Praga que causa bilhões em prejuízos pode ajudar a resolver um dos maiores problemas ambientais do planeta

Pesquisa da UFSCar revela que fungos presentes no intestino da lagarta Helicoverpa armigera conseguem degradar o isopor, um dos plásticos mais difíceis de reciclar e que pode permanecer por séculos no meio ambiente

Uma das pragas mais temidas do agronegócio brasileiro pode esconder uma solução inovadora para um dos maiores desafios ambientais da atualidade. A Helicoverpa armigera, lagarta responsável por grandes prejuízos em lavouras de soja, algodão, milho e outras culturas, abriga em seu intestino fungos capazes de degradar o poliestireno expandido (EPS), material popularmente conhecido como isopor.

A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em parceria com a Unesp de Rio Claro e publicada na revista científica BMC Microbiology. O estudo abre novas perspectivas para o desenvolvimento de tecnologias biológicas voltadas ao tratamento de resíduos plásticos, especialmente do isopor, considerado um dos materiais mais problemáticos para reciclagem.

Embora seja amplamente utilizado em embalagens, eletrodomésticos, construção civil e transporte de alimentos, o isopor representa um enorme desafio ambiental.

Produzido a partir do petróleo, o poliestireno expandido praticamente não se degrada naturalmente. Dependendo das condições ambientais, sua decomposição pode levar centenas de anos. Enquanto isso, o material se fragmenta em partículas cada vez menores, contribuindo para a formação de microplásticos que contaminam solos, rios e oceanos.

Outro fator que dificulta sua reciclagem é sua composição: cerca de 98% do volume do isopor é formado por ar, restando apenas aproximadamente 2% de plástico. Isso torna o transporte e o processamento economicamente pouco atrativos, fazendo com que grande parte do material descartado tenha como destino aterros sanitários ou, pior, o meio ambiente.

É justamente nesse cenário que a pesquisa brasileira ganha relevância.

Uma inimiga das lavouras que pode virar aliada da ciência

Conhecida pelos produtores rurais pelos severos ataques às culturas de soja, algodão e milho, a Helicoverpa armigera foi escolhida pelos pesquisadores justamente por sua capacidade de consumir materiais vegetais ricos em compostos complexos.

Os cientistas investigaram a microbiota intestinal da lagarta — o conjunto de fungos e bactérias que vivem naturalmente em seu sistema digestivo — para verificar se esses microrganismos poderiam atuar também sobre materiais sintéticos.

Os resultados surpreenderam.

Após analisar o DNA da microbiota intestinal das lagartas, os pesquisadores identificaram diferentes espécies de fungos que passaram a se destacar quando os insetos receberam alimentação contendo poliestireno.

Entre eles estão os gêneros Aspergillus, Talaromyces, Metarhizium e Trematosphaeria, indicando que a comunidade microbiana se adapta à presença do plástico.

Lagarta e pupa de H. armigera pertencentes ao grupo em alimentação restrita a poliestireno expandido (EPS) após 7 dias do início do experimento. (A) larva em fase de pupa próxima dentro de galeria no bloco de EPS e (B) pupa de H. armigera (imagens: LBM-UFSCar )
Lagarta e pupa de H. armigera pertencentes ao grupo em alimentação restrita a poliestireno expandido (EPS) após 7 dias do início do experimento. (A) larva em fase de pupa próxima dentro de galeria no bloco de EPS e (B) pupa de H. armigera (imagens: LBM-UFSCar )

Fungos conseguiram utilizar o isopor como alimento

Na etapa seguinte do estudo, os pesquisadores isolaram quatro fungos presentes no intestino das lagartas: uma espécie de Aspergillus, uma de Talaromyces e duas espécies de Penicillium.

Esses microrganismos foram cultivados durante 60 dias sobre películas extremamente finas de poliestireno.

As análises em microscopia eletrônica mostraram que os fungos cresceram sobre o material e provocaram alterações em sua superfície, evidenciando que utilizavam o polímero como fonte de carbono — ou seja, como alimento.

Segundo o professor Flavio Henrique Silva, do Departamento de Genética e Evolução da UFSCar e coordenador da pesquisa, dois dos fungos apresentaram desempenho especialmente promissor.

“Se o fungo foi capaz de crescer sobre esse filme, é porque ele utilizou essa película como fonte de carbono. Dois deles demonstraram maior eficiência nesse processo.”

Pesquisa brasileira é pioneira

De acordo com Silva, o trabalho representa um dos primeiros estudos realizados no Brasil sobre fungos da microbiota intestinal de insetos envolvidos especificamente na degradação do poliestireno.

Até então, a maior parte das pesquisas nessa área concentrava-se em bactérias encontradas no solo ou em aterros sanitários, além de estudos voltados para outros tipos de plástico, como polietileno e poliuretano.

O isopor permanecia relativamente negligenciado pela comunidade científica.

Outros insetos também surpreendem

A Helicoverpa armigera não é o único inseto estudado pelos pesquisadores.

Outro trabalho da equipe, publicado na revista Frontiers in Microbiology, mostrou que o bicudo-da-cana (Sphenophorus levis) abriga uma bactéria chamada Paenibacillus lautus, também capaz de modificar o poliestireno.

Além disso, os cientistas estudam o Zophobas morio, conhecido como tenébrio gigante, uma larva extremamente resistente que consegue sobreviver durante semanas alimentando-se apenas de isopor e outros polímeros.

Próximo passo é acelerar a degradação

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ainda buscam responder uma questão fundamental: os insetos realmente degradam completamente o plástico ou apenas o transformam em partículas menores?

Para isso, a equipe analisa atualmente as fezes das larvas para verificar se ocorre a quebra total das cadeias de carbono do polímero ou apenas sua fragmentação em micro e nanoplásticos.

O objetivo final é identificar os microrganismos mais eficientes, compreender os genes e enzimas envolvidos no processo e desenvolver uma coleção de fungos e bactérias capazes de acelerar a degradação do poliestireno.

Uma das ideias mais inovadoras do grupo é utilizar o intestino do tenébrio gigante como uma espécie de “biorreator vivo”, povoando-o com os microrganismos mais eficientes.

“A ideia é criar uma larva extremamente eficiente na degradação do isopor, funcionando como um verdadeiro ‘cavalo de Troia’ biológico”, explica Flavio Henrique Silva.

A pesquisa reforça como organismos considerados prejudiciais à agricultura podem, ao mesmo tempo, esconder soluções valiosas para problemas ambientais globais. O que hoje é visto como uma das maiores ameaças às lavouras brasileiras pode, no futuro, contribuir para reduzir o impacto de um dos resíduos plásticos mais persistentes produzidos pela sociedade moderna.

Com informações de Frances Jones da Agência FAPESP

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