O preço do enxofre disparou de menos de US$ 100 para US$ 1,1 mil por tonelada em cerca de um ano, o que tornou inviável produzir fertilizantes fosfatados no Brasil. Com isso, mais da metade da capacidade nacional de produção de adubo está paralisada, e aproximadamente 5 mil trabalhadores diretos e terceirizados correm risco de desemprego.
A russa Eurochem, que inaugurou sua fábrica em Serra do Salitre, Minas Gerais, em março de 2024, com investimento de R$ 5 bilhões, suspendeu os contratos de cerca de 450 funcionários por até três meses. Ainda há a possibilidade desse prazo se estender para cinco.
A planta tem capacidade de produzir 1 milhão de toneladas de ácido sulfúrico e 130 mil toneladas de ácido fosfórico, insumos essenciais para fabricar fertilizantes como SSP e MAP.
O enxofre seca os estoques nacionais
O aumento de 1.000% no preço do enxofre eliminou a viabilidade de importar o produto para transformá-lo em ácido sulfúrico e ácido fosfórico dentro do país.
Com isso, as fábricas reduzem a produção ao mínimo ou param temporariamente. No caso da Eurochem, apenas os equipamentos essenciais continuam funcionando para evitar corrosão. Os estoques de enxofre disponíveis devem durar até outubro ou novembro.
A indústria calcula que os estoques de enxofre de todo o setor se esgotem no mesmo período. Depois disso, a produção pode “zerar rapidamente”. O sindicato que representa os trabalhadores estima que os terceirizados afetados na região de Serra do Salitre chegam a 2 mil pessoas, além dos 450 funcionários diretos da Eurochem.
Outras gigantes também freiam a produção
A paralisação não é exclusiva da Eurochem. A Yara, empresa norueguesa, encerrou operações em Cubatão, São Paulo, onde produzia 857 mil toneladas de ácido sulfúrico e 165 mil toneladas de ácido fosfórico. A companhia também interrompeu a fabricação em Paulínia, no mesmo estado, onde tinha capacidade para 400 mil toneladas de ácido sulfúrico.
A americana Mosaic reduz drasticamente a produção no Brasil desde o início do ano, sem divulgar dados completos sobre demissões e volume mantido em operação. Nas unidades de Tapira e Uberaba, em Minas Gerais, cerca de 500 trabalhadores tiveram os contratos suspensos temporariamente.
O caso mais severo ocorreu em Patrocínio, também em Minas Gerais. O encerramento das operações de mineração levou à demissão de aproximadamente 800 terceirizados e outros 30 funcionários diretos, e a planta da Mosaic em Araxá também foi paralisada.
Governo recebe pressão por solução urgente
A indústria cobrou do governo federal medidas para compensar a retração da oferta. O subsídio na importação de enxofre é a solução mais solicitada, já discutida com um grupo de análise do governo, mas ainda sem decisão final.
A consulta pública do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio encerrada em setembro avaliou tornar permanente a isenção de imposto de importação para fertilizantes, medida que preocupa o setor.
O ministro da Agricultura, André de Paula, disse que Brasil e Marrocos negociam um acordo para garantir o fornecimento de fertilizantes fosfatados. A indústria vê com receio essa parceria, temendo que aumente a dependência externa enquanto deixa desprotegidos os empregos locais.
A empresa multinacional CMOC, de origem chinesa, mantém a produção de fertilizantes fosfatados e ácido sulfúrico nas unidades de Catalão. Em Goiás, e Cubatão, em São Paulo, sem previsões de layoff ou parada total em 2026.
Sem ação rápida do governo, o setor prevê que a paralisação se alastre para outras plantas ainda em funcionamento, agravando a crise de abastecimento e emprego no segmento.













