Confinamento eficaz em 10 passos

Confinamento eficaz em 10 passos

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Foto: CMA Confinamento Monte Alegre

Cuidar da nutrição é importante, mas os investimentos terão melhor resultado se a sanidade do rebanho estiver em dia

A principal preocupação dos confinadores costuma ser a nutrição dos bovinos, mas a sanidade merece o mesmo cuidado. Diferenças pequenas na conversão dos animais podem indicar problemas sanitários que causam prejuízos a longo prazo.

Uma pneumonia subclínica pode fazer com que o animal deixe de ganhar de 50 gramas  a 200 gramas por dia. Ao final de 90 dias, se três bois apresentarem o problema, a perda chega de uma a quarto arrobas. O criador preocupa-se em fazer uma boa compra e muitas vezes esquece dos cuidados necessários com sanidade para que o retorno seja o melhor possível.

A falta de cuidados nesta área é apenas uma das causas de estresse, agitação e sodomia nos animais confinados. Genética, manejo e nutrição também devem ser observados. Para evitar perdas, siga os 10 mandamentos do confinamento.

Bom manejo de chegada

Os animais chegam estressados, desidratados e enfraquecidos de longas viagens, este fato diminui a imunidade e predispõe a doenças. É comum observar lesões de casco decorrentes ao transporte o que predispõe a pododermatites no confinamento.

É preciso adotar práticas de Manejo Racional e Boas Práticas na vacinação e vermifugação. Em decorrência do estresse da viagem,  ocorre a queda de defesa imunológica do animal, fazendo com que ocorra multiplicação de Mannheimia (antiga Pasteurella) haemolytica, bactéria presente na “flora” oronasal de animais sadios e, com imunossupressão há intensa multiplicação, invasão e colonização pulmonar principalmente nos lóbulos craniais, levando a pneumonia nas primeiras semanas pós entrada;

Controle sanitário

Todos os animais devem ser vacinados contra clostridioses e vermifugados adequadamente. O confinamento deve ter uma farmácia veterinária básica para outras ocorrências infecciosas e para atender corretamente animais feridos;

Separar prioritariamente animais em lotes padronizados e de mesma origem

Os animais já se conhecem, portanto a liderança já está definida ou em equilibrio. Quando essa premissa é desrespeitada os animais levam cerca de 20 dias para reestabelecerem a liderança através do comportamento de competição (a competição é natural e não há como evitá-la, ela precisa ocorrer);

Um bovino é capaz de reconhecer e estabelecer interação com no máximo 150 outros bovinos, por isso lotes muito grandes e confinados acabam estabelecendo períodos de competição mais prolongados. Até que a liderança seja estabelecida, a maioria dos animais perde peso ou apresenta um ganho de peso deficiente neste período;

Respeitar a lotação no confinamento

O ideal é trabalhar com lotes de 12-15m²/boi, em confinamento descoberto e no coberto as lotações podem ser até 7m² – quanto menor a lotação, mais calmos os animais ficam; vale lembrar que os piquetes não podem ter formato retangular, com cocho na parte menor, pois o dominante só vai deixar os demais se aproximarem do cocho quando ele chegar primeiro. A frente deve ser sempre maior, pois é onde se localiza o cocho;

Bom manejo e controle nutricional

Trabalhar com leitura de cocho para manter uma pequena sobra (score 2 – com sobra de 5 a 10%, ou camada fina inferior a 5cm); a disponibilidade de cocho deve ser maior que 40cm lineares/cabeça (comprimento do cocho) e respeitar um período mínimo de adaptação para dieta (8 dias, mas o ideal seria acima de 21 dias). Observar a qualidade e conservação dos insumos (milho, resíduos agrícolas etc) para afastar a ocorrência de intoxicações e toxinfecções que causam poliencefalomalácea, botulismo e diarréias;

Animais provenientes de grandes distâncias, quando chegam e são colocados em piquetes já existentes, comem em grande quantidade, freqüência de fornecimento do trato, animais não adaptados, todos estes fatores podem apresentar quadros de acidose ruminal. Devido a intensa produção de ácidos, há lesão na parede ruminal gerando as ruminites. Tais lesões facilitam a entrada de bactéria na corrente sanguínea, chegando ao fígado e pulmões rapidamente, isso explica-se o surgimento de abscessos hepáticos e broncopneumonia;

Dados inéditos nacionais, mostram um fator de risco de 12,6 e 5,8 vezes das ruminites ocasionando abscesso hepático e pneumonia, respectivamente. As desordens digestivas são a segunda causa de transtornos encontrados no confinamento, ficando atrás apenas de quadros respiratórios.

Sombreamento

O sombreamento para o animal deve ser no fundo do curral e não sobre o cocho. Existem dois tipos de sombreamento: 1) o de cocho, suficiente para manter a qualidade do alimento e para proteger o cocho contra a chuva e 2) o para bem-estar animal que deve ser feito ao fundo do curral (sombrites). Grandes áreas de sombreamento sobre o cocho atraem os animais para descanso, aumentando o volume de matéria orgânica (urina e fezes), predispondo a pododermatites, além de estimular competições e sodomia;

Formação de poeira

Este evento pode ser evitado através da utilização de aspersores (existem vários modelos, sendo necessário a consulta de um técnico experiente). A poeira predispõe a enfermidades respiratórias. O excesso de água oriundas dos aspersores desregulados e bebedouros quebrados formam lama no curral; Mas não adianta ter aspersores apenas dentro dos piquetes, sendo que fora os caminhões transitem com altas velocidades levantando poeira, principalmente durante o fornecimento do trato;

Formação de lama

Este evento deve ser prevenido durante o dimensionamento do confinamento, utilizando graus de declividade de 5% a 8%, com boa compactação do chão, áreas de escoamento (laterais e fundo), bebedouros de boa qualidade (manutenção e dimensões adequadas), área de cocho calçada para evitar uma maior compactação (comum neste local).A lama aumenta o risco de pododermatites, acidentes e reduz significativamente o ganho de peso em alguns casos. Não deve ser feito o calçamento com pedras ou pedregulhos, pois podem predispor a quadros de pododermatites nos animais confinados;

Controle da Sodomia (Raça e Sexo)

Animais de origem taurina apresentam maior libido o que consequentemente aumenta a sodomia. Afastar o lote de fêmeas do lote de machos e a castração dos machos precisa ser bem avaliada economicamente (sua viabilidade depende do contexto econômico e atualmente está em desuso na terminação).Existem alguns produtos anti-sodomia/anti-estresse. O cromo e o lithium possuem excelente ação ansiolítica natural. Lembrando que para utilização de qualquer medicamento, deve-se sempre consultar um médico veterinário;

Animais doentes e animais sodomizados (que aceitam a “monta”)

Animais doentes são mais facilmente dominados por outros e sodomizados, por isso devem ser afastados do lote e levados para o curral de enfermaria. Os animais sodomizados devem ser retirados do lote. Os animais que realizam a “monta”, caso estejam em menor número, devem ser apartados. É mais fácil manejar um animal que monta em outros 10 animais do que retirar os 10 que por ele são montados.Na Austrália, desenvolveram uma cordoalha com choque próximo a linha de cocho, uma vez que o índice de monta é maior nessa linha – este método é punitivo e os animais aprendem a montar longe da cordoalha.

Modelo de Farmácia veterinária para confinamento ( todos os nomes são genéricos)

Deve conter:

  • 3 antibióticos de amplo espectro: norfloxacina, penicilinas, oxitetraciclinas para tratar as enfermidades infecciosas descritas acima;
  • 2 antiinflamatórios: sendo um não esteroidal (Meloxicam, Diclofenaco ou Dipirona) e um esteroidal (Dexametasona)
  • Vermífugos de baixo residual (14 dias de carência para o abate): ricobendazole (nome genérico)
  • Endectocidas: Ivermectina 1% ou doramectina 1% (para prevenir e tratar bicheiras de animais feridos e bichados)
  • Mata Bicheiras spray: para tratamentos tópicos de bicheiras
  • Antissépticos, bactericida e antifungicos de uso tópico: amônia quartenária e iodo (para limpar feridas e curetar cascos)
  • Reguladores digestivos: cálcio reforçado, membutona, acetil butíleno ou citrato
  • Soros energéticos e hidratantes: soro (Ativos importantes: dextrose, metionina, vitamina do complexo B e minerais).

Ingo Aron de Mello e Thales Vechiato são médicos veterinários via Portal DBO

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