Quando Peter e Elke Watson decidiram plantar milhares de árvores nas margens do Rio Mary, na Austrália, seus vizinhos os achavam estranhos. Enquanto a maioria dos fazendeiros da região cortava árvores, o casal de produtores de leite iniciou um trabalho de restauração que viria a inspirar toda a comunidade e a provar que até os rios mais danificados podem ser recuperados com persistência.
O Rio Mary, que corta a região sul-leste de Queensland com 310 quilômetros de extensão, estava entre os ecossistemas mais degradados da costa leste australiana na década de 1990. A bacia hidrográfica, com 9.595 quilômetros quadrados, sofria erosão severa das margens, assoreamento e poluição agrícola que comprometiam a vida marinha até a Grande Barreira de Coral.
Da degradação ao trabalho de restauração
Há 31 anos, os Watsons não se limitavam a plantar árvores. Eles cercavam as áreas erodidas para afastar o gado e instalavam bebedouros longe dos cursos de água, impedindo que o esterco dos animais contaminasse rios e córregos.
Essas práticas, que os vizinhos chamavam de “ideias de ambientalistas estranhos”, viraram o modelo central da estratégia de recuperação da bacia.
O trabalho chamou a atenção das autoridades locais, que criaram o Mary River Catchment Coordinating Committee (MRCCC). O comitê passou a articular esforços com outros proprietários e estabeleceu parcerias com mais de 850 projetos para melhorar a saúde das margens dos rios e da água.
Tecnologia que transforma margens erodidas
Um dos maiores avanços veio com a tecnologia de “pile fields”, que transformou córregos e margens que pareciam irreversíveis. A técnica usa estacas de madeira nativa cravadas no solo para estabilizar as margens, seguidas do replantio de vegetação natural. O presidente do MRCCC explicou em entrevista ao portal australiano ABC que a inovação abriu possibilidades onde antes havia apenas incerteza.
Os Watsons e seus vizinhos, Vern e Maxine Gilbert, foram beneficiados por essas estruturas. Os Gilbert perdiam terra a cada inundação, e com o pile field instalado em Kidaman Creek, o medo de perder a propriedade diminuiu.
No total, 16 desses campos foram instalados em locais críticos da bacia, com apoio de organizações como o Burnett Mary Regional Group e a Alluvium Consulting.
Impacto na qualidade da água e na vida marinha
Os ganhos na recuperação da bacia se refletem diretamente na Grande Barreira de Coral. Em 2022, durante a segunda pior enchente registrada, sedimentos cobriram campos de ervas marinhas que alimentam peixes, tartarugas e peixes-boi. Os pile fields estão impedindo 27 mil toneladas anuais de sedimento fino de chegar ao recife, o que representa uma contribuição vital para a qualidade da água.
Voluntários do programa Waterwatch monitoram regularmente a saúde dos cursos de água, medindo temperatura, pH, salinidade, bactérias E. coli, oxigênio dissolvido e turbidez, e esses indicadores ajudam a orientar os próximos passos da restauração. Por conta dos resultados, os governos federal e estadual de Queensland comprometeram 2 bilhões de dólares australianos para melhorar a qualidade da água do recife entre 2014 e 2031.
O Rio Mary continua recebendo investimentos e trabalho comunitário porque a restauração de uma bacia hidrográfica danificada é um processo longo. Mas os resultados práticos já mostram que a degradação não é sinônimo de irreversibilidade.













