Sequência de tempestades severas já atingiu sete estados com chuva intensa, grande quantidade de raios, vendavais e episódios de granizo; combinação de calor, umidade e dinâmica atmosférica ajuda a explicar por que tantos fenômenos estão ocorrendo em sequência
Setembro de 2026 ainda chegou apenas à metade, mas o Centro-Sul brasileiro já atravessou uma sequência pouco comum de episódios de tempo severo. Tornados, microexplosões, vendavais, granizo, chuva intensa em curto intervalo e grande incidência de raios foram registrados em diferentes pontos do país, segundo análise técnica publicada pelo INMET nesta terça-feira (15).
Os fenômenos atingiram especialmente áreas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, deixando prejuízos materiais, transtornos e, em alguns episódios, vítimas.
A sucessão de eventos não significa que toda a região esteja enfrentando simultaneamente tempestades extremas. São fenômenos geralmente localizados, mas que vêm se repetindo em diferentes pontos sob um ambiente atmosférico particularmente favorável ao desenvolvimento de nuvens de tempestade.
E a pergunta que surge depois de tantos episódios é inevitável: por que setembro está produzindo tantas tempestades severas?
Atmosfera reúne ingredientes para tempestades mais fortes
A explicação apresentada pelo INMET envolve uma combinação de fatores.
Segundo o Instituto, a atmosfera sobre o Centro-Sul tem permanecido extremamente quente, úmida e instável, condição potencializada por um forte escoamento atmosférico de oeste em aproximadamente 5 mil metros de altitude.
Quando existe calor e grande disponibilidade de umidade próximo da superfície, o ar pode ascender rapidamente. Se essa instabilidade encontra condições favoráveis também nos níveis superiores da atmosfera, as nuvens conseguem crescer verticalmente com intensidade.
É nesse ambiente que tempestades organizadas podem produzir rajadas violentas, granizo, elevada atividade elétrica e chuva muito intensa em pequenos intervalos.
Outro ingrediente importante é a variação da velocidade e direção dos ventos com a altitude — condição associada à organização e, em determinados casos, à rotação das tempestades.
Isso ajuda a explicar por que alguns episódios evoluíram para fenômenos mais severos.
Microexplosão não é tornado
A sequência deste mês também colocou dois termos pouco familiares no noticiário meteorológico brasileiro: tornado e microexplosão.
Embora ambos possam produzir ventos extremamente fortes e danos concentrados, são fenômenos diferentes.
No tornado, existe uma coluna de ar em forte rotação associada à tempestade e que alcança a superfície.
Na microexplosão, o mecanismo é outro. Uma corrente muito intensa de ar desce da nuvem e, ao atingir o solo, espalha-se horizontalmente em diferentes direções.
Para quem observa apenas os danos depois da tempestade, os dois fenômenos podem parecer semelhantes. A análise meteorológica do padrão dos estragos, radares, imagens e demais dados é necessária para determinar o que efetivamente ocorreu.
Por isso, nem todo vendaval que derruba árvores ou destelha construções deve ser classificado como tornado.
O cenário continua instável em parte do Brasil
A análise divulgada nesta terça-feira não é apenas uma retrospectiva.
A atualização mais recente do INMET para quarta-feira (16) e quinta-feira (17) indica que um canal de umidade estabelecido entre o oeste da Amazônia e o Sudeste continuará mantendo condições de chuva sobre Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
A instabilidade também deverá alcançar partes do Centro-Oeste e do sul do Nordeste.
Na quinta-feira, há previsão de pancadas de chuva e trovoadas isoladas no noroeste de São Paulo, Triângulo Mineiro e oeste de Minas Gerais, além de chuva em outras áreas do Sudeste.
Isso é previsão, e não confirmação de novos episódios de tornado ou microexplosão.
O INMET não afirma que tornados ocorrerão nesses locais. O que permanece é um ambiente de instabilidade capaz de produzir tempestades em determinadas áreas.
No Sul, preocupação muda da tempestade para o frio
Enquanto o canal de umidade mantém chuva mais ao norte, uma massa de ar frio permanece sobre o centro-sul.
O INMET prevê madrugadas frias e possibilidade de geada no sul do Paraná e em partes de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.
O risco é mais relevante em áreas baixas e tradicionalmente frias.
Para o agronegócio, geadas nesta época podem exigir atenção especialmente em hortaliças, fruticultura, culturas sensíveis e áreas de pastagem, dependendo da intensidade efetivamente registrada em cada localidade.
Novamente, trata-se de previsão de possibilidade de geada, e não de ocorrência confirmada.
Matopiba vive situação oposta
O contraste meteorológico brasileiro fica evidente quando se olha para o norte da área de instabilidade.
No Matopiba — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — o INMET prevê persistência de calor e baixa umidade do ar.
A condição merece atenção justamente no período em que produtores começam a acompanhar com maior interesse o retorno das chuvas para o planejamento da safra.
O fato de chover em partes do Centro-Oeste ou Sudeste não significa que a estação úmida esteja estabelecida de maneira regular em todas as áreas agrícolas.
O que os eventos severos significam para o campo
Para propriedades rurais, tempestades severas possuem consequências diferentes das chuvas regulares necessárias às lavouras.
Granizo pode causar dano mecânico às plantas, frutos e estruturas. Vendavais podem atingir galpões, pivôs, silos e instalações. Chuvas concentradas em solo já saturado aumentam o risco de erosão e dificultam o tráfego de máquinas.
Raios também representam risco para pessoas e animais em áreas abertas.
No caso da pecuária, a recomendação preventiva é evitar manter animais em áreas muito expostas durante tempestades intensas, especialmente próximos de árvores isoladas, cercas e estruturas vulneráveis.
O ponto fundamental é não confundir chuva necessária ao início da safra com tempestade severa. Um evento de poucos minutos pode produzir grande quantidade de água e ainda assim não representar uma regularização duradoura das precipitações.
Setembro ainda exige acompanhamento
A análise técnica divulgada pelo INMET nesta terça-feira confirma o que a sucessão de episódios vinha sugerindo: o Centro-Sul atravessa um setembro marcado por ambiente favorável a tempestades severas.
Isso não significa que tornados continuarão ocorrendo nem que todas as tempestades serão destrutivas.
Significa que a combinação atmosférica registrada neste período foi suficiente para produzir, em diferentes locais, fenômenos que vão muito além de uma chuva comum.
Para o produtor rural, a recomendação mais segura continua sendo acompanhar os avisos oficiais de curto prazo. Fenômenos como granizo, vendavais e tornados possuem forte caráter localizado, e a indicação de risco tende a ganhar precisão conforme o evento se aproxima.
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