Fazendeiros de Namisindwa, no leste de Uganda, pagaram a David Nabutsilili para invocar a chuva sobre suas plantações.
A água veio em excesso, inundou as hortas, e o grupo perseguiu o homem pelas colinas até vê-lo cair sobre uma pedra e fraturar o fêmur.
Nabutsilili é um rainmaker, título dado a quem realiza rituais para pedir chuva às divindades em comunidades de várias partes da África Subsaariana.
Ainda hoje sente dor na perna por causa da queda, mas continua sendo procurado pelos mesmos vizinhos que o agrediram. Sobretudo na época do plantio, quando famílias inteiras dependem da previsão certa para não perder a safra.
Quando o resultado não agrada, Nabutsilili precisa deixar a própria casa por um tempo em busca de segurança, disse à Associated Press em sua vila.
Ele contou que as pessoas batem porque às vezes chove demais e às vezes não chove nada.
Um papel espiritual que virou alvo
Comunidades agrícolas de diferentes regiões do continente atribuem a esses líderes um poder direto sobre o clima, o que alimenta expectativas difíceis de sustentar em todas as estações.
Quando a colheita depende da chuva certa, na hora certa, qualquer variação gera desconfiança contra quem promete controlar o tempo.
Joseph Weyusya, ancião da Inzu ya Masaaba, instituição tradicional do povo Bagisu, no leste de Uganda, disse que já presenciou casos em que os rituais coincidiram com a chegada da chuva.
Mas também descreveu episódios em que o clima não colaborou, e a comunidade se voltou contra os responsáveis pelo ritual.
Espancamentos e mortes em casos extremos
Segundo Weyusya, quando a chuva não vem, moradores se reúnem na vila e questionam publicamente por que aquilo está acontecendo. A partir daí, começam a procurar os rainmakers para cobrar explicações.
Weyusya disse que, em muitos desses episódios, as pessoas espancam os responsáveis quase até a morte.
O relato de Nabutsilili confirma esse padrão: mesmo décadas depois de ser agredido, ele segue exercendo a função, alternando entre ser procurado como solução e temido como culpado.
Clima cada vez mais imprevisível
Mudanças no comportamento das chuvas têm tornado a tarefa dos rainmakers mais instável, aumentando tanto a demanda por seus serviços quanto o risco que correm quando o resultado não é o esperado.
A pressão recai sobre uma figura que, tradicionalmente, herdava a função de gerações anteriores dentro da própria comunidade.
O ciclo se repete em outras partes da África Subsaariana, onde episódios de seca ou de chuva em excesso reacendem a mesma desconfiança que quase custou a vida ao rainmaker de Uganda.
Enquanto famílias inteiras seguem dependendo da terra para sobreviver, quem promete trazer a chuva continua correndo o risco de pagar caro pelo clima que não pode controlar.













