Preço mundial dos alimentos atinge maior nível em quase quatro anos, aponta FAO

Índice chegou a 136,0 pontos em setembro, puxado por cereais, açúcar e óleos vegetais, enquanto problemas logísticos e condições climáticas voltaram a influenciar o mercado internacional

O preço mundial dos alimentos avançou em setembro e alcançou o nível mais elevado desde novembro de 2022. O Índice de Preços dos Alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) ficou em 136,0 pontos, crescimento de 1,5% em relação a agosto e de 5,8% na comparação com setembro de 2025. Mesmo após a alta, o indicador permanece 15,1% abaixo do pico histórico registrado em março de 2022.

O movimento veio principalmente dos produtos de origem vegetal. Cereais, óleos vegetais e açúcar ficaram mais caros no mês, enquanto o índice de carnes recuou e o de lácteos teve variação mínima. O levantamento acompanha as cotações internacionais de uma cesta de commodities alimentícias negociadas no mercado mundial. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Cereais puxam alta do preço mundial dos alimentos

Entre os grupos analisados pela FAO, os cereais apresentaram avanço expressivo. O índice chegou a 122,8 pontos em setembro, crescimento de 5,1% frente a agosto e de 17,2% em relação ao mesmo mês de 2025.

O trigo ficou 6,3% mais caro no mercado internacional e alcançou seu maior nível desde agosto de 2023. Entre os fatores apontados pela organização estão as dificuldades para o transporte de grãos na região do Mar Negro e o tempo seco em partes da América do Norte antes do plantio do trigo de inverno.

A pressão logística na região já vinha sendo acompanhada pelo mercado. Em setembro, o Compre Rural mostrou como o conflito no Mar Negro impulsionou os preços futuros do trigo, em meio às preocupações com o fluxo de embarques e a disponibilidade do cereal no comércio internacional.

O milho também avançou. As cotações internacionais subiram 5,6% no mês, atingindo o maior patamar em mais de três anos. A FAO relaciona o movimento às perspectivas de rendimento abaixo do esperado nos Estados Unidos, à menor disponibilidade brasileira para exportação e aos obstáculos enfrentados pelo comércio no Mar Negro.

Sorgo e cevada acompanharam a tendência, com altas mensais de 13,7% e 3,9%, respectivamente. Já o índice internacional do arroz avançou 1,4%, apoiado por preocupações climáticas e por uma oferta sazonalmente mais restrita.

Açúcar sobe 6,1% em apenas um mês

O açúcar apresentou uma das maiores valorizações entre os grupos monitorados. O índice da FAO alcançou 114,0 pontos, crescimento de 6,1% em setembro e de 14,7% em 12 meses. Foi a terceira alta mensal consecutiva e o maior nível desde abril de 2025.

A principal preocupação está na disponibilidade global para a temporada 2026/27. A organização aponta perspectivas de produção menor na Tailândia, chuvas abaixo da média e fortalecimento do El Niño na Índia, redução da área cultivada com beterraba açucareira na União Europeia e dificuldades climáticas no Brasil.

No Centro-Sul brasileiro, chuvas fortes prejudicaram o ritmo da colheita de cana e acrescentaram pressão às cotações mundiais. Dados divulgados recentemente também mostraram que a produção de açúcar do Centro-Sul recuou 41,6% na primeira quinzena de setembro, na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Óleos vegetais avançam com pressão sobre o óleo de palma

O Índice de Preços dos Óleos Vegetais ficou em 198,6 pontos, alta de 0,9% frente a agosto e de 18,3% em relação a setembro do ano passado.

O principal impulso veio do óleo de palma, que registrou o quarto mês consecutivo de valorização diante da demanda firme por importações e do receio de que o tempo seco prejudique a produção no Sudeste Asiático.

Em sentido contrário, o óleo de girassol recuou pelo terceiro mês seguido, enquanto as cotações internacionais dos óleos de soja e canola permaneceram praticamente estáveis.

Carne recua, mas bovina brasileira encontra demanda nos EUA

O Índice de Preços da Carne caiu 1,1% em setembro, para 127,9 pontos, ficando próximo do nível registrado um ano antes. A retração ocorreu principalmente nas carnes de frango e suína, diante de uma maior disponibilidade exportável entre grandes fornecedores.

A carne bovina teve comportamento diferente dependendo da origem. Na Austrália, os preços de exportação recuaram em meio à maior concorrência internacional. No Brasil, as cotações aumentaram, apoiadas pela demanda mais forte dos Estados Unidos.

Nos lácteos, a mudança foi pequena. O índice ficou em 119,1 pontos, queda de apenas 0,1% no mês e de 19,1% em relação a setembro de 2025. A baixa dos preços do queijo foi quase compensada pela valorização do leite em pó, enquanto a manteiga apresentou pouca alteração.

Produção mundial de cereais cai, mas segue em nível elevado

Junto com o índice de preços, a FAO atualizou suas projeções para o mercado mundial de cereais. A produção global em 2026 é estimada em 2,979 bilhões de toneladas, recuo de 2,1% frente a 2025. Apesar da queda, o volume ainda representaria a segunda maior colheita já registrada, atrás apenas do resultado do ano anterior.

A produção mundial de trigo é projetada em 813,9 milhões de toneladas, após melhora das condições climáticas na Austrália. Para os grãos grossos, grupo que inclui milho, cevada e sorgo, a estimativa ficou em 1,612 bilhão de toneladas, enquanto o arroz deve alcançar 552,5 milhões de toneladas.

O comércio internacional, por outro lado, deve perder força. A FAO projeta 505,8 milhões de toneladas de cereais negociadas globalmente, redução de 3,5% em relação ao recorde de 2025/26. As dificuldades nas rotas do Mar Negro e a capacidade limitada de alternativas logísticas estão entre os fatores que afetam principalmente trigo e milho.

Alta internacional não significa aumento igual no supermercado brasileiro

O Índice de Preços dos Alimentos da FAO não mede diretamente os preços pagos pelo consumidor brasileiro. O indicador acompanha a evolução das cotações internacionais de cinco grandes grupos de commodities alimentícias, ponderadas pela participação de cada grupo no comércio mundial.

Por isso, uma valorização internacional não é automaticamente reproduzida na mesma intensidade no varejo brasileiro. Câmbio, oferta doméstica, custos de transporte, estoques, safra nacional e condições de comercialização também interferem no preço final dos alimentos.

Ainda assim, o avanço simultâneo de cereais, açúcar e óleos vegetais mostra que fatores climáticos e logísticos voltaram a ganhar peso na formação dos preços globais. A combinação é especialmente relevante para países dependentes de importações e para cadeias produtivas expostas aos custos de grãos, combustíveis e transporte.

A alta de setembro dá continuidade ao movimento observado no mês anterior. Em agosto, o Compre Rural já havia noticiado que o índice de preços dos alimentos da FAO voltou a subir com o clima no radar da oferta. Na divulgação mais recente, entretanto, a FAO revisou a base de agosto, razão pela qual as comparações atuais devem considerar o valor atualizado pela organização.

A próxima divulgação mensal do Índice de Preços dos Alimentos está prevista pela FAO para 6 de novembro de 2026. Até lá, clima, condições das safras e funcionamento das principais rotas de comércio continuarão entre os principais pontos de atenção do mercado internacional.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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