Governo sul-coreano avança nas negociações para autorizar a importação da carne bovina brasileira, enquanto produtores da tradicional raça Hanwoo afirmam que a medida pode reduzir a competitividade da produção nacional e pressionam por mais proteção ao setor.
A possível abertura do mercado da Coreia do Sul para a carne bovina brasileira ganhou um novo capítulo nas últimas semanas. Enquanto os governos de Brasil e Coreia do Sul intensificam as negociações comerciais, entidades que representam os pecuaristas sul-coreanos passaram a criticar publicamente a iniciativa, alegando que a medida poderá afetar diretamente a rentabilidade dos produtores locais.
Segundo reportagem publicada pelo The Korea Times, a principal associação de criadores da raça Hanwoo — considerada a carne bovina premium da Coreia do Sul — manifestou preocupação com os impactos da entrada da proteína brasileira no país. As informações foram repercutidas pela imprensa especializada brasileira.
A reação evidencia que, embora o avanço das negociações seja visto como uma oportunidade estratégica para o Brasil ampliar seus mercados de exportação, a abertura ainda depende de etapas técnicas e enfrenta resistência política e econômica dentro da Coreia.
Carne brasileira entra no radar da Coreia do Sul
O tema ganhou força após o encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente sul-coreano Lee Jae Myung, realizado em Brasília, em 27 de julho.
Na ocasião, os dois governos firmaram cinco acordos de cooperação, e a possibilidade de importação de carne bovina brasileira esteve entre os assuntos discutidos nas negociações bilaterais.
Como parte desse processo, o governo sul-coreano anunciou que enviará especialistas em saúde animal e quarentena ao Brasil durante o mês de agosto para realizar inspeções na cadeia produtiva nacional e verificar se os requisitos sanitários exigidos pelo país asiático são atendidos.
Essa etapa é considerada essencial antes de qualquer autorização oficial para o ingresso da carne brasileira naquele mercado.
Pecuaristas da raça Hanwoo temem concorrência
A principal resistência vem dos produtores da raça Hanwoo, símbolo da pecuária sul-coreana e reconhecida pelo elevado marmoreio da carne, característica que a coloca entre as proteínas bovinas mais valorizadas da Ásia.
Em nota divulgada após o encontro entre os presidentes, a associação que representa os criadores afirmou que o governo estaria acelerando as negociações sem considerar integralmente os impactos econômicos para os produtores locais.
Segundo a entidade, a entrada da carne bovina brasileira poderá aumentar a concorrência no mercado doméstico, reduzindo a competitividade da produção nacional.
Além disso, os representantes do setor afirmam que os atuais mecanismos de apoio financeiro oferecidos pelo governo aos pecuaristas não seriam suficientes para compensar eventuais perdas provocadas por novos acordos comerciais.
Plano de cooperação prevê avaliações até 2029
As discussões fazem parte de um plano de ação firmado pelos dois países para o período de 2026 a 2029.
O acordo prevê a ampliação das relações econômicas e estabelece que a Coreia do Sul conduza avaliações técnicas sobre os riscos sanitários relacionados à importação da carne bovina brasileira antes de qualquer decisão definitiva.
Na prática, isso significa que ainda haverá diversas etapas regulatórias, auditorias e análises veterinárias antes de uma eventual abertura do mercado.
Oportunidade estratégica para o Brasil
Caso a Coreia do Sul aprove a entrada da carne bovina brasileira, o país passará a integrar um seleto grupo de destinos de alto valor agregado para as exportações nacionais.
O mercado sul-coreano possui consumidores com elevado poder aquisitivo e tradição no consumo de carne bovina de qualidade, fatores que podem representar novas oportunidades para frigoríficos exportadores brasileiros.
Para a pecuária nacional, a abertura de novos mercados é considerada estratégica por reduzir a dependência de poucos compradores internacionais, diversificar destinos e fortalecer a competitividade da carne brasileira no comércio global.
Ao mesmo tempo, o processo evidencia que negociações internacionais envolvendo produtos agropecuários vão muito além dos critérios sanitários. Questões econômicas, políticas e a pressão exercida pelos produtores locais frequentemente influenciam o ritmo e o desfecho das decisões comerciais.
Fonte: reportagem original do The Korea Times, repercutida pelo Compre Rural
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