A certificação da lã ajudou propriedades gaúchas a elevar em até 65,1% a receita por animal e melhorar a negociação dos lotes
A certificação da lã vem se consolidando como uma ferramenta capaz de ampliar a rentabilidade da ovinocultura no Rio Grande do Sul. Informações divulgadas durante o 3º Dia da Lã, em Sant’Ana do Livramento, mostram que propriedades participantes alcançaram, em 2024, crescimento de até 65,1% na receita obtida por animal.
O resultado está ligado ao conhecimento mais detalhado da fibra produzida. Com informações sobre espessura, rendimento após a lavagem e composição dos lotes, o criador consegue apresentar parâmetros objetivos aos compradores e negociar em condições mais favoráveis.
Qualidade comprovada melhora o poder de negociação
O programa é coordenado pela Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco) e tem como finalidade avaliar as características da produção antes da venda.
Esse processo permite separar materiais com padrões diferentes, evitar que fibras superiores sejam comercializadas pelo mesmo valor das demais e direcionar cada lote ao mercado mais adequado.
De acordo com o zootecnista Leonardo Santos Farion, da Arco, muitos criadores ainda desconhecem atributos importantes do próprio produto. Para o especialista, a análise técnica possibilita agregar valor ao rebanho existente, sem depender exclusivamente do aumento do número de animais.
Certificação da lã amplia retorno nas propriedades
Os dados apresentados no encontro indicam que o valor líquido recebido pelos participantes cresceu 52,8% em 2024, na comparação com o período anterior.
O avanço na renda por ovelha foi ainda maior, chegando a 65,1%. Os números mostram que a classificação não representa apenas um controle de qualidade, mas também uma estratégia comercial para melhorar o resultado econômico da atividade.
Ao apresentar informações confiáveis sobre a mercadoria, o pecuarista reduz a subjetividade da negociação e passa a ter mais argumentos para justificar o preço solicitado.
Espessura da fibra interfere diretamente na cotação
Um dos principais critérios utilizados na avaliação é a micronagem, medida que indica a espessura do fio. Materiais mais finos costumam alcançar valores superiores devido à maior procura da indústria têxtil.
Durante o evento, foram divulgadas referências que variaram de US$ 2,40 por quilo para fibras de 31 micra a US$ 10 por quilo para materiais de 18 micra, antes da dedução das despesas comerciais.
A diferença evidencia que o faturamento não depende somente da quantidade entregue. Uniformidade, limpeza, acondicionamento e rendimento industrial também influenciam a remuneração final.
Mais de 570 mil quilos foram avaliados
Em quatro safras, a iniciativa analisou aproximadamente 571,3 mil quilos. O maior volume foi registrado no ciclo 2023/24, com 190,6 mil quilos.
Na temporada 2022/23, foram contabilizados 120,1 mil quilos. Depois, o total chegou a 139,1 mil em 2024/25 e a 121,5 mil quilos em 2025/26, conforme levantamento apresentado pela Arco.
Embora expressivo, o resultado ainda representa uma pequena parte do potencial estadual. O Rio Grande do Sul concentra mais de 90% da produção brasileira com finalidade têxtil, segundo a entidade.
Mercado internacional indica reação da demanda
A recuperação das compras externas também pode favorecer a atividade. Após um período marcado por pandemia, inflação, juros elevados e conflitos internacionais, o setor começa a observar redução dos estoques e retomada do interesse pela matéria-prima.
Segundo Santiago Onande, presidente da União de Consignatários e Rematadores de Lã do Uruguai, a diminuição dos rebanhos em importantes países fornecedores contribuiu para fortalecer a procura em 2026.
Nesse cenário, lotes padronizados e acompanhados de informações técnicas podem encontrar melhores oportunidades tanto no Brasil quanto no exterior.
Setor busca ampliar adesão e preservar raças laneiras
A expansão do programa depende da participação de novos criadores e da qualificação da mão de obra envolvida no manejo, na seleção e no acondicionamento da fibra.
Outra frente é a atualização do Manual de Normas de Acondicionamento, elaborado em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). O material reúne orientações para preservar as características do produto até sua chegada ao comprador.
A redução das raças especializadas também preocupa as lideranças do segmento. O presidente da Arco, Edemundo Gressler, alertou que o aumento dos cruzamentos voltados exclusivamente à produção de carne pode diminuir a disponibilidade de materiais com qualidade têxtil no futuro.
Os resultados apresentados em Sant’Ana do Livramento indicam que a organização dos lotes, o domínio das características produtivas e a profissionalização da venda podem tornar a ovinocultura mais competitiva. Mais do que produzir em maior quantidade, o desafio é demonstrar com precisão o valor do que sai da propriedade.
Com informações da assessoria de imprensa.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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