Estudo realizado nos Estados Unidos com dez cavalos identificou avanços na regeneração da pele e na prevenção do excesso de tecido de granulação; tecnologia ainda está em fase experimental e pode representar uma nova alternativa para lesões de difícil cicatrização.
Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Estadual de Ohio (Ohio State University), nos Estados Unidos, está abrindo uma nova perspectiva para um dos problemas mais persistentes da medicina veterinária equina: a cicatrização de feridas, especialmente aquelas localizadas nas extremidades dos membros dos cavalos. Utilizando um peptídeo desenvolvido em laboratório, os pesquisadores conseguiram acelerar a formação de uma nova camada de pele e reduzir uma das complicações que mais dificultam a recuperação desses animais.
Os resultados ganharam destaque em uma publicação da universidade divulgada em 28 de outubro de 2026, após experimentos controlados e a aplicação da tecnologia em casos clínicos de feridas crônicas. Em um dos episódios relatados, um cavalo que enfrentava uma lesão havia mais de um ano apresentou evolução favorável depois de receber o tratamento experimental.
O avanço é relevante porque ferimentos nas pernas dos equinos podem exigir meses de acompanhamento, curativos frequentes, intervenções cirúrgicas e afastamento das atividades. Em propriedades rurais, centros de treinamento, haras e estruturas de criação, essas condições também representam despesas veterinárias e prejuízos decorrentes da indisponibilidade dos animais.
Apesar dos resultados promissores, o tratamento ainda não está disponível comercialmente. Os próprios pesquisadores ressaltam que são necessárias novas etapas de investigação antes de sua utilização rotineira nas clínicas veterinárias.
Por que algumas feridas em cavalos demoram tanto para cicatrizar?
A cicatrização nos equinos apresenta particularidades anatômicas e fisiológicas que tornam determinados ferimentos especialmente difíceis de tratar.
Nas regiões inferiores dos membros, existe menor quantidade de pele disponível para cobrir a lesão, além de tensão sobre os tecidos, movimentação constante e características circulatórias que podem comprometer a reparação.
Uma das complicações mais conhecidas é a formação de tecido de granulação exuberante, frequentemente chamado de carne esponjosa ou proud flesh.
Em condições normais, o tecido de granulação participa da cicatrização, preenchendo a região lesionada e permitindo o crescimento de novas células. O problema surge quando essa estrutura cresce excessivamente e ultrapassa o nível da pele saudável.
Nesse estágio, o próprio tecido que deveria auxiliar na recuperação pode funcionar como uma barreira para o fechamento da ferida.
Uma revisão científica publicada em 2026 por pesquisadores vinculados a instituições do Ceará, após analisar 27 estudos sobre o tema, identificou fatores associados à complicação, incluindo inflamação persistente, edema, baixa oxigenação dos tecidos, contaminação bacteriana e movimentação da região lesionada.
A dificuldade explica por que algumas feridas continuam abertas mesmo quando os animais recebem cuidados adequados.
Como funciona o tratamento experimental com peptídeos?
A tecnologia desenvolvida em Ohio utiliza uma molécula denominada EFNA3-MAP, um peptídeo sintético projetado para estimular mecanismos celulares envolvidos na regeneração da pele.
Peptídeos são moléculas formadas por cadeias de aminoácidos. Dependendo de sua estrutura, podem desempenhar diferentes funções biológicas, inclusive atuar na comunicação entre células.
Nesse caso, o objetivo dos cientistas foi estimular uma via de sinalização celular conhecida como ephrin-Eph, envolvida na proliferação e movimentação de células epiteliais.
O processo é chamado de reepitelização e representa uma etapa fundamental da cicatrização: é quando novas células avançam sobre a superfície lesionada, contribuindo para o fechamento da ferida.
A estratégia dos pesquisadores é acelerar esse mecanismo antes que o tecido de granulação cresça excessivamente.
Na investigação, o peptídeo foi incorporado a um hidrogel, utilizado como veículo para sua aplicação sobre as feridas.
A diferença em relação a muitos tratamentos convencionais está justamente no alvo terapêutico. Em vez de atuar apenas sobre as consequências da inflamação ou remover o tecido excedente, a tecnologia procura favorecer uma etapa essencial da recuperação cutânea.
Isso não significa, entretanto, que o produto substitua procedimentos como limpeza, controle de infecções, desbridamento ou avaliação das estruturas afetadas.
Estudo com dez cavalos apresentou resultados promissores
Os pesquisadores avaliaram o peptídeo em um experimento envolvendo dez cavalos, comparando a recuperação de feridas cutâneas de espessura total nos membros inferiores.
Parte das lesões recebeu o hidrogel contendo o peptídeo EFNA3-MAP, enquanto outras foram tratadas com o hidrogel sem o princípio ativo, utilizado como controle.
Os resultados, apresentados em trabalho científico publicado em julho de 2026 no The Journal of Immunology, apontaram que o tratamento experimental promoveu:
- Maior proliferação e migração de queratinócitos, células responsáveis pela formação da camada mais externa da pele.
- Aceleração da reepitelização, favorecendo o fechamento da superfície lesionada.
- Menor formação de tecido de granulação exuberante, uma das principais complicações das feridas equinas.
As observações foram sustentadas por avaliações macroscópicas e histológicas dos tecidos.
A equipe também relatou resultados favoráveis em estudos complementares com diferentes concentrações do peptídeo.
Entretanto, há uma distinção importante: o estudo apresentado envolveu apenas dez animais e não estabeleceu, nos dados divulgados, um percentual universal de redução do tempo de cicatrização.
Embora os resultados sejam relevantes para o desenvolvimento da tecnologia, ainda não permitem prever com segurança o desempenho do produto em todos os tipos de ferida, diferentes condições sanitárias ou populações maiores de cavalos.
Cavalo com ferida crônica havia mais de um ano apresentou recuperação
Um dos casos que chamaram a atenção dos pesquisadores foi o de Luke, um cavalo puro-sangue de 17 anos, cuja história foi apresentada pela Universidade Estadual de Ohio.
O animal desenvolveu uma ferida na região inferior de uma das pernas por volta de novembro de 2024. O problema persistiu durante mais de um ano, apesar das sucessivas tentativas de tratamento.
Segundo o relato institucional, foram realizados exames de imagem, procedimentos para remoção de tecidos comprometidos, terapia com laser, bandagens compressivas e aplicações de diferentes produtos utilizados no tratamento de feridas.
Em determinado momento, uma reação adversa a uma das intervenções agravou o quadro.
Posteriormente, durante o atendimento especializado no centro veterinário da universidade, a cirurgiã equina Hilary Rice identificou uma região necrosada no tendão extensor do animal.
Diante da persistência da lesão, Luke foi incluído em um protocolo de tratamento experimental com o novo peptídeo.
A evolução foi acompanhada por veterinários, incluindo a especialista Caitlin Moreno, que participou dos trabalhos.
Gradualmente, a área lesionada começou a diminuir. Os profissionais observaram a formação de tecido saudável e o avanço da pele sobre a região anteriormente exposta.
O cavalo conseguiu retornar à propriedade de sua tutora, Brittany Craig, e iniciou a retomada progressiva de sua rotina.
Para os pesquisadores, o caso reforçou o potencial observado nos experimentos controlados, especialmente em feridas que haviam apresentado resistência às abordagens convencionais.
No entanto, a recuperação de um paciente, isoladamente, não comprova a eficácia do tratamento para todos os cavalos. O acompanhamento clínico, os cuidados associados e as características individuais da lesão também precisam ser considerados.
Desenvolvimento começou em pesquisas de medicina humana
Outro aspecto relevante da descoberta está na origem do projeto.
A tecnologia não nasceu exclusivamente da medicina veterinária. O trabalho teve início em pesquisas relacionadas à saúde humana conduzidas pelo médico e veterinário Thomas L. Cherpes, em colaboração com o pesquisador Rodolfo D. Vicetti Miguel, ambos vinculados à Ohio State University.
Inicialmente, a equipe investigava mecanismos de crescimento e manutenção de tecidos epiteliais, inclusive em estudos relacionados à saúde de mulheres após a menopausa.
Ao identificar o potencial de determinadas vias de sinalização celular, os pesquisadores passaram a explorar outras possibilidades de aplicação.
Os cavalos surgiram como um modelo particularmente interessante porque as feridas nas extremidades de seus membros oferecem um desafio significativo à regeneração da pele.
A pesquisa passou então a envolver especialistas em cirurgia equina e medicina humana.
Em 2025, o projeto recebeu apoio de um programa de aceleração tecnológica da universidade, voltado à avaliação do potencial de comercialização de inovações científicas.
Os pesquisadores também consideram a possibilidade de aplicações futuras na medicina humana, já que mecanismos de reepitelização são compartilhados entre diferentes mamíferos.
Por enquanto, entretanto, os resultados obtidos em cavalos não demonstram eficácia ou segurança do tratamento em pessoas.
O que a descoberta pode representar para a equinocultura brasileira?
O desenvolvimento dessa tecnologia chama atenção em um país com um dos maiores plantéis de cavalos do mundo.
Segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal de 2025, do IBGE, o Brasil possuía aproximadamente 5,56 milhões de equinos, com Minas Gerais ocupando a liderança nacional em número de animais.
A população equina brasileira está distribuída entre atividades agropecuárias, reprodução, competições esportivas, trabalho rural, lazer e prestação de serviços.
Nesse contexto, problemas relacionados à cicatrização têm consequências que ultrapassam o atendimento clínico.
Um cavalo utilizado na lida com bovinos, por exemplo, pode precisar permanecer afastado do trabalho durante o tratamento de uma lesão nos membros. Já em animais destinados a competições, a recuperação prolongada pode comprometer treinamentos, calendários esportivos e desempenho.
Em haras e centros de reprodução, feridas extensas também exigem atenção especial para evitar infecções, limitações locomotoras e sequelas.
Se a nova tecnologia demonstrar eficácia em pesquisas mais amplas, poderá contribuir para três aspectos importantes da atividade: redução do tempo de recuperação, melhoria do bem-estar animal e possível diminuição dos custos associados a tratamentos prolongados.
Mas esses benefícios econômicos ainda são potenciais. Não existem, nos resultados apresentados, dados suficientes para calcular a economia por animal ou estabelecer quanto custaria uma aplicação comercial do peptídeo.
Outro ponto que merece atenção é a diversidade das condições encontradas no Brasil.
Lesões traumáticas podem apresentar características muito diferentes de feridas associadas a doenças infecciosas ou parasitárias.
Problemas como a habronemose cutânea e a pitiose equina, por exemplo, também podem provocar ferimentos persistentes, mas exigem diagnóstico e tratamento direcionados à sua causa. O Compre Rural já abordou essas condições em reportagem sobre os riscos das feridas em cavalos e as doenças associadas.
Portanto, não seria correto presumir que uma substância capaz de estimular a regeneração da pele resolveria, por si só, qualquer lesão crônica.
Quando o tratamento poderá chegar às clínicas veterinárias?
A Universidade Estadual de Ohio esclarece que o peptídeo permanece restrito a protocolos de pesquisa autorizados.
Até o momento, não foi anunciado um prazo definitivo para sua disponibilização comercial.
Antes que a tecnologia seja incorporada à rotina veterinária, ainda será necessário ampliar a avaliação sobre eficácia, segurança, condições de aplicação e resultados em diferentes tipos de ferimentos.
Também será importante determinar questões práticas, como a frequência ideal das aplicações, a dosagem, a estabilidade da formulação e o custo de produção.
A realização de estudos clínicos maiores será fundamental para identificar quais animais realmente poderão se beneficiar da terapia e em quais circunstâncias ela oferece vantagens sobre os métodos disponíveis.
O fato de a tecnologia já ter recebido incentivo para estudos de comercialização representa um avanço no desenvolvimento do produto, mas não equivale à autorização para venda.
O que os proprietários de cavalos devem fazer enquanto a tecnologia não está disponível?
Especialistas em cirurgia equina ressaltam que o atendimento precoce continua sendo um dos fatores mais importantes no tratamento de feridas.
Lesões aparentemente pequenas podem comprometer tendões, articulações ou bainhas tendíneas, especialmente quando localizadas nas extremidades dos membros.
Por isso, a avaliação veterinária não deve ser adiada diante de ferimentos profundos, perfurantes, contaminados, acompanhados de claudicação ou próximos de estruturas articulares.
Os cuidados podem envolver limpeza adequada, proteção da lesão, remoção de tecidos desvitalizados, avaliação de infecções, controle da movimentação e acompanhamento periódico da cicatrização.
A necessidade de profilaxia contra o tétano também deve ser avaliada pelo profissional responsável.
O novo peptídeo não deve ser confundido com produtos comerciais sem comprovação equivalente, nem utilizado como justificativa para aplicações experimentais sem supervisão veterinária.
Nova tecnologia pode mudar a abordagem das feridas crônicas, mas ainda depende de validação
O principal avanço da pesquisa conduzida em Ohio está na possibilidade de atuar diretamente sobre mecanismos celulares responsáveis pela regeneração da pele.
Ao favorecer a migração e multiplicação de queratinócitos, o tratamento experimental procura solucionar um problema central das feridas equinas: a dificuldade de formar rapidamente uma nova cobertura cutânea antes do desenvolvimento excessivo do tecido de granulação.
Os resultados iniciais demonstram potencial e justificam a continuidade das pesquisas.
Para a equinocultura, isso representa uma perspectiva importante, sobretudo diante da dificuldade de tratar lesões que persistem por semanas ou meses e comprometem a saúde, a utilização e o valor dos animais.
O desafio agora será transformar um resultado científico promissor em um tratamento seguro, acessível e comprovadamente eficaz em diferentes situações clínicas.
Até que essa etapa seja concluída, o avanço deve ser compreendido como uma oportunidade concreta de investigação, e não como uma solução já disponível para a cicatrização de feridas em cavalos.
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