Pressionados por juros altos e crédito restrito, produtores e empresas do setor recorrem à Justiça para renegociar dívidas e manter a atividade.
O campo brasileiro caminha para mais uma safra histórica, mas enfrenta o momento de maior pressão financeira já registrado. Ao fim do primeiro semestre de 2026, 1.263 empresas do agronegócio estavam em recuperação judicial, o maior número da série do Monitor RGF-Bizdoc e 66% a mais que um ano antes. Nenhum outro setor da economia teve avanço tão expressivo no período.
Os dados da Serasa Experian apontam na mesma direção. No primeiro trimestre, o setor registrou 474 novos pedidos de recuperação judicial, alta de 21,9% sobre o mesmo período de 2025. A maior parte partiu de produtores rurais que atuam como pessoa jurídica. Mato Grosso lidera o ranking estadual, à frente de Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul.
A origem do problema está no caixa, não na lavoura. A atividade rural depende de capital de giro intensivo, financiado a juros que chegaram a 15% ao ano, enquanto a receita oscila conforme as cotações internacionais. Quando o custo da dívida sobe e o preço da soja, do milho ou da carne recua, a conta deixa de fechar, mesmo com boa colheita. A Selic começou a cair em março, mas o efeito sobre o endividamento é lento, e a expectativa do mercado é de alívio apenas entre o fim de 2026 e 2027.
“O produtor não está em dificuldade porque produziu mal. O que pesa é ter financiado a safra a um custo que a receita não acompanhou. São operações viáveis, com estrutura de dívida incompatível com o juro atual. A recuperação judicial é o caminho para reorganizar essa dívida e seguir produzindo”, afirma o advogado Antonio Frange Junior.
Negociar para continuar produzindo
Por trás dos números está uma mudança na forma como o setor enxerga o instrumento. A recuperação judicial suspende execuções e cobranças por um período. Nesse intervalo, devedor e credores negociam, sob supervisão da Justiça, um plano de pagamento compatível com a capacidade real do negócio. Enquanto isso, a fazenda continua plantando, colhendo e vendendo.
“Os produtores que procuram a recuperação judicial quer honrar seus compromissos. Busca uma mesa de negociação que não conseguiu fora do processo e prazo para atravessar um ciclo desfavorável sem interromper a produção. A lei existe justamente para preservar a atividade econômica e os empregos que ela gera”, conclui Frange.
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