Sem tecnologia, Brasil precisaria de mais 67 milhões de hectares para produzir a mesma soja

Ganhos de produtividade obtidos com pesquisa, genética, manejo e conservação do solo reduziram drasticamente a quantidade de terra necessária para sustentar a produção brasileira de soja

A dimensão da transformação promovida pela ciência no campo pode ser medida pela terra que deixou de ser necessária. Segundo estimativa da Embrapa, sem os avanços tecnológicos acumulados nas últimas décadas, o Brasil precisaria cultivar mais 67 milhões de hectares para produzir a mesma quantidade de soja alcançada atualmente.

O cálculo revela um aspecto pouco percebido da modernização agrícola. Embora a área plantada tenha crescido, a produção avançou em velocidade muito maior, impulsionada pelo desenvolvimento de cultivares adaptadas ao clima tropical, pela recuperação da fertilidade dos solos, pela mecanização e por práticas de manejo cada vez mais precisas. Esse fenômeno é conhecido como efeito poupa-terra. Em vez de ampliar a produção apenas pela abertura de novas áreas, o agricultor passa a colher mais dentro de cada hectare já cultivado.

O que representam os 67 milhões de hectares

A estimativa parte de uma comparação entre o rendimento atual das lavouras e a produtividade registrada na década de 1970. Naquele período, o Brasil produzia, em média, cerca de 1,5 tonelada de soja por hectare.

Caso esse desempenho tivesse permanecido inalterado, seriam necessários aproximadamente 115 milhões de hectares para atingir uma colheita próxima de 170 milhões de toneladas. Como a área efetivamente cultivada no período analisado ficou ao redor de 47,6 milhões de hectares, surge a diferença de mais 67 milhões de hectares.

Trata-se de uma projeção técnica, e não da identificação de uma área específica que teria sido preservada. O indicador mostra quanto território adicional seria exigido caso o rendimento das lavouras não tivesse evoluído.

A comparação também evidencia uma mudança estrutural. Entre 1973 e 2023, de acordo com a Embrapa, a produção nacional de soja cresceu mais de 1.000%, enquanto a área plantada avançou em proporção consideravelmente menor.

A construção da soja tropical

A produtividade brasileira começou a mudar quando pesquisadores conseguiram adaptar a soja, originalmente associada a regiões de clima temperado, às condições tropicais do País.

O melhoramento genético permitiu desenvolver variedades capazes de produzir em diferentes latitudes, suportar temperaturas elevadas e responder aos variados regimes de chuva encontrados nas regiões agrícolas brasileiras.

Essa adaptação abriu caminho para a consolidação da cultura no Cerrado, mas o avanço não dependeu apenas das sementes. Os solos da região apresentavam acidez elevada e baixa disponibilidade natural de nutrientes, condições que limitavam o desenvolvimento das plantas.

Com o aprimoramento da calagem e da adubação, áreas antes consideradas pouco favoráveis passaram a sustentar lavouras altamente produtivas. A combinação entre genética e construção da fertilidade foi decisiva para transformar o Cerrado em uma das principais regiões produtoras de grãos do mundo.

O solo deixou de ser apenas suporte

Outro passo importante ocorreu quando o solo passou a ser tratado como um sistema vivo, e não apenas como uma base para sustentar as plantas.

A expansão do plantio direto reduziu o revolvimento da terra e estimulou a manutenção da palhada sobre a superfície. Essa cobertura protege contra a erosão, diminui a perda de umidade e contribui para o equilíbrio físico e biológico da área cultivada.

Quando associado à rotação de culturas, o sistema melhora a estrutura do solo e reduz a vulnerabilidade da lavoura a períodos de estiagem. O resultado não aparece somente em safras excepcionais, mas principalmente na estabilidade produtiva ao longo do tempo.

A tecnologia poupa-terra, portanto, não está restrita a equipamentos sofisticados. Ela também está presente em decisões agronômicas aparentemente simples, como escolher a sequência correta de culturas e manter o solo protegido durante todo o ano.

Bioinsumos reduziram custos e dependência externa

Entre as tecnologias mais importantes para a competitividade da soja brasileira está a fixação biológica de nitrogênio.

Por meio da inoculação com bactérias benéficas, a planta consegue captar o nitrogênio presente na atmosfera, reduzindo a necessidade de fertilizantes nitrogenados industriais. A prática diminui custos de produção e evita uma dependência ainda maior de insumos importados.

Ensaios conduzidos pela Embrapa também apontam ganhos adicionais de rendimento quando a inoculação é realizada corretamente e repetida a cada safra.

Esse tipo de solução demonstra que elevar a produtividade não significa, necessariamente, aumentar o uso de insumos químicos. Em muitos casos, o avanço ocorre justamente pela aplicação mais eficiente de processos biológicos já presentes na natureza.

Manejo protege o potencial das lavouras

Não basta construir um alto potencial produtivo se parte da colheita for perdida para pragas, doenças ou plantas daninhas.

O Manejo Integrado de Pragas modificou a lógica das aplicações nas lavouras. Em vez de pulverizar seguindo apenas um calendário previamente definido, o produtor monitora a presença dos insetos e intervém quando eles atingem níveis capazes de provocar prejuízos econômicos.

Resultados obtidos em áreas acompanhadas pela Embrapa no Paraná mostraram que propriedades orientadas pelo manejo integrado conseguiram reduzir significativamente o número de aplicações de inseticidas, sem queda de produtividade.

Além da economia direta, a estratégia ajuda a preservar inimigos naturais e diminui a pressão que favorece o desenvolvimento de populações resistentes aos defensivos.

Sensores, imagens de satélite, mapas de produtividade e máquinas com controle de aplicação ampliaram essa precisão. O produtor passou a enxergar diferenças dentro da própria fazenda e a tratar cada área de acordo com sua necessidade.

Produzir mais exige menos terra, mas não encerra o debate ambiental

Os ganhos de produtividade diminuem a pressão teórica pela incorporação de novas áreas, mas não garantem, isoladamente, a conservação da vegetação nativa.

Para que o efeito poupa-terra se transforme efetivamente em benefício ambiental, é necessário combinar tecnologia com fiscalização, rastreabilidade, respeito à legislação e aproveitamento de áreas já abertas ou degradadas.

Também é preciso evitar uma interpretação simplista. O aumento do rendimento torna a atividade mais eficiente e rentável, mas a valorização econômica da cultura pode estimular novas expansões quando não existem regras territoriais claras.

Por isso, produtividade e preservação não devem ser tratadas como forças opostas, nem como resultados automáticos uma da outra. A tecnologia oferece as condições para produzir mais em menos espaço; a forma como esse ganho será utilizado depende das escolhas econômicas, ambientais e políticas adotadas pelo País.

Os 67 milhões de hectares revelam o valor da pesquisa

A produção brasileira de soja deve superar novamente a marca de 170 milhões de toneladas na safra 2025/26, conforme as projeções divulgadas pela Companhia Nacional de Abastecimento.

O volume confirma uma trajetória construída durante décadas, a partir de investimentos em pesquisa pública, assistência técnica, desenvolvimento de máquinas, capacitação de produtores e aprimoramento dos sistemas produtivos.

Os 67 milhões de hectares não podem ser atribuídos a uma única invenção. Eles representam o efeito conjunto de milhares de melhorias incorporadas gradualmente às propriedades rurais.

Mais do que uma comparação histórica, o número aponta o caminho para os próximos anos. Com limites ambientais e territoriais cada vez mais evidentes, o crescimento da agricultura brasileira dependerá menos da expansão horizontal e mais da capacidade de recuperar solos, reduzir perdas e extrair maior valor das áreas que já estão em produção.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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