Levantamento da CNA em parceria com o Cepea/Esalq-USP revela dificuldade generalizada para contratar no campo, com reflexos sobre custos, produção, investimentos e crescimento das propriedades
Encontrar gente para trabalhar tornou-se uma das maiores preocupações dentro da porteira. A escassez de mão de obra já é apontada por 44,5% dos produtores consultados como o principal desafio de suas atividades, superando questões historicamente sensíveis ao setor, como custos de produção, clima e preços. O resultado faz parte de um estudo inédito da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), elaborado em parceria com o Cepea/Esalq-USP e apresentado em 25 de agosto de 2026.
O diagnóstico revela uma transformação que vai além da falta de candidatos para determinadas vagas. As fazendas precisam preencher equipes, manter profissionais experientes e encontrar trabalhadores preparados para uma produção cada vez mais tecnológica. Quando isso não acontece, o impacto ultrapassa o departamento pessoal e chega diretamente ao ritmo da atividade.
Escassez de mão de obra atinge propriedades em todo o setor
A dimensão da dificuldade fica evidente em um dos principais resultados da pesquisa: 94,8% dos produtores ouvidos relataram algum obstáculo na hora de contratar trabalhadores. Outros 84,3% afirmaram estar operando atualmente com equipes menores do que consideram necessárias.
Na prática, isso significa que muitas propriedades continuam produzindo sem conseguir completar o quadro planejado para suas atividades.
O desafio ganha importância porque o perfil do trabalho rural também mudou. A expansão de máquinas com sistemas eletrônicos, agricultura de precisão, monitoramento digital, automação e novos modelos de gestão aumentou a necessidade de profissionais com conhecimentos específicos.
Assim, não basta encontrar alguém disponível para a vaga. Dependendo da atividade, o produtor também precisa localizar ou capacitar pessoas capazes de trabalhar com equipamentos e processos que se tornaram mais complexos.
Falta de trabalhadores começa a interferir na produção
A dificuldade de contratação já deixou consequências mensuráveis nas propriedades. Segundo o estudo, 88,3% dos entrevistados identificaram algum efeito produtivo associado ao problema.
Entre os produtores consultados, 48,7% tiveram o calendário das atividades afetado por atrasos. Outros 43,9% observaram aumento das despesas relacionadas aos trabalhadores, enquanto 42% apontaram perda de produção.
Em uma atividade dependente de janelas operacionais, disponibilidade de equipe pode ser decisiva. Plantio, colheita, manejo dos animais, aplicação de insumos e diversas outras tarefas precisam ocorrer no momento adequado.
Uma propriedade com máquinas, estrutura e capital disponíveis pode perder eficiência simplesmente porque não possui pessoal suficiente para executar o trabalho no prazo necessário.
Escassez de mão de obra também freia novos investimentos
Um dos resultados mais relevantes do levantamento aparece quando o produtor olha para o futuro. A falta de pessoal levou 48% dos entrevistados a postergar ou abandonar projetos de expansão.
O dado acrescenta uma nova variável às decisões de crescimento no campo. Antes de aumentar área, rebanho ou capacidade produtiva, o produtor precisa avaliar se encontrará equipe suficiente para sustentar a nova escala da operação.
Isso transforma a escassez de mão de obra em uma questão econômica. O problema não afeta apenas a execução das tarefas atuais, mas pode limitar a capacidade da propriedade de aproveitar oportunidades de crescimento.
Máquinas avançam como resposta à falta de gente
A tecnologia aparece como uma das principais saídas encontradas pelos produtores. Entre os entrevistados, 42,6% anteciparam investimentos em mecanização ou automação diante das dificuldades para contratar. Ao todo, 88,8% disseram ter adotado algum tipo de medida para enfrentar a redução da disponibilidade de trabalhadores.
As alternativas incluem mudanças nos processos, estratégias de atração e retenção, terceirização e reorganização das atividades.
A mecanização, porém, não elimina necessariamente a necessidade de pessoas. Em muitos casos, ela substitui tarefas manuais por funções que exigem maior qualificação, como operação de equipamentos, manutenção, interpretação de dados e controle de sistemas digitais.
O resultado é uma mudança no tipo de profissional procurado pelas propriedades.
Campo amplia produção com menos trabalhadores por hectare
A transformação do mercado de trabalho rural ocorre paralelamente a um forte aumento de eficiência.
Entre 2012 e 2025, a área agrícola brasileira avançou 43,2%, enquanto a quantidade de empregados para cada 100 hectares recuou 38,5%, segundo os dados apresentados pela CNA.
Em uma análise de prazo ainda maior, a diferença é mais expressiva. De 1995 a 2025, a produtividade por hora trabalhada na agropecuária cresceu 515%, enquanto o ganho registrado pelo conjunto da economia brasileira foi de 28%.
Esses números ajudam a mostrar como máquinas, tecnologia, genética, conhecimento técnico e melhoria dos processos permitiram produzir mais com menor intensidade de trabalho.
Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico aumenta o valor estratégico do trabalhador qualificado.
Escassez de mão de obra aumenta disputa por profissionais
A concorrência por trabalhadores também começa a aparecer na remuneração.
De 2021 a 2025, os salários do agro tiveram alta real de 35%, ante avanço de 24,8% nos demais setores da economia, conforme o estudo divulgado pela CNA. No Centro-Oeste, região de grande concentração da produção agropecuária, o crescimento salarial no setor chegou a 68%, frente a 16% nas ocupações urbanas consideradas na comparação.
O movimento sugere que salário e benefícios passaram a funcionar também como ferramentas de competição por uma quantidade mais restrita de profissionais.
Para o produtor, isso aumenta a importância de fatores que tradicionalmente recebiam menor atenção na gestão rural: retenção, capacitação, ambiente de trabalho, plano de carreira e organização das equipes.
Agro continua gigante em empregos, apesar do gargalo nas fazendas
A falta de trabalhadores dentro das propriedades não significa que o agronegócio tenha deixado de ser um grande empregador.
O boletim mais recente do mercado de trabalho elaborado pelo Cepea em parceria com a CNA mostra que 27,79 milhões de pessoas estavam ocupadas no agronegócio no primeiro trimestre de 2026, o equivalente a 25,73% da população ocupada brasileira.
Há uma diferença importante entre os dois indicadores. O número de trabalhadores do agronegócio considera toda a cadeia, incluindo produção primária, insumos, agroindústria e agrosserviços. Já o novo levantamento sobre escassez de mão de obra procura identificar as dificuldades enfrentadas pelos empregadores rurais para manter suas propriedades funcionando.
É justamente essa combinação que chama atenção: uma cadeia capaz de empregar dezenas de milhões de pessoas convive, ao mesmo tempo, com produtores que não conseguem completar suas equipes.
Gestão de pessoas passa a ser tão estratégica quanto máquinas
O estudo da CNA e do Cepea expõe uma mudança importante na administração das propriedades brasileiras. Se no passado o planejamento estava fortemente concentrado em terra, crédito, insumos, maquinário e mercado, a disponibilidade de profissionais passa a ocupar espaço semelhante nas decisões.
Tecnologia provavelmente continuará sendo parte da resposta. Atividades repetitivas, pesadas ou dependentes de grande número de trabalhadores tendem a receber ainda mais mecanização e automação.
Mas existe um limite para tratar o problema apenas com equipamentos. Quanto mais sofisticada fica a fazenda, maior também é a necessidade de pessoas capazes de operar, interpretar e manter essas tecnologias.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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