. A plataforma destaca ainda que fornecer nutrientes acima das exigências pode elevar o custo da dieta sem produzir retorno proporcional.
É justamente por isso que estabelecer, por exemplo, um único GMD como ideal para toda recria seria tecnicamente inadequado. A meta de ganho deve fazer parte de um planejamento, e não funcionar como número isolado.
Esse cuidado conversa diretamente com o conceito do Boi 777 e a distribuição do crescimento entre cria, recria e terminação. Na descrição oficial da Secretaria de Agricultura de São Paulo, a tecnologia busca acrescentar sete arrobas em cada uma das três etapas e chegar ao abate com pelo menos 21 arrobas e até 24 meses, combinando manejo de pastagens e suplementação estratégica.
Ganhar mais na recria não garante ganhar mais na terminação
Uma análise apresentada em julho de 2026 no Journal of Animal Science ajuda a dimensionar esse cuidado. Pesquisadores das universidades de Oklahoma State e Texas A&M reuniram médias de tratamentos de 40 experimentos envolvendo a fase de crescimento anterior à terminação.
Nos sistemas de recria em confinamento seco avaliados, aumentos no ganho diário durante a fase de crescimento estiveram associados a animais mais pesados posteriormente, mas também a menor ganho médio diário durante a terminação. A eficiência alimentar nessa fase posterior também piorou conforme aumentava o desempenho anterior no sistema confinado.
Há uma ressalva necessária: essa análise reúne experimentos conduzidos em condições diferentes das encontradas em muitas fazendas brasileiras e foi publicada em suplemento científico. Portanto, ela não estabelece um limite de ganho para o Nelore no Brasil. O resultado é útil principalmente para reforçar que maximizar uma etapa isoladamente não significa necessariamente maximizar a eficiência do ciclo inteiro.
Pesquisas brasileiras recentes também mostram que essa relação é mais complexa do que simplesmente “ganhar muito” ou “ganhar pouco”. Em trabalho publicado em março de 2026 na Animal Feed Science and Technology, pesquisadores acompanharam 40 machos Nelore jovens submetidos a diferentes períodos de recria com dieta baseada em silagem de sorgo antes da terminação com dieta de maior concentração energética. Os diferentes períodos de recria não provocaram diferença significativa no GMD ou na eficiência alimentar durante a terminação, embora tenham produzido diferenças em outros indicadores produtivos e de carcaça.
O resultado reforça um ponto: não existe uma receita única capaz de definir a melhor intensidade de recria sem considerar o programa produtivo completo.
Retirar volumoso não é solução automática
Outro cuidado envolve dietas de muito alto concentrado. A reportagem que repercutiu a apresentação do BeefDay informa que pesquisadores avaliaram estratégias de baixa inclusão e até ausência de volumoso durante a recria confinada. Entretanto, os dados públicos disponíveis naquela reportagem não apresentam composição completa das rações nem resultados experimentais suficientes para transformar a retirada de volumoso em recomendação universal.
Além disso, resultados obtidos na terminação não devem ser automaticamente transferidos para animais jovens em recria. Um experimento publicado em 2017 avaliou 108 machos Nelore de aproximadamente 24 meses recebendo dietas de milho inteiro com 0%, 5% ou 12% de feno picado. Naquelas condições específicas, os animais que receberam 5% ou 12% de volumoso apresentaram desempenho superior ao grupo sem volumoso em indicadores como peso final, ganho diário e eficiência alimentar.
O estudo não responde qual seria a melhor dieta para um bezerro em recria, mas mostra por que “retirar o volumoso” não pode ser tratado como solução automática. Formulação, fibra efetiva, fonte e processamento do amido, proteína, consumo, manejo de cocho e adaptação precisam ser considerados juntos.
A adaptação dos bovinos às dietas de confinamento também ganha importância quando há aumento expressivo na participação de concentrado, especialmente para preservar consumo e funcionamento ruminal durante a transição.
Como perceber que o desempenho está saindo do ponto
A balança continua sendo uma das ferramentas mais importantes da recria, mas o peso sozinho não conta toda a história. Um lote pode entregar GMD elevado e, ainda assim, caminhar para uma composição corporal diferente daquela planejada para o sistema.
Por isso, o acompanhamento deve combinar peso e GMD com condição corporal, consumo de matéria seca, eficiência alimentar quando mensurável, uniformidade do lote e projeção de peso para a próxima fase. Em sistemas com maior nível de tecnificação, avaliações por ultrassonografia podem acrescentar informações sobre área de olho de lombo e espessura de gordura.
Também não faz sentido formular a dieta no início da recria e simplesmente mantê-la até o final. Conforme o bovino ganha peso e avança em maturidade, sua exigência e a composição esperada do ganho mudam. O BR-CORTE foi desenvolvido justamente para ajustar exigências a diferentes categorias e condições produtivas.
Esse planejamento precisa continuar na entrada do confinamento. O tema também aparece no conteúdo sobre como o manejo do primeiro dia e a adaptação interferem no desempenho do gado confinado.
A conta certa começa na recria, mas termina no abate
A recria confinada pode ser uma ferramenta importante para atravessar períodos de menor disponibilidade de pastagem, acelerar a produção e organizar melhor o uso da área. O próprio BeefDay 2026 incluiu a estratégia entre suas estações técnicas, ao lado de temas como recria de alto desempenho, manejo nutricional e terminação.
O cuidado está em não transformar o GMD em objetivo isolado. O melhor resultado não é necessariamente o animal que ganhou mais peso durante alguns meses, mas aquele que atravessa recria e terminação dentro da estratégia de custo, idade, peso e acabamento definida para a fazenda.
É nesse ponto que o “boi bolinha” se torna um alerta útil. Mais do que condenar dietas energéticas, o termo chama atenção para um erro de planejamento: fornecer nutrientes sem relacionar o desempenho de hoje com o animal que se pretende entregar amanhã.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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