Um agricultor do Malawi desenterrou oito peças de cobre escondidas sob uma árvore em Chombe, em 1967. 59 anos depois, cientistas rastrearam a origem do metal até uma mina a quase 800 km de distância, na República Democrática do Congo.
O estudo, publicado no Journal of Archaeological Science: Reports, evidencia um fato histórico importante: como comerciantes da Idade do Ferro moviam o cobre por longas distâncias na África Austral. Para privilegiar a segurança, eles usavam canoas em rios extensos, em vez do trajeto mais curto por terra.
O achado reforça que os povos antigos da região mantinham conexões comerciais mais amplas do que se imaginava. Segundo o curador-chefe do Chichiri Museum, Smeda Matundu, o resultado orgulha a arqueologia local e prova o alcance dessas conexões.
Peças que fogem do padrão da época
Das oito peças achadas no fim dos anos 1960, apenas cinco sobreviveram. As outras três desapareceram ao longo do tempo. O formato em X é semelhante ao de artefatos localizados entre a Zâmbia e o Zimbábue, datados entre os séculos 14 e 18.
Ainda assim, as peças de Chombe chamam atenção por serem visivelmente mais leves e mal-acabadas que as demais. Jay Stephens, da New York University, observou que elas não foram produzidas por metalúrgicos experientes. Alguém pressionou objetos originais contra areia úmida para criar réplicas mais finas, em um processo rápido e improvisado.
Um enterro sem explicação até hoje
Por que alguém escondeu essas cópias sob uma grande árvore continua sem resposta. Para Stephens, a decisão intriga justamente por não haver pista alguma sobre a intenção de quem fez isso — talvez a ideia fosse voltar para recuperá-las depois, algo que nunca aconteceu.
A localização do achado dificulta a explicação: o Malawi não possui nenhuma jazida própria de minério de cobre. Por isso, o cobre precisava vir de fora, e pequenos depósitos em Moçambique foram descartados como origem provável por terem tido uso restrito historicamente.
O caminho traçado pelos isótopos de chumbo
Para localizar a fonte real do metal, os pesquisadores recorreram à análise de isótopos de chumbo, comparando a assinatura mineral das peças com jazidas conhecidas do continente. A técnica funciona de forma parecida com identificar peças originais de veículos diferentes: cada depósito de minério carrega uma composição química praticamente única.
O resultado apontou para a mina de Kipushi, perto de Lubumbashi, na República Democrática do Congo. A Faixa de Cobre, que fica na fronteira entre Zâmbia e RDC, abriga um dos maiores depósitos de cobre do mundo.
Dali, o material teria seguido por canoas ao longo do rio Kafue, depois pelo rio Zambeze, e finalmente atravessado Moçambique até alcançar o interior do Malawi — um trajeto de mais de 1.000 km. Embora uma rota terrestre direta fosse possível, essa via fluvial era mais segura e mais prática, mesmo sendo mais longa.
Segundo Matundu, essa rota reforça que os ancestrais resolviam os mesmos problemas que qualquer comerciante enfrenta hoje: como transportar uma mercadoria pesada e valiosa por terreno difícil minimizando custos e riscos. O mistério sobre quem escondeu as peças de Chombe e por qual razão, porém, segue sem solução mesmo depois de décadas de estudo sobre o achado.













