Tecnologia desenvolvida em Santa Catarina utiliza gotas de leite para fazer a triagem na fazenda e pode auxiliar a seleção do rebanho; diferença está na proteína e não elimina a lactose
Identificar quais vacas produzem leite exclusivamente com a variante A2 da beta-caseína pode ser uma etapa importante para produtores interessados em diferenciar sua produção. Uma tecnologia brasileira permite realizar essa triagem em aproximadamente 20 minutos, diretamente na propriedade, utilizando algumas gotas do leite de cada animal. A solução foi desenvolvida pela Scienco Biotech, de Lages, na Serra Catarinense, e integra a marca Dairy Tech.
O interesse está na possibilidade de organizar rebanhos para atender ao mercado de leite A2, produto estudado por sua tolerabilidade digestiva em determinados consumidores. Entretanto, a distinção exige cuidado: leite A2 continua contendo lactose e não representa uma solução universal para quem apresenta desconforto ao consumir lácteos. Sua característica está em uma proteína naturalmente produzida pelas vacas.
Como funciona o teste de leite A2 na fazenda
Comercializado como MilkTest, o dispositivo utiliza uma amostra individual de leite. Segundo a fabricante, o produtor deve fazer a coleta em um recipiente limpo e seco, aplicar a amostra conforme as instruções e aguardar o período indicado para leitura.
O formato lembra um teste rápido de gravidez, com linhas que permitem interpretar o resultado. A proposta é facilitar a identificação de animais de interesse sem equipamentos laboratoriais na propriedade. O procedimento analisa o leite produzido pelo animal; não realiza uma leitura direta de seu DNA. A própria empresa o apresenta como ferramenta de triagem.
Segundo os números divulgados pela desenvolvedora, a tecnologia já ultrapassou 7 mil testes aplicados em mais de 400 propriedades, com utilização em cinco países. Esses indicadores são informações comerciais fornecidas pela empresa.
O que diferencia uma vaca produtora de leite A2
A classificação está relacionada às variantes da beta-caseína, uma das proteínas do leite. Considerando as variantes A1 e A2, os animais podem apresentar os seguintes perfis:
| Perfil genético | Variantes de beta-caseína produzidas |
|---|---|
| A1A1 | A1 |
| A1A2 | A1 e A2 |
| A2A2 | A2 |
Assim, vacas A2A2 produzem exclusivamente a variante A2 da beta-caseína. Isso não significa que seu leite contenha apenas uma proteína: as demais proteínas naturais do alimento continuam presentes. A Epamig explica que a identificação genética permite distinguir esses perfis e orientar a formação dos rebanhos.
O Compre Rural já detalhou o que é o leite A2 e como identificar essa característica no rebanho, tema que conecta genética, manejo e diferenciação da produção.
O teste rápido identifica uma característica já existente. Ele não modifica a genética da vaca nem transforma o leite convencional em leite A2.
Leite A2 pode causar menos desconforto em algumas pessoas
Pesquisas clínicas investigam se o consumo exclusivo de beta-caseína A2 apresenta diferenças na tolerabilidade digestiva em comparação ao leite que contém A1 e A2.
Um ensaio publicado em 2024, realizado com 40 participantes que relatavam desconforto após consumir leite, comparou os dois produtos em um desenho randomizado, duplo-cego e cruzado — no qual os participantes recebem as duas intervenções em períodos distintos. Esse tipo de investigação ajuda a avaliar possíveis diferenças, mas estudos pequenos não permitem prometer o mesmo resultado para toda a população.
A formulação mais adequada, portanto, é que o leite A2 pode ser mais bem tolerado por algumas pessoas, com evidências ainda em desenvolvimento. Não há justificativa para apresentar o leite convencional como prejudicial a todos ou garantir ausência de sintomas com o A2.
A2 não significa sem lactose ou livre de alergênicos
A lactose é o açúcar do leite. A classificação A2 diz respeito à proteína. Por isso, um leite pode ser A2 e continuar contendo lactose, a menos que também tenha passado por tratamento específico para sua redução ou eliminação.
Outra distinção fundamental envolve a alergia à proteína do leite de vaca: o leite A2 mantém proteínas capazes de desencadear reações e não deve ser apresentado como alternativa segura para pessoas com essa alergia. Melhor tolerabilidade digestiva e ausência de potencial alergênico são questões diferentes.
Oportunidade para o produtor depende de planejamento
Para a pecuária leiteira, a triagem pode ajudar a identificar animais destinados a uma produção diferenciada. Já a formação de um rebanho A2A2 exige planejamento reprodutivo: a orientação da Epamig inclui avaliação genética de fêmeas e utilização de sêmen de touros A2A2. O teste baseado no leite, por sua própria natureza, depende de uma amostra disponível do animal em produção.
Experiências de pecuaristas que investem na produção de leite A2 mostram como a seleção do rebanho pode integrar uma estratégia de diferenciação dos produtos lácteos.
A comercialização também envolve cuidados além da identificação das vacas. A CNA apresenta um protocolo voluntário de certificação que abrange identificação, processamento, transporte e rotulagem do leite e de seus derivados. Assim, o resultado de uma triagem individual não equivale, por si só, à certificação de toda a cadeia produtiva.
Do ponto de vista econômico, o produtor precisa avaliar se existe comprador para o leite diferenciado, quais exigências serão feitas e se a remuneração compensará os custos de seleção e organização da produção. A identificação do perfil A2 abre uma possibilidade comercial, mas não assegura pagamento adicional automaticamente.
O potencial de crescimento do leite A2 no Brasil passa também pela informação ao consumidor e pela organização da cadeia para atender a esse mercado.
Tecnologia catarinense tem origem na pesquisa
A Scienco Biotech foi fundada em 2016, a partir de projetos desenvolvidos no Centro de Ciências Agroveterinárias da Universidade do Estado de Santa Catarina, o CAV/Udesc, segundo a Associação Catarinense de Tecnologia.
Em março de 2026, a empresa venceu a competição de startups do South Summit Brazil, em Porto Alegre, com a solução Dairy Tech. O reconhecimento reforça a trajetória de uma tecnologia que aproxima a pesquisa de uma decisão prática dentro da fazenda: identificar características do leite para orientar a gestão do rebanho.
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