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Pesquisas da Embrapa Agrossilvipastoril do Mato Grosso mostram interferências das árvores na lavoura em sistemas integração lavoura-pecuária-floresta.

A soja é mais tolerante à sombra das árvores em um sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) do que o milho. Essa é uma das conclusões da avaliação de cinco anos de diferentes configurações de sistemas integrados realizada no maior experimento de ILPF conduzido pela Embrapa, em Sinop (MT).

De acordo com resultados publicados por pesquisadores da Embrapa Agrossilvipastoril (MT), a lavoura de soja só apresentou redução na produtividade devido à menor incidência de sol a partir do quarto ano de implantação dos sistemas. Já o milho, cultivado em segunda safra, apresentou queda da produtividade já desde o terceiro ano agrícola.

A pesquisa foi feita em um experimento de 72 hectares, em que sistemas de produção de soja/milho, pecuária de corte e eucalipto são comparados com todas as combinações possíveis de integração: ILP, ILF, IPF e ILPF (com rotação a cada dois anos e com lavoura na safra e pecuária na safrinha todos os anos). As áreas com componente arbóreo são formadas por renques triplos de eucaliptos, com espaçamento de 30 metros entre eles, plantados em sentido leste-oeste.

No caso da soja, embora não houvesse diferença no tamanho e porte das plantas até o quarto ano, a produtividade do sistema ILF teve uma queda de 18,4% quando comparada com a lavoura solteira na safra 2014/2015, a quarta do sistema. Nos demais sistemas com árvores não houve diferença estatística.

Já na quinta safra (2015/2016), a produtividade da soja teve queda de 24% nos sistemas ILF e ILPF com rotação a cada dois anos. No sistema mais intensificado de ILPF, com lavoura de soja e milho com braquiária, com pastejo após a colheita do milho, em todos os anos, a produtividade da oleaginosa foi semelhante ao sistema sem árvores.

O milho também só passou a apresentar diferenças estatísticas no tamanho médio das plantas a partir do quinto ano, com variação de até 19 cm na altura. As linhas de cultivo mais próximas às árvores na face sul foram as que apresentaram maior redução. Entretanto, variações na produtividade começaram a ser percebidas já a partir da terceira safra, com queda média de 19% nos tratamentos com árvores, em relação ao cultivo solteiro. Nas duas safras seguintes a queda foi de 37%.

Na média de produtividade dos cinco anos de avaliação, a soja teve redução de 13,1% no sistema ILF e de 8,6% nos sistemas ILPF. Já o milho apresentou queda média de 23,1% na ILF e de 19,4% na ILPF.

“O milho é uma planta exigente em luz, uma planta C4. E na nossa região ele é cultivado na safrinha, que pega a pior época em termos de luminosidade. Os dias são cada vez mais curtos até o início do inverno. Soma-se a isso a maior sombra projetada pelas árvores devido à maior angulação solar nessa época do ano”, explica o pesquisador Ciro Magalhães.

De acordo com o pesquisador, a incidência de radiação solar nos sistemas com árvores, comparada com a lavoura exclusiva, foi 17% menor no período de cultivo da soja e 33% menor no período em que o milho foi cultivado, dados medidos ao longo da sétima safra avaliada (2017/18).

Milho deve ser retirado do sistema?

Embora o milho apresente maior queda de produtividade, o bom manejo do componente florestal pode viabilizar a continuidade do plantio do grão em mais uma ou duas safras.

“Fazendo a desrama o mais alto possível, você possibilitará a entrada de mais luz no sistema, além de diminuir a evapotranspiração das árvores. Removendo a superfície foliar com a desrama dos galhos mais baixos, você reduz a demanda por água, consequentemente haverá menor competição por água e nutrientes entre as árvores e as plantas de soja e milho na zona mais próxima dos renques, fator que também provoca redução na produtividade de grãos”, explica Ciro, que ainda alerta para a necessidade da desrama para garantir a boa qualidade da madeira para serraria.

Outra alternativa é planejar sistemas ILPF com renques simples, com apenas uma linha de árvores. Na sequência do período avaliado no estudo, um dos tratamentos foi desbastado, de modo a ficar com apenas a linha central de árvores, em um espaçamento de 37 metros. De imediato a soja recuperou sua produtividade, não diferindo dos sistemas sem árvores. O milho também respondeu bem, recuperando parte de sua produtividade. Porém, ainda apresentou perdas, quando comparado com o sistema solteiro.

“Se você começar um sistema ILPF com renque simples, até o sétimo ano já sabemos que você pode cultivar a soja sem ter perdas de produtividade. Já o milho, mesmo com renque simples, com eucalipto de seis e sete anos, tem perdas de 15% a 23%”, afirma Ciro com base nas avaliações das safras 2016/2017 e 2017/2018.

Para saber até quanto de perda na produtividade do milho será compensada com o ganho na madeira será necessário esperar o fim do ciclo, com o corte final das árvores e a avaliação econômica completa do sistema.

Na opinião do pesquisador, alternativas como o cultivo de milho na safra (época com maior passagem de radiação nos sistemas) podem ser interessantes desde que o mercado compense. Do contrário, o melhor é fazer rotação com outras culturas, como arroz e feijão-caupi, por exemplo, ou ainda antecipar o boi safrinha.

“Uma das possíveis formas de se aproveitar melhor a área na ILPF seria cultivar a soja na safra e já plantar o capim na sequência. Seria um sistema de boi safrinha antecipado. Em 40 dias esse capim está formado e o boi já entra pastejando em uma área com oferta de sombra, comprovadamente benéfica para o desempenho dos animais”, sugere.

Via Embrapa

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