História que circulou nas redes surgiu após comentário na TV sobre uma suposta articulação. Não há projeto atual ligado ao candidato; uma proposta semelhante, apresentada por outro político em 2007, foi rejeitada e arquivada. No campo, a devoção à padroeira atravessa gerações de agricultores, pecuaristas e famílias sertanejas
Uma história sobre a possível retirada do título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil ganhou força nas redes sociais na noite de quinta-feira (24). Publicações passaram a afirmar que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, estaria articulando a mudança. Não há evidência apresentada de um plano ou projeto atual do candidato com esse objetivo. Flávio negou a intenção em vídeo, classificando a história como falsa.
A repercussão começou após um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes, no programa Em Pauta, da GloboNews, sobre um suposto movimento de evangélicos junto a Flávio para retirar o título da padroeira. O canal fez uma correção posteriormente. O episódio ajuda a entender como uma afirmação ainda não demonstrada passou a circular como se fosse uma proposta concreta da campanha.
Também existe um fato antigo que pode causar confusão. Em 2007, o então deputado Professor Victório Galli apresentou o Projeto de Lei 2.623, que pretendia trocar, na legislação do feriado de 12 de outubro, a expressão “Padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto não era de Flávio Bolsonaro: foi rejeitado em comissão e arquivado pela Câmara dos Deputados em 22 de agosto de 2008. Sua ficha oficial continua indicando a situação “arquivada”.
A Lei nº 6.802, de 1980, continua em vigor e declara 12 de outubro feriado nacional em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, identificada no texto como Padroeira do Brasil. Há ainda o reconhecimento religioso: segundo o Santuário Nacional, a proclamação da padroeira pelo papa Pio XI ocorreu em 1930. São dimensões distintas de uma história que não pode ser reduzida a uma publicação eleitoral nas redes.
Uma devoção que nasceu do trabalho e chegou às fazendas
A ligação de Nossa Senhora Aparecida com o povo que vive de seu trabalho vem da própria origem da devoção. Em 1717, três pescadores encontraram uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição nas águas do Rio Paraíba do Sul. Segundo a tradição relatada pelo Santuário Nacional, após o encontro veio uma pesca abundante, episódio conhecido pelos fiéis como a pesca milagrosa.
Com o passar dos séculos, essa devoção se espalhou pelo interior do país. Nas comunidades rurais, a imagem passou a ocupar capelas, casas e altares em propriedades. Como já mostrou o CompreRural em reportagem sobre o papel da padroeira no agro, agricultores recorrem à fé para pedir proteção às famílias e às colheitas e para agradecer os frutos do trabalho. Missas e procissões também marcam, em diferentes regiões, momentos como o início da safra e a chegada das chuvas.
Essa relação ganha um sentido particular para quem depende dos ciclos da natureza. Entre o plantio e a colheita há meses de decisões e incertezas: a chuva pode atrasar, a seca pode comprometer a produção e uma praga pode ameaçar o resultado de uma safra inteira. Para muitos produtores, a oração é uma forma de encontrar esperança e força para continuar o trabalho diante dessas dificuldades.
Na pecuária, a devoção também acompanha o cuidado diário com os animais e as pessoas. A bênção de rebanhos, plantações e trabalhadores reúne famílias e vizinhos, preservando uma tradição que passa de uma geração à seguinte. Celebrações em pequenas comunidades criam momentos de encontro entre pessoas que, durante boa parte do ano, trabalham distantes umas das outras.
O 12 de outubro, portanto, tem para muitos brasileiros do campo um significado que vai além do feriado. É ocasião de agradecer pela produção, lembrar quem ensinou a cultivar a terra ou criar os animais e pedir proteção para o próximo ciclo. A fé faz parte da história dessas famílias e da maneira como enfrentam as alegrias e os riscos da vida rural.

Protetora do povo sertanejo
A presença de Nossa Senhora Aparecida também é forte na cultura sertaneja e nas festas de peão. Em outra reportagem do CompreRural, ela aparece como protetora do povo sertanejo e dos boiadeiros: há peões que guardam sua imagem no chapéu ou fazem uma oração antes de entrar na arena. Outros levam um santinho na carteira ou estampam a devoção na roupa e na fivela.
Esses gestos ajudam a explicar por que a padroeira é uma figura tão próxima de parte do Brasil rural. Sua imagem está presente tanto nas grandes romarias quanto nos objetos que acompanham a rotina de quem trabalha, viaja ou participa de celebrações pelo interior. É uma devoção vivida no cotidiano, transmitida entre famílias, amigos e comunidades.

A homenagem à padroeira também ganhou grandes dimensões em Aparecida (SP). Como mostrou o CompreRural, uma estátua de aço de 50 metros de altura foi inaugurada na cidade em 2023. O monumento é mais alto que o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, cuja altura total é de 38 metros.

Outra história registrada pelo portal ocorreu em 2022, na BR-267, em Bataguassu (MS). Uma carreta que transportava algodão pegou fogo, mas um painel com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, fixado à carroceria, permaneceu intacto, segundo o relato da ocorrência. O motorista não se feriu. O caso chamou a atenção dos devotos e se tornou mais uma história associada à padroeira nas estradas por onde circula a produção do agro.
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