‘Quando nós falamos da China, mostramos os números’, diz Ministra

‘Quando nós falamos da China, mostramos os números’, diz Ministra

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Montagem: Compre Rural

Puxados por soja em grão e carnes, os embarques nacionais do setor à China renderam US$ 27,1 bilhões em 2019. Exportações não vão parar!

Destino de 33% das exportações brasileiras do agronegócio em 2019, a China continua no foco do Ministério da Agricultura apesar das declarações de integrantes da alta cúpula do Executivo e de membros do Congresso contra o país asiático.

A ministra Tereza Cristina não acredita que os chineses farão retaliações por causa dessas cotoveladas gratuitas, e disse que são “problemas operacionais” causados pela pandemia que impediram Pequim a dar sinal verde para novos frigoríficos do Brasil venderem seus produtos para aquele mercado. Puxados por soja em grão e carnes, os embarques nacionais do setor à China renderam US$ 27,1 bilhões em 2019.

Nesse contexto, Tereza Cristina e o secretário de Comércio e Relações Internacionais do ministério, Orlando Ribeiro, não consideram necessário “defender” a relação comercial com o gigante asiático. “Quando falamos da China, mostramos os números”, afirmou a ministra ao Valor. “Não há um viés pró-China aqui. Mas não podemos tratar mal quem compra um terço de tudo o que exportamos”, completou Ribeiro.

Apesar da expectativa dos frigoríficos sobre novas habilitações chinesas, não há uma data definida para tal. No momento, oito unidades aguardam a aprovação final do governo chinês: seis de carne bovina, uma de aves e outra de suínos. E é a normalização dos serviços na Administração Geral de Alfândegas da China (GACC), que ainda estão lentos, que vai ditar o ritmo das habilitações. “Até semana retrasada, estava tudo fechado na China, e o GACC ainda não está recebendo ninguém para reuniões”, explicou a ministra.

Desde o começo da gestão de Tereza Cristina no Ministério da Agricultura, foram abertos seis novos mercados na China para produtos brasileiros – melão, farelo de algodão, carne bovina termoprocessada, miúdos suínos, lácteos e pescados. No início de abril, pouco depois que o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República, insinuou que o novo coronavírus havia sido criado na China, e que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, ironizou o sotaque dos chineses, Pequim reabilitou uma planta da BRF em Dourados (MS).

A importância do “casamento inevitável” com os chineses, citado esta semana pelo vice-presidente da República, Hamilton Mourão, continuou a ser refletida na balança comercial brasileira desses primeiros meses de 2020. “Até a semana passada, o Brasil estava exportando para a Ásia – e claro que a China é grande parte disso – mais do que para Estados Unidos, União Europeia e Argentina juntos”, disse a ministra.

Em 2019, a Ásia como um todo absorveu 52% das exportações do agronegócio brasileiro. “É natural, é muita boca para alimentar. Os países asiáticos são importadores natos de alimentos, e o Brasil é um exportador nato”, afirmou Tereza Cristina.

O percentual deve se repetir este ano, e o foco começa a se concentrar um pouco mais na Índia, para onde o Brasil já pode exportar carne de aves e gergelim e quer ampliar a pauta.

“É um país importantíssimo, mas que está numa fase mais atrasada que a China. É logística, cadeia de refrigerados, cultura. Imagina a hora que a gente conseguir [acessar esse mercado]. Mas já conseguimos colocar o ‘pezinho’ lá com o frango”.

Um dos pontos de atenção é a área de pulses. “A Índia anunciou uma política para colocar pulses para 120 milhões de indianos. Olha a oportunidade que nós temos para produção de grão de bico, lentilha, ervilha, feijão-caupi”, disse a ministra. Em 2019, o Brasil exportou o equivalente a US$ 671 milhões para a Índia, com destaque para óleo de soja e açúcar.

Diversificar a pauta de exportações, aliás, é um objetivo de Tereza Cristina desde o início de sua gestão à frente do ministério. Foram 23 novos mercados abertos nos quatro primeiros meses deste ano, considerando a reabertura dos Estados Unidos para a carne bovina in natura do Brasil – em todo o ano passado, foram 25.

No total, foram 48 mercados abertos em 21 países diferentes desde janeiro de 2019. A mais recente abertura foi o mercado do Egito para a maçã, confirmada na sexta-feira. O país também permitiu o envio das carnes de frango e bovina e de miúdos bovinos em março.

“Todos os mercados que se abrem são importantes. Temos que diversificar os produtos e os países. O tamanho da nossa agricultura não nos permite ficar fechados, temos muita coisa para prospectar”, avaliou Tereza Cristina. Mas apenas a abertura de mercados não resolve, afirma o secretário Orlando Ribeiro.

“O exportador é muito acomodado. Ele não quer tentar novos mercados. A ministra deu a instrução para pegar o exportador pela mão e levar para fazer exportação, caso contrário não adianta esse trabalho”, disse ele durante a entrevista.

A retomada ainda lenta da economia da China e de alguns países da Europa, como a Alemanha, poderá fortalecer as exportações de algumas cadeias produtivas brasileiras. Ao mesmo tempo que prega cautela, a ministra reforça que o país poderá ser ainda mais protagonista no mercado mundial de alimentos. “Vivemos com uma grande interrogação do que vai ser, como vão ser as relações comerciais. Mas comida todo mundo precisa, e o Brasil tem que aproveitar esse momento para mostrar a qualidade e a sanidade dos seus produtos”, concluiu Tereza Cristina.

Fonte: Valor Econômico.

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