Para além de um hiper alerta, o Super El Niño exige respostas que somente a floresta em pé fornece de maneira imediata

Há pelo menos quatro décadas a ciência vem alertando para os efeitos do aquecimento global e para a necessidade de reduzir emissões, conter o desmatamento e preservar os ecossistemas que regulam o clima.

A previsão de um possível super El Niño desperta, mais uma vez, preocupações com secas prolongadas, ondas de calor, incêndios florestais, impactos sobre a produção agrícola, o abastecimento de água e a geração de energia. Embora o fenômeno seja natural e recorrente, seus efeitos parecem cada vez mais intensos. E isso não acontece apenas por causa do El Niño, mas porque ele encontra um planeta mais quente e ecossistemas cada vez mais fragilizados.

Na verdade, há pelo menos quatro décadas a ciência vem alertando para os efeitos do aquecimento global e para a necessidade de reduzir emissões, conter o desmatamento e preservar os ecossistemas que regulam o clima. O desafio nunca foi compreender o problema, mas agir na velocidade que ele exige.

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Um prognóstico que o Brasil vivenciou nos últimos anos, depois de uma sucessão de eventos extremos que deixou claro que as mudanças climáticas já fazem parte da nossa realidade. Ainda assim, continuamos tratando esses episódios como exceções, quando deveriam servir para orientar uma mudança permanente na forma como protegemos nosso patrimônio natural.

Nesse contexto, a floresta em pé precisa deixar de ser vista apenas como um ativo ambiental. Ela é uma infraestrutura natural essencial para o equilíbrio climático e para a própria economia brasileira. As florestas regulam o ciclo da água por meio da evapotranspiração, alimentam os chamados rios voadores e ajudam a manter os regimes de chuva que abastecem a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e grande parte das regiões produtoras do país. Quando esse equilíbrio é rompido, os períodos de seca tendem a se intensificar, criando condições mais favoráveis para incêndios e acelerando um ciclo de degradação que se retroalimenta.

Portanto, os impactos vão muito além da floresta. A redução das chuvas diminui a vazão dos rios, situação agravada em muitos casos pelo assoreamento, compromete nascentes, afeta a biodiversidade, a pesca e o extrativismo.

No campo, por exemplo, a estiagem eleva os custos de produção, amplia a necessidade de irrigação e aumenta a pressão sobre os sistemas produtivos. Já nas cidades, o risco de crises hídricas volta ao centro das preocupações. Basta lembrar que o debate sobre a segurança dos reservatórios de grandes centros urbanos já existe há mais de uma década, sem que muitas das medidas estruturantes tenham saído do papel.

Esse cenário exige uma mudança de paradigma. Historicamente, concentramos nossos esforços no combate aos incêndios quando eles já estão em curso. Mas, em um contexto de eventos climáticos mais frequentes e severos, agir apenas na emergência deixou de ser suficiente. A prevenção precisa ocupar o centro da estratégia.

Hoje, ciência e tecnologia já permitem acompanhar continuamente áreas remotas, identificar alterações ambientais, monitorar indicadores da biodiversidade e ampliar a capacidade de resposta diante de situações de risco. Mais do que combater incêndios, é possível reduzir sua ocorrência e seus impactos por meio de informação qualificada e monitoramento permanente.

Essa mudança também tem reflexos econômicos importantes. Em um mundo que avança na valorização dos ativos ambientais, conservar florestas significa proteger recursos naturais, fortalecer cadeias produtivas e gerar dados confiáveis que dão suporte a instrumentos de financiamento da conservação e ao desenvolvimento de mercados ambientais com integridade e transparência.

Em outras palavras, a previsão de um super El Niño deve ser encarada como um alerta, não como uma sentença. Eventos climáticos extremos continuarão fazendo parte da realidade das próximas décadas. O que está ao nosso alcance é reduzir nossa vulnerabilidade diante deles.

O Brasil reúne condições únicas para liderar uma economia que reconheça o valor estratégico da natureza. Para isso, será necessário compreender que preservar florestas não é apenas uma agenda ambiental, mas uma decisão que envolve segurança hídrica, estabilidade climática, competitividade econômica e desenvolvimento.

Durante muito tempo discutimos quanto custava manter uma floresta em pé. Diante dos desafios que se desenham, talvez a pergunta mais relevante seja outra: quanto custará não mantê-la?

Por Christian Vosgrau;

*Fundador e CEO da Carbon Exchange, climatech brasileira que atua na prevenção, monitoramento e contenção de incêndios nos setores de silvicultura, agronegócio e manutenção de florestas em pé 24 horas por dia nos sete dias da semana.

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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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