Mercado do boi gordo segue firme, contratos futuros indicam preços sustentados no último trimestre e especialistas afirmam que eficiência na compra da reposição será decisiva para transformar expectativa em lucro.
A pergunta voltou a ganhar força entre os pecuaristas brasileiros: vale a pena comprar boi magro agora e terminar os animais em confinamento para vender em novembro?
Os fundamentos do mercado indicam um cenário mais favorável do que o observado no início do ano. A oferta de animais terminados continua relativamente ajustada, o mercado futuro da B3 trabalha com expectativa de arrobas valorizadas no último trimestre e as exportações seguem dando sustentação à demanda brasileira. Ainda assim, os especialistas são unânimes: o lucro não será consequência apenas da alta da arroba, mas da eficiência da operação dentro da fazenda.
Mercado cria ambiente positivo para o confinamento
Segundo análise da Scot Consultoria, o cenário para o confinamento em 2026 permanece favorável, sustentado principalmente pela firmeza do mercado do boi gordo e pela expectativa de custos alimentares relativamente controlados, impulsionados pela boa disponibilidade de grãos.
Em entrevista ao Canal do Boi, Gustavo Duprat, analista da Scot Consultoria, destacou que o momento inspira confiança, mas exige planejamento.
“O cenário para o confinamento em 2026 segue favorável, sustentado pela firmeza do mercado do boi gordo e pela perspectiva de custos alimentares ainda administráveis.”
O analista lembra, entretanto, que a reposição continua sendo o principal desafio econômico da atividade.
“A aquisição do boi magro continua sendo o item de maior peso no custo do confinamento, podendo representar até 75% do custo total.”
Na prática, isso significa que uma compra mal realizada pode comprometer toda a rentabilidade da operação, mesmo diante de uma arroba valorizada.
Boi magro continua sendo o maior custo do confinamento
A alta da reposição é hoje o principal ponto de atenção dos confinadores.
O projeto Confina Brasil, conduzido pela Scot Consultoria, mostra que os preços do bezerro atingiram máximas históricas nominais, puxando para cima também as cotações do garrote e do boi magro.
Mesmo assim, o otimismo permanece elevado.
Segundo o levantamento, 87,5% dos confinadores entrevistados pretendem manter ou ampliar o número de animais confinados em 2026, refletindo a confiança do setor na atividade.
Felipe Fabbri: alimentação pode ser a chave da margem
Para o zootecnista Felipe Fabbri, coordenador de inteligência de mercado da Scot Consultoria, o comportamento dos custos da alimentação pode ser um diferencial importante neste ciclo.
Em análise recente, Fabbri afirma que, mesmo com a reposição em patamares elevados, o confinador pode encontrar boas oportunidades caso consiga controlar os custos da dieta.
“Mesmo com o boi magro em patamares elevados, a combinação entre mercado futuro firme e custos mais favoráveis de alimentação pode garantir margens atrativas ao confinador em 2026.”
Segundo o especialista, a expectativa de uma safra robusta de milho reduz o risco de disparada dos custos da alimentação, aumentando a previsibilidade econômica das operações de confinamento.
O lucro começa antes do primeiro trato
Embora muitos produtores concentrem a atenção no preço futuro da arroba, especialistas afirmam que a rentabilidade começa muito antes da venda.
A escolha correta do boi magro, o peso de entrada, a genética, a conversão alimentar, o ganho médio diário e o custo financeiro da operação podem fazer dois confinamentos venderem pelo mesmo preço e obterem resultados completamente diferentes.
Estudos econômicos da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro) mostram que, mesmo em cenários de aumento dos custos, operações bem planejadas conseguiram apresentar resultados positivos graças ao controle da reposição, da alimentação e ao uso de ferramentas de proteção de preços.
Mercado futuro ainda favorece quem faz gestão de risco
Outro fator observado pelos analistas é a estrutura do mercado futuro.
As expectativas para o segundo semestre continuam indicando um ambiente relativamente favorável para a comercialização de animais terminados, permitindo ao pecuarista utilizar instrumentos de hedge para proteger parte da margem antes mesmo da venda.
Na avaliação da Scot Consultoria, o uso dessas ferramentas reduz a exposição à volatilidade e aumenta a previsibilidade financeira da atividade, principalmente em operações de maior escala.
Vale a pena confinar hoje?
A resposta dos especialistas é positiva, mas com ressalvas.
Os fundamentos continuam favorecendo o confinamento: mercado do boi gordo firme, exportações sustentadas, expectativa de alimentação sem grandes pressões e confiança elevada entre os próprios confinadores.
Por outro lado, o elevado custo da reposição exige planejamento rigoroso.
Mais do que apostar na valorização da arroba, o pecuarista precisará comprar bem, controlar os custos da dieta, acompanhar diariamente o desempenho do lote e, sempre que possível, utilizar mecanismos de proteção de preços.
Em outras palavras, quem apenas confinar pode não obter o resultado esperado; quem fizer gestão eficiente da operação terá muito mais chances de transformar o confinamento iniciado agora em lucro na comercialização de novembro.
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