Seca força produtores a abater vacas leiteiras

Seca força produtores a abater vacas leiteiras

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A estiagem, considerada uma das mais severas da história, prejudicou a produção de milho para a silagem e acendeu alerta no setor produtivo.

A associação de fatores negativos – a seca prolongada, a forte elevação de preços dos insumos e a baixa demanda pelos produtos lácteos – criou uma situação de graves perdas para os produtores de leite de Santa Catarina, alerta a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (FAESC), que reivindica medidas de apoio do Governo Federal.

“Precisamos de medidas agora para evitar que as perdas deixem os produtores em condição de insolvência”, pede o presidente José Zeferino Pedrozo. A FAESC e a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) estão sustentando a necessidade de medidas urgentes ao Ministério da Agricultura.

A seca que assola grandes regiões brasileiras e, com mais intensidade, o sul do Brasil, reduziu a disponibilidade de água nas regiões produtoras, destruiu boa parte das pastagens e acabou com 40% das silagens. Obter água e alimentos para a bovinocultura leiteira tornou-se o grande desafio dos pecuaristas catarinenses.

A ausência de chuva está comprometendo a produção de milho para silagem. Com medo de que falte comida para os animais em 2021, muitos produtores estão abatendo vacas leiteiras.

O produtor de leite José Araújo, de Chapecó (SC), conta que a situação vai forçar uma redução no plantel da região oeste do estado e na captação de leite. “Representamos 70% da produção do estado e somos o quarto maior estado produtor do país”, lembra.

O custo de produção cresceu fortemente porque o Brasil exportou grande parte da safra de grãos (milho e farelo de soja), forçando para cima os preços desses dois importantes componentes da nutrição animal. A saca de milho está sendo vendida acima de R$ 80 reais e, a tonelada de farelo de soja, acima de R$ 2.700,00 – ou seja, subiram 75,2% e 96,6%, respectivamente, em outubro deste ano na comparação com o mesmo mês em 2019. Na contramão desse processo, enquanto os custos sobem, os preços pagos pelos laticínios aos produtores estão em queda, reflexo do comportamento do varejo: o consumo popular também está em queda.

Pedrozo aponta que a margem bruta da atividade no primeiro semestre deste ano foi 29,5% menor em relação ao mesmo período de 2019, segundo dados do CEPEA. A queda na produção de leite foi de 11,7%, de acordo com o IBGE.

O dirigente reconhece que o Governo Federal adotou medidas para atenuar os prejuízos, como o auxílio emergencial, que estimulou o consumo de lácteos, o aumento de recursos para o programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a autorização para que laticínios com o Selo de Inspeção Federal (SIF) comprassem leite de pequenas indústrias com inspeção estadual ou municipal.

O horizonte dos próximos meses, entretanto, é preocupante. Os Conselhos Paritários de Produtores e Indústrias de Leite (Conseleites), que reúnem produtores e indústrias nos estados para definir os preços do produto, apontam redução de 4,8% no valor do leite produzido em outubro a ser pago em novembro, com perspectiva de queda até o final do ano.

A CNA e a FAESC propõem, entre outros pontos, a operacionalização de instrumentos de política agrícola como os leilões utilizados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a compra de insumos a preços mais acessíveis pelos produtores, a subvenção ao prêmio pago na aquisição de contratos de opção privada de compra de grãos e outras iniciativas que possuam o mesmo fim.

Depoimento de uma produtora

É uma complexa questão da cadeia produtiva em pauta e uma “situação contraditória”, mostra o presidente da FAESC. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do planeta, mas, em razão da exportação acentuada de grãos, está sujeito a importar essa mesma matéria-prima (soja, milho e arroz) – pagando preços maiores – para manter setores essenciais do agronegócio, como o seu gigantesco parque agroindustrial.

Pedrozo esclarece que é absolutamente contra qualquer intervenção estatal no mercado porque o Brasil trabalha em regime de liberdade econômica, mas admite que é preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre os interesses dos produtores de grãos e os produtores de aves, suínos e leite.

Observa que é uma matéria sensível, mas que precisa ser discutida pelo setor, até porque exportar produto acabado rende oito vezes mais para a balança comercial brasileira do que exportar commodities.

Compre Rural com informações da FAESC.

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